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Segunda-feira, 31 de Julho de 2006
Esclarecimento

(A pedido de várias famílias, nomeadamente de uma família numerosa composta só por raparigas que assinam com nomes de código como Grru Grru, Curujinha, Raquel, e outros mais que virão e outros mais que já desapareceram por via do Alzheimer, torna-se premente prestar aqui esclarecimento sobre a vida e obra de Asdrúbal, o cavalo acinzentado do príncipe ferido num feroz combate com o pintassilgo-dragão-mutante)

Como é do foro público, Asdrúbal foi agarrado pelos testículos, pelo seu próprio dono em agonia, como forma de partilha de sofrimento, logo após o terrível embate de titãs. O sofrimento do cavalo foi brutal e intenso. Quem tem testículos, sabe bem do que falo! Bom, depois de a Corniceia ter levado Jean-Pierre para a caverna, para internamento, Asdrúbal ficou ali, no chão, contorcido com dores, a sofrer até à exaustão, durante 2 dias e 2 noites. Findo esse tempo, em que as dores horríveis não pareciam abrandar, o relinchar agonizante atraiu alguns animais da floresta. Os mais inofensivos, lançavam palavras de conforto: “anda lá, isso passa... acontece aos melhores”. Mas, nem todos os animais da floresta são inofensivos. Uma alcateia de lobos, comandada por um lobo enorme de nome Janeca, com três olhos e rabo de peixe, cercou o cavalo agoniado, na perspectiva de uma refeição gratuita e abundante. Quase mesmo nos últimos segundos que restavam, antes do ataque conjugado dos lobos, Asdrúbal foi salvo. Uma manada de zebras, chefiada por uma lindíssima e formosa zebra de nome Elisa, saltou para a cena, correndo com os lobos ao coice. Uivos de dor percorreram a floresta, entre orelhas rasgadas, focinhos esmagados, ossos partidos e cascos ensanguentados. Uma cena medonha. As zebras salvaram Asdrúbal. Salvaram-no e, não bastando, zelaram durante vários meses pela sua recuperação plena. Como é sabido, os testículos não se recuperam assim de um dia para o outro. É preciso muita afeição, muita paciência, muito carinho e muita persistência. Elisa, a zebra chefe, abdicou do seu posto de comando para se dedicar exclusivamente ao cuidado de Asdrúbal. Todos os dias, durante vários meses, Elisa tratou dele, colhendo ervas aromáticas e medicinais, aplicando compressas, massajando com óleo de girassol, tocando harpa para descontrair a mente, enfim, uma verdadeira enfermeira de quatro cascos e muitas riscas. Alimentava-o boca-a-boca com o melhor que havia de ervas, cogumelos e arbustos nas florestas em redor. Ocasionalmente, confeccionava-lhe um pudim de ovos de cágado, para a sobremesa. Aos poucos, Asdrúbal foi recuperando, até ao dia em que os testículos deixaram de doer, recuperando, até, a sua cor natural, deixando para o esquecimento a cor azulada que tiveram durante meses de sofrimento. Juntos, deram alguns passeios, falando de coisas triviais como o estatuto dos equídeos, o casamento entre zebras do mesmo sexo, as férias, etc. Num destes passeios, Elisa não resistiu em levar a conversa para a relação de proximidade que existia entre ela e Asdrúbal. A intimidade do tratamento, a dependência, o carinho, pareciam justificar um amor óbvio, pelo que seria natural falarem abertamente sobre o assunto e, tal como Elisa ansiava há muito, assumir esse amor perante o resto da manada. Mas, a conversa correu muito mal. Muito mal, mesmo. Asdrúbal, fiel à tradição de honestidade e frontalidade dos cavalos de príncipes, não quis deixar Elisa mais tempo iludida em expectativas. Sem rodeios, contou-lhe como se sentia zonzo cada vez que olhava para uma zebra, tentando adivinhar se eram riscas pretas sobre fundo branco, ou riscas brancas sobre fundo preto. Uma zebra a rebolar no chão, então, dava-lhe um enjoo, como no mar alto, por causa das riscas a girarem, como que um efeito de hipnose. Além do mais, apesar de Elisa ter um focinho larocas, era uma zebra, e as zebras não conseguem, por mais corridas que façam, por mais ginásios que frequentem, por mais saladas que comam, nunca, jamais, abater aquela barriguinha nada sexy e nada elegante. Apesar de a dívida para com Elisa ser infinita, não a poderia pagar com um amor que não sentia, nem com uma cavalgada fugaz atrás de uns arbustos. Ficaria por pagar. Ou, talvez um dia, uma oportunidade surgisse, quem sabe, se Elisa se visse em apuros. Elisa, perante estas revelações, e face à ansiedade acumulada ao longo de meses, não conseguiu conter um jorro de lágrimas de infelicidade. Tanta dedicação, tanto amor, tanto carinho, e nem uma cambalhota! Isto, não se fazia a uma zebra. O raio do cavalo não haveria de sair dali sem pagar com o corpo. Fingindo conformar-se com a situação, Elisa foi engendrando um plano para, com o auxílio das demais zebras, encurralar Asdrúbal numa clareira, atirá-lo ao chão e obrigá-lo a ter sexo com ela até lhe voltarem a doer os testículos. Depois, daria a vez às outras zebras, novas e velhas, feias e doentes, para, num festim porno, fazerem do cavalo o que bem quisessem, concretizando todos os sonhos e fetiches, até Asdrúbal sucumbir e morrer de exaustão. Foi, precisamente, no final desta conversa, e durante os pensamentos maquiavélicos de Elisa, que Asdrúbal foi salvo pelo assobio de Jean-Pierre. Como um tiro, desapareceu da vista de Elisa, levando-se a si próprio e ao seu dono para bem longe daquela floresta e da maldição das fêmeas feias e mal feitas.

(espero ter sido esclarecedor e que a querida leitora tenha tirado da cabeça essa ideia maldosa de fazer queixa de Jean-Pierre, ele próprio uma vítima) pickwick

publicado por riverfl0w às 00:02
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1 comentário:
De riverfl0w a 31 de Julho de 2006 às 19:13
E pensar que escrevo num blog onde há promiscuidade entre zebras e cavalos...

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