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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

27
Jul06

Crónicas de um príncipe desencantado –- Parte 2

riverfl0w

(mais uma esforçada tentativa... Lúcia, o que eu não faço por ti?...)

A Primavera já ia no fim. Jean-Pierre, montado no seu fiel corcel de nome Asdrúbal, não mostrava sinais de cansaço, apesar de já terem passado muitas semanas e muitas léguas sobre o dia da sua partida. Ainda assim, o destino parecia fugir-lhe. Certo dia, ao parar debaixo de um chaparro no cimo de um monte, procurando apaziguar o intenso calor que o sol abrasador trazia aos mortais, viu ao longe um pássaro. Batia as asas, com a delicadeza de uma cegonha, subindo e descendo em altitude, como quem brinca com o céu. Jean-Pierre gostava de pássaros, especialmente de cegonhas e borboletas. Eram bonitos e artísticos. Com o braço, limpou parte do suor que lhe escorria da testa, impedindo-o de alcançar, com a vista, toda a beleza natural até ao limite do horizonte. O calor era mesmo muito. Enquanto se perdia em pensamentos, sonhos e apreciações, não tomou consciência de que, o pássaro que ao longe batia as asas, estava agora bem mais próximo. E bem maior. E com umas asas estranhas. Jean-Pierre deslocou-se para que as folhas do chaparro lhe proporcionassem uma visão mais fidedigna da ave que, aparentemente, se aproximava, lentamente. Algo não batia certo, entre o tamanho do pássaro e o tamanho das árvores. Aquele pássaro, parecia muito maior do que qualquer pássaro, quase do tamanho das próprias árvores! Monstruosamente grande, portanto. Quando se encontrava a cerca de 178 metros de distância de Jean-Pierre, o misterioso pássaro estacou nos ares, com um movimento brusco mas elegante, rugiu, vomitou uma língua de fogo, e precipitou-se para o vale ali mesmo em frente, penetrando numa clareira escondida por árvores enormes. Agora, sim. Jean-Pierre tinha a certeza de que pássaro era aquele: era um temível pintassilgo-dragão-mutante. Este perigosa espécie tinha sido enjeitada duma ménage-à-trois entre um pintassilgo, um dragão e uma lata de desperdício tóxico. Uma coisa nada bonita de se ver, tida pelos caçadores como muito difícil de abater. Em décimas de segundos, o rugido do pintassilgo-dragão-mutante foi secundado pelos gritos histéricos de seres humanos, especialmente os guinchos inconfundíveis e irritantes de mulheres. Sempre as mulheres, aos guinchos! Uma aldeia estava em perigo e só ele a poderia salvar. O sentido de dever não deixou Jean-Pierre parado nem mais um instante. Numa questão de segundos, Asdrúbal tinha-o levado floresta dentro, partindo ramos e esmagando flores, como uma turba imparável de salvação dos pobres e oprimidos, numa velocidade vertiginosa. Ao longe, o pêlo acinzentado do cavalo parecia uma bala lançada por um canhão, rasgando o ar por entre troncos e arbustos. Jean-Pierre aproveitava a viagem para tirar um resto de ervilha dos dentes da frente. Não ia querer aparecer na aldeia com um dente verde, pois não? Enfim, cavalo e cavaleiro chegaram à clareira, onde se erguiam as modestas cabanas de uma aldeia. À entrada, uma placa indicava o nome da povoação: Afinfadura-de-Baixo. Bonito nome, pensou Jean-Pierre, observando o panorama. O poderoso e enorme pintassilgo-dragão-mutante tinha lançado a confusão geral. Telhados ardiam, mulheres fugiam para todos os lados, homens enfraquecidos pela miséria procuravam, em vão, alvejar o pássaro com pedras, enxadas e baldes. O calor insuportável ajudava à festa. O bicho chafurdava por entre as cabanas, pegando fogo a umas, arrancando o telhado a outras, sacudindo um ou outro corpo que se atravessasse no caminho. Nisto, um homem aproximou-se de Jean-Pierre, com passo apressado, um saco de linho a tiracolo, lábios cerrados pela raiva e um bocadinho de espuma a saltar fora.
