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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

06
Set11

Toilettes de Verão

pickwick

No início do Verão, fui fazer uma singela caminhada na Serra da Estrela com uma amiga. A Liliana, vá!, que é nome de código e fica giro. É coisa salutar, barata e limpa os pulmões. É coisa que contraria as actividades que pratica a maioria dos portugueses: dão cabo da saúde, da carteira e ainda sujam os pulmões.

 

Mas, com tanta saúde e austeridade, houve um aspecto, nesta actividade, que não foi tão positivo assim. Aliás, direi mesmo que o aspecto em causa acabou por me atormentar durante todo o dia e ainda nos dias além, até que acabou por sucumbir ligeiramente à perda de memória que tanto me afecta.

 

Vamos por partes.

 

Parte I – Toilette “Mas eu fiz mal a alguém?”

Fui buscar a Liliana à central da camionagem de Viseu, essa grande capital de distrito. Alguma curiosidade pairava no ar. Será que ela vinha com botas militares até meio da canela e calças camufladas? Ou calças caqui de bolsos laterais? Ou botas para trekking? Não!... A Liliana apareceu com uma mini-saia rodada. Como é sabido, este tipo de mini-saia é o mais fatal de todos os tipos de mini-saia. Nem demasiado curta, para a dona não parecer uma galdéria, nem demasiado comprida, de como quem vai à missa. Não demasiado justa, que pareceria requerer autorização papal para consultar a bibliografia interior. É um modelo arejado, saudável, capaz de suscitar, no mais distraído dos distraídos, o desejo súbito de que sopre um ventinho mais arrojado. Enquanto nos dirigíamos para o carro, pensava para comigo: “Mas eu fiz mal a alguém? Parti os dentes a alguma criancinha ou senhora de idade? Era só para fazermos uma caminhada na serra! Eu, assim, não vou aguentar!” Bom, entrámos para o carro, e eis que, poucos metros à frente, tive que encostar para a Liliana ir ao Multibanco. O mundo inteiro, mais os astros e os anjinhos e o Pai Natal, estavam todos contra mim: a caixa do Multibanco estava num local elevado em relação ao carro. Estou tramado, pensei para comigo. O que poderia haver pior que uma mini-saia rodada dois metros acima do nível dos olhos? Exacto: umas pernas finamente talhadas a escorrer por ali abaixo até ao chão; sem pitada de celulite e com muita, mas muita fibra. Não havia mais condições para manter a serenidade que se impunha. Mas, teve que ser! Daí até ao cimo da serra, ainda seria bem mais de uma hora de caminho, sujeito a ataques sucessivos e violentíssimos de vertigens “downhill”. E o que são “vertigens downhill”? São vertigens em que um gajo está sossegado, mas, de repente, sente como que uma tontura (mas que não é tontura, embora se arrisque a fazer figura de tonto), e uma força misteriosa e invisível o puxa para cima da bem torneada coxa de uma mulher. Hora e meia nisto, resistindo valorosamente, foi obra!

 

Parte II – Toilette “Credo! É melhor olhar para o chão!”

