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Sexta-feira, 28 de Julho de 2006
Crónicas de um príncipe desencantado - Parte 3

(está cada vez mais difícil não avacalhar esta aventura...)

Já somavam 13 dias e 13 noites de uma louca corrida no rasto do pintassilgo-dragão-mutante, quando, finalmente, pelas 23h45, Jean-Pierre encontrou indícios claros de que estava bem próximo do seu objectivo. Parado na margem de um lago, observava a margem oposta. Lá, em frente da entrada de uma caverna escura, uma fogueira iluminava graciosamente tudo ao seu redor. O pintassilgo-dragão-mutante, certamente crente de que teria escapado impune àquele vil assalto, dançava sapateado em cima de uma grande laje de granito, enquanto dois esquilos tocavam uma célebre música dos “Da Vinci” numas harmónicas ferrugentas e desafinadas. A cena era arrepiante, mas Jean-Pierre não era homem para se deixar intimidar facilmente. Deslocando-se furtivamente por entre árvores e arbustos, afastando habilmente ramos caídos que poderiam denunciar a sua passagem, foi-se aproximando. Com a espada em punho e o olhar cintilante, nada o poderia deter. A meio do caminho, parou num snack-bar medieval e pediu uma Coca-cola fresquinha. Estava ainda mal disposto do almoço. A carne de hipopótamo não ficou lá muito bem assada, por causa da imensa camada de gordura, e a digestão demorava. Não podia correr o risco de enfrentar o pintassilgo-dragão-mutante e tombar com uma indigestão, vomitando nacos de hipopótamo meio crus. A reputação de um príncipe é muito importante! Já mais recomposto, Jean-Pierre meteu-se novamente ao caminho. Asdrúbal seguia-o pela trela, metros atrás, fiel como sempre, abanando a cauda e petiscando avelãs caídas no chão. Por fim, o príncipe chegou ao destino. A maior prova da sua vida, até então, estava ali mesmo. Deixando Asdrúbal, o seu fiel corcel, escondido no mato, avançou em passos largos para a laje onde o pássaro dava o seu espectáculo de sapateado. Os esquilos foram os primeiros a darem conta da presença estranha, parando de tocar. O pintassilgo-dragão-mutante também parou de dançar, procurando a origem da interrupção. Homem e pássaro olharam-se. Trovões ecoaram nos céus e os esquilos puseram-se a andar para bem longe. Não eram precisas faíscas para dar mais ambiente ao confronto que se avizinhava: o reflexo das chamas da fogueira no aço da espada e as narinas fumegantes do pássaro, bastavam!
- Quem ousa importunar-me? – inquiriu o pássaro com uma voz cavernosa e possante.
- C’est moi, Jean-Pierre – respondeu o príncipe, com pronúncia da Golegã.
- E que quereis? Vindes em busca de algo? Ou quereis apenas ser comido ao meu jantar?
- Venho para salvar a bela Corniceia, que raptaste de forma cobarde, dias atrás, numa aldeia. Ela é a filha do chefe e ele presentear-me-á, quando regressar, com a sua mão.
- Viestes este tempo todo, atrás de mim, para depois ficardes com a mão gordurosa do chefe de uma aldeia? Muahahahahahah!...
- Xiu! É a mão da filha e atrás vem o resto do corpo todo!
- Ah! Quereis a moçoila que tenho ali na caverna, não é? Quereis privar-me de um sossegado, abundante e suculento repasto, não é? E, ainda por cima, quereis casar com ela, não é?
- Sim! E pelo gume desta espada assim será! – Jean-Pierre brandiu a lâmina no espaço, com um ar feroz, capaz de desfazer o mundo com um só golpe.
- E sois vós e mais quem, posso saber?
- Sou apenas eu! - Oh meu amigo, mas vamos ter que nos chatear? Então tanta coisa e é só um pindérico com um canivetezito de escuteiro na mão que tenho que enfrentar? Isto começa a ser ofensivo da minha dignidade!
- Nem mas, nem meio mas. Pela espada morrerás, ó pássaro!
