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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

11
Jul09

O pastor João ainda vive

pickwick
Há coisa de semana e meia, fui dar um passeio pedestre na Serra da Estrela. Bem, não foi propriamente um passeio, porque fui em missão. Eu gosto de ir em missão. Acho que me fica bem, especialmente de chapéu à pateta e chouriça na mochila. Ora, a missão consistiu em servir de guia a uns colegas de trabalho, na maioria mulheres, num percurso que me apetecesse.
 
Optei por um trajecto suave, com partida da Senhora do Desterro. Correu bem, porque, passado cerca de um quilómetro, uma das colegas recusou-se a continuar a marcha: ah e tal, eu gosto muito de caminhar, mas assim, não! “Assim”, era ensopadinha por causa da chuva que não parava de cair. Há mulheres que são esquisitas, pronto, não há grande coisa a fazer. Depois de olharmos todos uns para os outros, abrigados debaixo de uma grande árvore que aliviava a carga de água que caía dos céus, voltámos para trás, e entrámos para a secura dos carros. Não tem muita graça voltar para trás, mas, em democracia, é uma hipótese sempre a ter em conta.
 
No entanto, apesar da água, todos estavam de acordo que era muito foleiro regressar à civilização com toda a comida que tínhamos levado para o almoço, pelo que, assim sendo, decidimos ir de carro até à praia fluvial da Lapa dos Dinheiros, onde era suposto almoçarmos numa mesinha de madeira debaixo de um alpendre. E assim foi.
 
Lá chegados, o tempo fez-se seco e a malta quis dar uma voltinha a pé pelas redondezas, para não parecer tão mal. Levei-os, afinal, até ao caminho que era suposto termos apanhado inicialmente, junto a uma levada de água que partia da ribeira da Caniça.
 
Nostalgia, para o meu lado. A recordação das vezes que ali passei, com ou sem chuva, quase sempre com a mochila bem pesada. Por falar em chuva, passado um bocado recomeçou a chover. A determinada altura, abandona-se a levada de água e trepa-se por um caminho inclinado, por entre umas rochas. A vegetação molhada, a passar constantemente pelas nossas roupas, deu um resultado interessantíssimo, portanto. Passámos ao lado de um abrigo de pedras onde muitas vezes passei a noite à volta de uma chouriça e um copo de tinto. Lembrei-me do pastor João, que nos apareceu quase à meia-noite de uma passagem de ano, a reclamar com a fogueira e os incêndios e as cabras e a cabra da ex-mulher e sei lá mais o quê.
 
Por falar em cabras, uns metros mais à frente encontrámos um rebanho delas. Continuámos pelo trilho, devagarinho para não assustar a bicharada, até que apareceu o pastor respectivo. Ah pois, e era o mesmo da outra vez! Lindo serviço.
 
Ah e tal, vêm para aqui incomodar-me as cabras, estava eu ali a dormir sossegado debaixo de uma pedra, e tal, vamos ali comer um bocado de pão, coiso e tal. A malta que ia comigo parou de tirar fotografias às cabras, como se fosse a primeira vez na vida que viam cabras à solta na serra. E fizeram-se ao caminho. O pastor é que não tinha pressa nenhuma e insistiu em mostrar-nos uma queda de água, um buraco, isto e aquilo, continuando a oferecer pão. Acabei por ir sozinho atrás dele, para me mostrar um buraco qualquer onde a ribeira desaparecia debaixo das rochas. No regresso, aproveitei as rochas molhadas pela chuva para poder dar um ar da minha graça e espalhar-me ao comprido, como se fosse a primeira vez que andava na serra. Vergonhoso, eu sei, mas foi mais forte do que eu. Não sei é onde pus a mão ao cair, que fiquei com um golpe de todo o tamanho a jorrar sangue. Enfim, deve ser da idade.
 
Entretanto, a malta já ia lá à frente, talvez com medo do cajado do pastor, mas este estava tão divertido a conversar comigo e a contar estórias e mais estórias sobre aquelas paragens, que acabou por vir connosco e levar-nos por um atalho a direito até aos carros, com passagem pela sua quinta, onde o vimos dar dois dedos de conversa com uma rapariga, que não era sua irmã, nem sua namorada, nem sua mulher. Obviamente, proporcionou-se o convite para ele almoçar connosco, até porque tínhamos uma garrafa de tinto e uma geleira cheia de minis. Ah, pois é!
 
Por falar em almoço, é sempre estrategicamente positivo fazer piqueniques com mulheres. Eu bem que dou aquele ar de Tarzan, a puxar de uma chouriça e a chegar-lhe o fogo, mas, elas conseguem ultrapassar-me: sacam de uma quantidade impressionante de caixas e caixinhas cheias com petiscos e queijinhos e bolinhos e pastéis e mais não sei o quê, que um gajo fica logo intimidado.
 
Conversa puxa conversa, e acabámos o passeio em casa dele, a provar uns queijos da serra.
 
A reter: a mulher emprestada. O que é uma mulher emprestada? É uma mulher que é emprestada, não percebi bem por quem, nem a troco de quê, para todo o serviço. Presta-se aos trabalhos rurais, à lide de casa, aos recados, ao apoio moral, e, obviamente, a esse serviço de valor que é o “aconchego” do macho, naqueles momentos de maior precisão e alto índice de estrogênio. As coisas que um gajo aprende com um pastor… pickwick