Chegados ao destino, no belo lugar de Penhas Douradas, estacionei o carro e deixei a Liliana entregue à privacidade necessária para trocar de roupa (que eu já estava quase sem aguentar mais um minuto de sofrimento) para a caminhada. Agora é que iam aparecer as calças camufladas, pensei eu. Nã! Nada disso! Mártir que é mártir, não tem sossego. A Liliana sai do carro e… pumba! Leggings pretos e uma espécie de top cinzento. Tudo muuuuuito justinho ao corpo. Definitivamente, fiz muito mal a alguém num passado pouco distante. Mal refeito do choque e metemo-nos ao caminho. Credo, pensei eu. É melhor olhar para o chão! Ou para o lado. Fechar os olhos, não podia, por causa dos calhaus. Até à paragem para almoçar, junto a um ribeiro de águas límpidas salpicadas por flores brancas flutuando à superfície, foi mais hora e meia de tortura. Aquela coisa das leggings, é, basicamente, como que uma pintura a spray por cima das pernas, numa só camada. Permite apreciar pormenorizadamente a interacção muscular das coxas, dos gémeos e dos glúteos. Sempre com grande discrição, claro. O top cinzento justo, tem o defeito de permitir aferir a dimensão e a consistência da região do tórax, as quais, no caso particular da Liliana, estavam na dose perfeita para um gajo se desorientar. O meu azar, sinceramente, foi a Liliana frequentar um ginásio. Senão, a situação até poderia passar-me ao lado. Mas, não foi o caso. Aquilo eram pernas demasiado bem talhadas para um gajo se deixar distrair pelas plantas, pelos montes, pelos vales e pelos passarinhos. Enfim, depois parámos para almoçar, descansar, tirar umas fotos e apreciar a natureza, junto ao tal ribeiro. Entretanto, a Liliana estava entretida a fotografar umas plantinhas e eu estava entretido a fotografá-la a ela. Discretamente, claro. Ou não. Acho que já estava a perder a vergonha e não tirava os olhos de cima dela. Aqueles braços bem feitos e suavemente musculados, também, ui!, ui! Depois veio uma conversa sobre macrofotografia, ah e tal, ela encostou-se ligeiramente a mim para espreitar a máquina e pensei logo: nã!... tu deves é ter pegado fogo a um infantário sobrelotado na hora da sesta! Gaguejei? Não me lembro. Mas passou-me um arrepio pela espinha abaixo… Depois continuámos viagem, mais um bocadinho de tortura, deixámos o trilho e começámos a entrarem corta-mato. Eu, preocupadíssimo com o bem-estar da Liliana, e a rapariga, afinal, não tinha fibra só no corpo todo. Meteu-se por ali fora, no meio de um matagal de giestas, tojos e demais vegetação serrana, saltitando graciosamente de penedo em penedo, qual gazela passeando na savana. Mais uns pontos a favor dela.

 

Parte III – Toilette “Ufff!...”

Finalmente, estávamos de volta ao carro. Mais um bocadinho de privacidade para a muda de roupa. Eu já não sabia se havia de esfregar as mãos de contente por ir passar mais uma hora e meia sentado ao lado de uma deliciosa mulher de mini-saia, com umas coxas que me tiram a serenidade toda, ou se havia de começar a rezar antes de hora e meia de “vertigens downhill”. Tortura pura. E se eu me enganava a meter uma mudança e me “caía” a mão em cima da pele daquela coxa tão ah e tal? E se me descuidava e ficava colado naquelas coxas e deixava o carro resvalar para o meio dos pinheiros-de-casquinha e das tramazeiras e dos penedos? Ó vida difícil! Estava entregue a estes pensamentos pecaminosos, quando ela saiu, finalmente. De calças de ganga justas. A terceira toilette do dia. Pensei logo: ufff!... Acabou-se parte do tormento! Mas, atenção! Aquelas calças de ganga não são de se menosprezar. São as calças perfeitas para um qualquer passeio ou jantar, em que um homem sente aquele prazer infinito de estar orgulhosamente na companhia de uma bela mulher. Parámos, mais à frente, para provar a água na nascente do Mondego, e tive oportunidade para verificar que, efectivamente, aquelas calças eram umas boas calças. Portanto.

 

E pronto. Fui levá-la para apanhar o autocarro de volta à terra dela e regressei, sossegado, conforme consegui, para a paz da minha casinha. Seguiram-se umas quantas noites mal dormidas, assaltado por visões de mini-saias rodadas, de leggings pretas, e dos contornos irresistíveis do corpinho da Liliana. E agora, só por causa de estar para aqui a escrever isto, já estou mesmo a ver que vou ter outra noite mal dormida. Ai, a minha vida! pickwick

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