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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

29
Jul06

Crónicas de um príncipe desencantado –- Parte 4

riverfl0w

(há gajos que deviam ser proibidos de escrever em público...)

A Primavera recomeçava. O longo e penoso Inverno tinha sido passado ali, naquela caverna, num aturado processo de recuperação da vista de Jean-Pierre. Corniceia, infatigável, tinha minguado o sofrimento do seu salvador, não se poupando a esforços e sacrifícios para o manter bem tratado, alimentado, quente e em grande paz. Os dias foram ocupados com as tarefas necessárias ao bem estar de ambos. Colher lenha e frutos silvestres na floresta, pescar solhas e sardinhas no lago, caçar búfalos e duendes na mata, bordar uns lençóis, lavar a roupa, alugar uns DVD’s, cortar lascas da carne de pintassilgo-dragão-mutante guardada em salmoura, enfim. Entre ambos cresceu uma amizade tão grande que o mundo inteiro é pequeno demais para ela lá caber. E, como entre a amizade e o amor, a linha divisória é, por vezes, muito ténue, pode dizer-se que uma paixão mal abafada crescera entre aquele homem e aquela mulher, unidos naquela espera infindável pela recuperação da vista de Jean-Pierre. A ternura passou a fazer parte do dia-a-dia, os carinhos inocentes invadiram o trato, a companhia mútua insubstituível. Jean-Pierre, incapaz de a apalpar, apesar da vontade incontrolável e dado ser uma atitude muito ordinária, precisava de usar outros sentidos do seu corpo para se ligar a Corniceia, pelo que memorizou a mais fina fragrância do seu odor perfumado, detectando a sua presença antes mesmo de lhe ouvir os passos ou a respiração. As dificuldades da situação tinham-nos aproximado tanto, que nada parecia poder separá-los. O amor, pensava Jean-Pierre, era lindo! Com a Primavera e sem os rigores do Inverno, a recuperação parecia tomar um rumo mais célere. A temperatura convidava a menos roupa, a mais liberdade e Jean-Pierre sonhava já com um banho a dois no lago em frente da caverna. Corniceia, ansiava com as mãos firmes e poderosas do seu secreto amado, besuntando-lhe o corpo feminino com mel tirado por ela própria de uma colmeia selvagem. Este pensamento altamente positivo teve o condão de acelerar a regeneração dos tecidos ósseos na vista do príncipe, pelo que, no início de Maio, acordaram retirar a venda feita de ceroulas rasgadas que protegia os olhos de Jean-Pierre. O momento tão esperado. Corniceia, com muito carinho e redobrados cuidados, retirou, volta após volta, todo o comprimento da venda dos olhos de Jean-Pierre. A escuridão da caverna ajudava a que o choque com a luz não estragasse tudo. Aos poucos, minuto a minuto, Jean-Pierre foi captando imagens à sua volta, embora tudo um bocado desfocado. Sombras, muitas sombras. E uma bola branca, de onde vinha a melodiosa voz da sua paixão. Os minutos deram lugar a horas e, ao princípio do anoitecer, quando a luz era mais fraca, Jean-Pierre saiu para fora da caverna, amparado pelo meigo braço de Corniceia. Ao longe, o sol caía no horizonte, deixando um lindo manto cor-de-laranja sobre as águas do lago. Muito romântico. Melhor não poderia ser, para aquele momento tão importante. As sombras e os focos de luz transformaram-se em vultos e silhuetas, tomando cada vez mais formas conhecidas e quase esquecidas na mente de Jean-Pierre. Os reflexos no lago à sua frente, as árvores abanadas pelo vento suave, as flores agitadas, passarinhos a chilrear, um elefante a saltitar suavemente de nenúfar em nenúfar, o sol a pôr-se ao longe, as cores da floresta, a cor do sol, a cor da água, o granito, as folhas. Era tão bom poder ver, novamente. Piscou os olhos vezes sem conta, para se certificar que a visão não desaparecia, que estava mesmo curado. Foi arrancado à divagação por um leve aperto no braço, o mesmo que Corniceia ainda amparava, com ternura. Acordou para a realidade! Ali, ao lado dela, estava a mulher pela qual saiu do seu castelo numa demanda de amor. Sorriu. Inspirou, pela milésima vez o perfume do seu agradável odor, fechou os olhos, voltou-se para ela e abriu-os.
- Arrrgggggggg!!!!!!!!!

Jean-Pierre estava para morrer! Mas que monstruosidade era aquela ali mesmo ao lado dele?
- Ai que nojo! Quem és tu? Onde está a Corniceia? Que lhe fizeste, sua vaca?!
- Mas… mas… eu sou a Corniceia!
- Aiiii… vira-te para lá, carago, que és tão feia e tão mal feita que perco já o apetite para o jantar! Arre!!! Só me faltava mais isto!
Corniceia caiu no chão de relva, num pranto sem fim, deitando baba e ranho por tudo quanto era orifício facial. Os passarinhos fugiram! Jean-Pierre quase não conseguia olhar de novo. Ter-se-ia enganado? Seria uma partida do sentido da visão que o abandonou durante tantos meses? Olhou de soslaio para a choradeira ali no chão. Não. Não se tinha enganado. Ali estavam 250 quilos de banha às pregas, encimadas por uma bola com dois olhitos, um corno a brotar da testa e uma dentadura horrível com algumas falhas. Um dos braços era revestido por uma pele semelhante a escamas de crocodilo, rugosa, nojenta. Sentiu o estômago a embrulhar-se, procurou conter um vómito involuntário, mas ainda escapou um restinho da carne do caldinho de lagarto do almoço.
- Que nojo!... Que nojo!... Que nojo!... – dizia em voz alta, sem parar, enquanto andava de um lado para o outro, inconsolável, quase que enraivecido.
Jean-Pierre estava a ver a sua vida, subitamente, andar para trás. Tanta expectativas e, afinal, calhou-lhe uma baleia deformada, na rifa. Era preciso ter azar. Muito azar! Mas, Jean-Pierre era um jovem bem formado e não deixaria que um azar daqueles lhe estragasse a demanda a que se propôs. Firme e decidido, colheu os seus haveres, as suas armas, as suas roupas, assobiou, montou o fiel Asdrúbal e deixou para trás todas aquelas tristezas e revezes, partindo ao encontro do pôr-do-sol. Nunca mais haveria de ser visto por aquelas paragens, nem nas mais próximas, e muito menos na aldeia onde tinha começado todo aquele disparate. A esperança é a última a morrer, antes da barata, e Jean-Pierre sabia bem disso. Nada estava perdido, para além de uns quantos meses da sua vida. Mais aldeias viriam, vilas e cidades, mulheres bonitas e cultas, raparigas simpáticas e doces. O mundo esperava-o e ele não queria que esperassem muito por ele. pickwick

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