Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

21
Jul06

Divagações dos andarilhos

riverfl0w
Ainda o grupinho de cinco andarilhos que se passeou pela Serra da Estrela no passado fim-de-semana. Falta referir o percurso feito. Quem sai de Loriga e se lança serra adentro, tem um belo de um trilho que sobe, sobe, sobe, e sobe, até lá bem acima, até à Estrela, a tal da falcatrua dos dois mil metros. Pelo caminho, existem locais de se lhe tirar o chapéu, entre os quais está o Covão da Areia, nosso destino para pernoitar. O caminho, entre calhaus e mato, convida a reflexões profundas. A Ana (nome de código já referenciado, difícil de decifrar) prestou-se a relatos científicos sobre o seu estágio como enfermeira na secção de urologia de um qualquer hospital português. Urologia, como todos sabem, é aquela ciência das pilas. Portanto, fomos agraciados com descrições entusiásticas de suturações, erecções involuntárias, e outras coisas do mesmo calibre, que deram uma excelente música de fundo a parte da nossa caminhada. Os seios femininos, foram também alvo de grandes e profundas reflexões, nomeadamente a opção entre as mãos e a boca, as preferências de cada um, a consistência aos dezoito anos e a decadência posterior, e ah e tal, tudo num tom muito erudito, que nenhum de nós gosta de brejeirices, obviamente. Tivemos também uns momentos de aprofundamento de vocabulário e expressões, aquilo a que alguém poderia, sabiamente, chamar de enriquecimento cultural. Assim, ficámos a saber o que é uma “arreia na vaga” (ou qualquer coisa parecida). Trata-se de uma posição, portanto, de coiso e tal, também conhecida por “apanha o borboto”. Esta, acontece quando a mulher está em casa e se inclina para o chão para apanhar o borboto da alcatifa e o homem ah e tal por trás. Trata-se de uma inovação em relação à posição do aspirador, em que a mulher anda só ligeiramente inclinada para a frente a passar o aspirador pela casa, e vem o homem e ah e tal por trás. Portanto, anotem: “arreia na vaga”. A cultura portuguesa é demais! Mais vulgar está a expressão “suadela de quatro joelhos”, que gerou alguma discussão quanto à intervenção dos próprios joelhos, mas que, após esclarecimento dos mais cultos, também poderia ser “suadela dos quatro cotovelos” ou “suadela das quatro nádegas”, onde o “quatro” tem apenas o simplório papel de múltiplo de dois. Mais comum ainda, a “conchinha”, essa posição quase fetal, tão adorável. É bonito partilhar cultura. Entretanto, e porque estava muito calor e em redor só havia calhaus, a conversa deu para os gelados. De entre a oferta banal das arcas frigoríficas, destaca-se o “Calippo”, da “Olá”, pela forma como as jovens portuguesas lidam com ele, uma forma ostensivamente erótica e que deveria merecer uma maior atenção por parte dos pais, educadores e autoridades. Assim, decidimos que era pertinente a publicação de uma lei que restringisse a venda de gelados “Calippo” apenas a meninas maiores de dezasseis anos, num gesto claro de prevenção, para que não fosse acelerado o processo de desenvolvimento da sexualidade nas nossas adolescentes e crianças e, adicionalmente, evitando que estas jovens andassem por aí, em trajes de veraneantes e fio dental, a chuparem desenfreadamente pedaços de água gelada com limão, descontrolando potenciais pedófilos. Pelo caminho, parámos à beira da Fonte dos Carreiros, de onde jorra um fio de água incrivelmente límpido e puro, com sabor a granito. Tagarelámos com um outro grupo de andarilhos, que circulavam em sentido contrário, para trocar algumas impressões técnicas. Já de abalada, alguém do nosso grupo vislumbrou outro grupo que se aproximava da fonte e não hesitou em gritar bem alto “mija na água”! Ora bem, como já referi num post anterior, este nosso grupo era composto por licenciados, mestres e doutorados, mas, naquele preciso momento, senti-me a fazer parte de uma trupe de carregadores de baldes de massa em horário de almoço, à sombra de um andaime, a ver o gado a passar. O grupo que se aproximava, passou por nós, olhando-nos de lado, como que a tentar adivinhar quem tinha sido o porcalhão que tinha urinado para cima da fonte para que os demais dela não bebessem. Obviamente, ninguém urinou na fonte, e tudo não passou de uma brincadeirinha, mas pronto, sabem como é, o calor e ah e tal, provoca alucinações temporárias, algumas mais intensas que outras, e por aí fora. O momento alto da viagem foi quando o JN confessou a justificação que a sua mãe lhe tinha dado para que não tivesse relações com a namorada antes do casamento: assim, tendo relações antes do casamento, disse a senhora, ele não atingiria a “plenitude da espiritualidade em Deus”. É bonita, não é? Repetimos a frase vezes sem conta, até à exaustão, mas, mesmo assim, passámos a vida a engasgar-nos a cada vez que tentávamos pronunciá-la. Como se a nossa mente porca e muito pecadora tropeçasse constantemente naquela verdade divina. pickwick

2 comentários

Comentar post