- Eu não disse “mas” nenhum, ó general da cueca!
- Adiante, deixai que o silêncio afogue a vossa fraqueza e o gume da minha espada faça a merecida justiça!
Evidentemente, não havia mais lugar a conversa fiada. Além do mais, Jean-Pierre começava a ficar cansado de estar sempre a tratar o bicho na segunda pessoa do plural. Homem e pássaro prepararam-se para o embate. Ali, na laje de granito, à beira do lago e com a luz da fogueira crepitante, o destino estava em jogo. Estudaram-se mutuamente. A espada subiu e desceu, a mão segurou-a com mais força, as narinas fumegantes abriam e fechavam, as dentuças brancas, do tamanho de pés de girassol, rangiam entre a saliva quente e asquerosa. De súbito, os pulmões do animal incharam-se até mais não. Jean-Pierre sabia o que vinha a seguir. Sem mais demora, soltou o cabo da espada e agarrou-a pela ponta da lâmina. Fulminante, lançou a espada pelos ares, em direcção ao inimigo. Este, esvaziava os pulmões, lançando uma labareda do tamanho de uma carrinha Hiace. Fogo e aço cruzaram-se nos ares. A paixão do realizador pela câmara lenta permitia apreciar o momento, segundo a segundo. Bonito! Muito bonito! A lâmina penetro o pintassilgo-dragão-mutante entre os olhos, desfazendo-lhe o cérebro, cortando o comando daquele corpo gigantesco, nu e possante. Toda aquela massa estacou, por segundos, tombando de seguida, com um estrondo medonho, rachando parte da laje de granito. Nem um pio de agonia. A morte veio certeira. Do outro lado da contenda, Jean-Pierre agonizava no chão. A labareda tinha-o atingido de frente. O clarão e o excesso de calor, embora não lhe tivessem provocado queimaduras – o sortudo! -, deixaram-no cego, temporariamente, com dores dilacerantes, que quase o fizeram desmaiar. Desesperado, apesar da vitória, assobiou para chamar o seu fiel corcel. As beiças chamuscadas não lhe permitiram emitir o assobio correcto, mas Asdrúbal era, entre outros atributos, um tradutor nato, pelo que rapidamente compareceu junto do dono, com um sorrisinho maroto. Jean-Pierre chorava, junto do seu cavalo, que continuava a sorrir. Aquilo eram dores demais para suportar por um só homem, especialmente com o cavalo a rir-se. Os olhos parecia que saltavam das órbitas, em chamas. Num gesto de partilha e amor, justo, Jean-Pierre agarrou firmemente o seu cavalo pelos testículos. Asdrúbal atirou-se para o chão, contorcido com dores terríveis, esperneando e relinchando quanto podia, fazendo coro de agonia com o dono, em perfeito desafino. A choradeira foi interrompida, subitamente, por uma melodia divina: uma doce voz de mulher. Como o canto de uma sereia que vem salvar um marinheiro no mar infestado de tubarões. Jean-Pierre não via, porque estava ceguinho, mas a mulher, ou melhor, uma jovem de cerca de 19 anos, aproximava-se dele, receosa, mal acreditando no cadáver do pintassilgo-dragão-mutante ali prostrado na laje.
- Quem sois vós? Fostes vós quem matou a fera?
- Sim, sim, porra, isto dói para caraças! Tens aí Fenistil?
- Oh, sois um príncipe que me veio salvar das garras do mal, o meu coração é vosso, a partir de hoje.
- E o resto? Só o coração?! Chiça, que isto dói…
- Qual resto? Que quereis dizer?
- Nada, nada… esquece…
- Vinde, tratarei de vós até estardes aptos para regressarmos à minha aldeia. O mundo, para mim, a partir de hoje, sois vós.
Em silêncio, Corniceia levou Jean-Pierre para dentro da caverna. Longos meses de recuperação esperavam o príncipe, nas mãos delicadas da bela Corniceia.

(bem, é melhor para por aqui, que é para não começar a inventar pêlos na miúda e ah e tal...) pickwick

publicado por riverfl0w às 01:27
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