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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

01
Set09

A mulher do dentinho

pickwick
Escapa-se-me, por completo, se algum dia escrevi sobre esta mulher. Nome de código: Fafe (isto não é falta de imaginação para gerar nomes de código, mas a memória falha cada vez mais e tenho receio de, a meio da divagação, esquecer-me de qual mulher estou a tratar).
 
Já não a via há uns três anos, quando trabalhei com ela. Depois ela mudou-se de poiso, para uns dez quilómetros ao lado, e nunca mais a vi. A Fafe era (e ainda é, que fiz a necessária verificação de rotina) casada e mãe de filhos. Qualquer mulher que seja mãe de filhos e mantenha um corpo invejável, merece a minha discreta atenção, sendo tal o caso. Como se não bastasse o corpo bem tratado (conseguido por herança familiar ou por esforço pessoal, não sei), a Fafe ainda tem um rosto bonito, daqueles que assentam bem numa almofada.
 
Hoje, passou lá para nos visitar e acompanhar a irmã, que vai passar a trabalhar connosco. Ora, enquanto dava dois dedos de conversa com a Fafe, um olho na conversa e outro nos predicados, fui apanhado de surpresa por um pormenor técnico que se me tinha varrido por completo da memória. Um gajo está a dar à língua, ah e tal, a gaja continua mesmo gira e boa, ena pá, e tal, quando, do nada, num sorriso simpático, surge um dentinho inoportuno!
 
Estou a ser simpático, é verdade. Não era bem um dentinho. Era um dente do tamanho de uma roda de tractor! Estive a rever umas coisas na Wikipédia e posso confirmar, sem margem para dúvida que se tratava de um incisivo lateral, espalmado e, por isso, de grande envergadura. Com bastante facilidade, quando um sorriso rasgado se transforma num sorriso mais moderado, isto é, quando se fecham as beiças para não se ser apanhado com meio centímetro de alface entre dentes, o enorme incisivo da Fafe fica preso na beiça de baixo, completamente exposto e solitário.
 
Posso garantir que não é um quadro bonito de se ver. Uma gaja, toda bem feita, bem aparecida, bem tratada, de boca fechada, com um enorme dente completamente sobreposto à beiça de baixo. Quando eu era miúdo, costumava desenhar palhaços e piratas mal encarados com um dente assim.
 
Fafe, querida, não há dentista na tua terra? E um cordel preso na maçaneta da porta, não? Francamente… pickwick