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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

16
Ago11

Que perfume era aquele?

pickwick

Como de costume, aproveitei uma ida ao supermercado para apreciar as paisagens, depois de alguns dias de completa clausura nos meus aposentos, a gozar umas assim-assim merecidas férias. Era hora do almoço, altura favorita para fazer compras sem o reboliço do povo a circular. E era Agosto.

 

Entre os pouquíssimos clientes, encontrava-se uma figura feminina com cerca de 1,85m de altura, esguia, elegante, bonita, mas discreta. Uns 30 aninhos, mais coisa, menos coisa. Olhei-a de soslaio, enquanto ela pedia não-sei-o-quê na secção dos fiambres, queijos e demais frios. Ah e tal, tão fofinha, pensei eu. Aparentemente, fui menos discreto que o costume, e fui apanhado a gabar-lhe silenciosamente os contornos.

 

Menos de um minuto depois, cruzei-me com ela – inesperadamente, ou seja, sem planeamento estratégico prévio – na secção dos iogurtes. E as coisas começaram a correr mal. Entrou-me pelas narinas acima um odor impressionante, proveniente da supra citada figura feminina, que me deixou como que psicologicamente intoxicado. Muito. Quase sem me conseguir conter, virei-me para ela e simplesmente fiquei de queixo caído, a olhá-la, tentando evitar que um fio de baba me começasse a escolher pelas beiças abaixo. Obviamente, fui apanhadoem flagrante. Jáera a segunda vez num espaço demasiado curto.

 

Não sei que perfume era aquele. Não me era estranho, mas não consegui encontrá-lo no bafiento baú das minhas memórias. O que sei, é que tinha efeitos extraordinários. Senti-me quase irresistivelmente compelido a bater os pés no chão e começar a uivar ruidosamente, com a dentuça arreganhada, qual lobo esganado de fome perante um aromático presunto.

 

Normalmente, sou um homem discreto, contido, e disfarço, com inegável habilidade, os meus momentos de apreciação das qualidades femininas que se atravessam no caminho. Acontece que, vários factores contribuíram para a excepção à regra neste dia:

 

a) Tinha feito uma corridinha nos pinhais há menos de uma hora, precisamente naquela hora do dia de maior calor.

b) Ainda não tinha parado de transpirar por completo, apesar do banho de água fria.

c) Ainda não tinha almoçado e nem sequer tomado o pequeno-almoço.

d) No dia anterior, comi apenas três maçãs durante o dia todo.

 

Ou seja, por motivos de ausência de uma-coisa-qualquer-que-não-sei-o-nome, devido à falta de ingestão de comida nutritiva, o cérebro esta numa fase em que pouco faltava para dar o “tilt”. Qualquer coisa do género 2x3=7. Vergonhoso, portanto.

 

A moça, coitada, ainda teve o incómodo de me apanhar mais duas ou três vezes a olhá-la lá do fundo dos corredores. Não sei o que se passava comigo, mas aquele perfume era demais, e parecia que tinha ambientado todos os cantos do supermercado. Não tinha como escapar daquele aroma impressionante e irresistível.

 

Convenhamos que a moça não era assim uma coisa do outro mundo. Se fosse moça de tirar o estrume às vacas todos os dias, certamente nem teria dado conta dela. Mas, o perfume fez a diferença.

 

Eu costumo ser pouco sensível a perfumes. Bom, há um certo perfume que me deixa agoniado, e por causa dele terminei um relacionamento há muitos anos atrás, mas isso agora não interessa. Mas este… era demais… Hipnotizante! Completamente.

 

Sinto-me altamente fragilizado. Provavelmente, estará na altura de começar a andar na rua com uns tampões nas narinas, eventualmente de cor bege, para camuflar. Ou, então, sair menos de casa. Ou ir ao supermercado com uma mola da roupa no nariz. pickwick