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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

28
Jul10

O sacana do berbequim

pickwick

Há cerca de um mês atrás, ainda as cervejas não se evaporavam instantaneamente das garrafas, fui fazer um percurso pedestre na Serra do Caramulo: a Rota dos Caleiros. Deixei o carro na base do Caramulinho, do lado da estrada oposto à fonte, e fiz-me ao caminho, para uma jornada de algumas horas.

 

Não há muita gente a meter-se a fazer caminhadas a pé na natureza, aqui neste triste país, sendo que os hábitos são mais de acomodar as nádegas à esponja do banco do carro. Mas, ainda assim, o Caramulinho recebe muitas visitas, gente aventureira que ousa abandonar o carro no sopé de um amontoado de penedos e subir a pé até ao cume.

 

Comecei o percurso lá para as 11h00 da madrugada, e, à hora do almoço, estava plantado algures no meio de nenhures, à sombra de umas quaisquer árvores, a dois metros de um modesto curso de água. Isto de caminhar na serra, ah e tal, sobe e desce, desce e sobre, é muito cansativo, em especial no verão. Por tal, o almoço, em jeito de piquenique, começou com camarões cozidos. Eu gosto de camarões cozidos. Há uns humoristas que lhes chamam “carapaus com bigodes”, mas eu, se fosse camarão, ficava ofendido e metia logo alguém em tribunal. Não me recordo do resto da ementa, mas é impossível esquecer a bela da sesta que se seguiu ao repasto. Enfim, qualidade de vida, portanto.

 

Lá para meio da tarde, quando cheguei ao carro, ainda havia gente a subir e a descer o Caramulinho. O porta-luvas do meu carro estava aberto, o gorro que uso por cima do orifício para as latas de cerveja estava fora do sítio, e a porta do pendura estava embelezada com um bonito e artístico furo de berbequim com broca de 8 milímetros. A fechadura, claro, já tinha passado à história. Felizmente, não tinha ficado nada esquecido no interior que interessasse ao artista do berbequim: nem o taco de basebol, nem os documentos do carro, nem o canivete comprado no Alentejo, nem o colete, nem o macaco do carro, nem a peúga emporcalhada com a qual limpo o pó.

 

Enquanto abandonava o local com uma raiva miudinha a morder-me as entranhas, serra abaixo, lembrei-me de um belo dia um de Janeiro, há uns anos atrás, quando, por causa de me terem gamado uma mísera antena do carro durante a noite, puxei da minha então fiel faca-de-mato com lâmina de 23 cm e, esgrimindo-a habilmente no ar enquanto bradava ameaças e vinganças sobre o povo do Sabugueiro, arranjei maneira de evacuar o largo da igreja e deixar entregues à solidão o monte de toros da tradicional queimada. Um gajo envelhece, amolece, e nem uns patéticos 5 cm de lâmina de canivete é capaz de erguer aos céus! Tristeza... E, ainda bem que não, ou a minha companhia de caminhada ainda era capaz de começar a gritar por socorro, ao ver-me em tais preparos...

 

Depois da calmaria que durou ainda algumas horas após a descoberta do furo, a solidão do regresso a casa transportou-me para uma coroa de pensamentos mais ajuizados. Sim, porque, a bem dizer, não há nada como ter muito juízo depois de descobrir o carro assaltado e a fechadura estragada com um furo de berbequim. E, caindo em mim, inundado por litros e litros de juízo, comecei a delinear um eficaz plano de trabalho, o qual passo a descrever em linhas gerais:

 

1. Mal chegasse a casa, elaborava um cartaz A4 com os desenhos de uma caveira e duas catanas, e os seguintes dizeres: “Procuro o sacana que me assaltou o carro com um berbequim, no dia X, no Caramulinho. A sentença é a decapitação!”

 

2. Imprimia umas trezentas cópias do cartaz.

 

3. Nessa mesma noite, regressava à Serra do Caramulo e, a golpes de pionés ou com tiras de fita-cola, espalhava os cartazes pela vila do Caramulo e outras aldeias serranas, em locais frequentados, nomeadamente comércio, incluindo um eventual posto da GNR.

 

4. Nos fins-de-semana seguintes, regressaria ao Caramulinho e, deixando o carro exactamente no mesmo local, plantar-me-ia, de forma camuflada, em local estratégico para uma eficiente vigilância da área, na expectativa de uma reincidência do sacana.

 

5. Na eventualidade dessa reincidência, assim que o sacana puxasse do berbequim em direcção a um qualquer veículo, eu saltaria de trás dos arbustos, de catana afiada em punho, saltitava de penedo em penedo com a suavidade das artes marciais, e, com um pulo final muito felino, cortaria o magano às postas, postinhas e fatias. O ataque seria tão fulminante e fatal, que do corpo mutilado jorraria um sem número de esguichos de sangue que pintariam de vermelho as bonitas bétulas que crescem no sopé do Caramulinho!

 

Entretanto, já na minha aldeia, e porque não me apetecia gastar toner para a impressora, passei pelo Pingo Doce para comprar umas cervejolas e vim para casa afogar as mágoas em cevada, para encerrar o assunto até à ida ao bate-chapas. pickwick

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