- Então, amigo? Como é? – perguntou Jean-Pierre, na sua inocência.
- Não é! Esqueceram-se de lhe levar o alpista, esta semana, e agora o estúpido do pássaro vem para aqui, outra vez, à procura de alguma coisa para comer! É sempre a mesma coisa!
O homem seguiu caminho, no mesmo passo apressado. Jean-Pierre voltou a olhar para a aldeia, tentando engendrar uma solução. Como não trazia alpista, a coisa teria que se resolver mesmo à pancada. Jean-Pierre não apreciava violência, especialmente contra os animais, de quem tanto gostava, por serem também filhos de Deus e mais não sei o quê. Mas ali impunha-se actuar. No momento em que impelia Asdrúbal para a frente, o pintassilgo-dragão-mutante levantou voo, dando às asas com vigor. Do bico pendiam restos de roupas de mulher. Em doze batidas de asas, o pássaro desapareceu por cima das copas das árvores. Um burburinho de vozes começou a crescer de tom, no centro da aldeia. Jean-Pierre aproximou-se, para tentar perceber. Alguém elevou a voz mais alto e anunciou, dramaticamente: o pássaro raptou Corniceia, a filha do chefe da aldeia! Upa, pensou Jean-Pierre, isto está correr bem... o chefe tem uma filha?... Os seus pensamentos voaram, por instantes, para uma aldeia distante, num sonho, cercada por árvores, onde vivia a filha do chefe da aldeia, linda de morrer, virgem até aos tornozelos (a contar de cima), loiríssima como o ouro, com uns olhos azuis como o céu, infinitamente prendada e capaz, senhora de uma cultura fabulosa, meiga, doce, dotada de um corpo escultural por debaixo daquelas vestimentas foleiras de antanho. O seu amor, por certo. Entretanto, ia Jean-Pierre começar a imaginar a filha do chefe a preparar-se para tomar banho toda nua no ribeiro, os aldeões toparam-no, no seu corcel, com as suas vestes e as suas armas. Não deixava dúvidas de que era um cavaleiro, certamente, e dos bons, que salvam princesas e batem com a espada nos maus. Um dos aldeões, mais bem vestido e mais bem alimentado que os restantes, dirigiu-se a Jean-Pierre, com o sobrolho carregado por algum fardo terrível.
- És tu, nobre cavaleiro, quem vai salvar a minha filha, a doce Corniceia?
- Olhe, para si, é príncipe Jean-Pierre, está bem? Vamos lá ver esse respeitinho!
- Peço desculpa, ó glorioso príncipe. Por momentos, pensei que haveria quem salvasse a minha linda Corniceia das garras daquele palhaço mutante sem penas...
- Bem, lá por ser príncipe, não quer dizer que não seja capaz de dar dois safanões num pássaro grandalhão e atrofiado das ideias!
- E ides salvá-la?
- Hum… bem… estava capaz disso…
- Se a vossa coragem for tão grande como a vossa generosidade, e a ferocidade tão grande como a coragem, estou certo que levareis a bom porto a empreitada de salvar a minha querida Corniceia.
- Ah, bom… - Jean-Pierre lambia as beiças com tanto piropo.
- A vossa recompensa será a sua mão, com a minha bênção. O casamento será três noites depois do seu regresso.
- Combinado, ó chefe da aldeia.
Uma aclamação histérica dos aldeões, acabou com o ambiente suave e pacato da cena, voando pelos ares ancinhos, peles de coelho curtidas, leitões e ceroulas de linho. Os aldeões festejavam o futuro que ainda não tinha chegado: não só a filha do chefe seria salva, como casaria com um príncipe!
- Adeus, ó gentes! – gritou Jean-Pierre, empinando o corcel num gesto de vitória.
Cavalo e cavaleiro lançaram-se no rasto do pintassilgo-dragão-mutante que fugira com Corniceia, a lindíssima filha do chefe da aldeia de Afinfadura-de-Baixo. Destemido, corajoso, forte, viril, seria Jean-Pierre capaz de fazer frente ao pássaro e resgatar a futura princesa?

(Marta, consegui escrever uma aventura inteira sem que aparecessem mulheres ou homens com pêlos, viste? Os únicos pêlos eram os do cavalo. Ah... o que eu não faço pelas leitoras...) pickwick

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