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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

21
Jan09

The first time…

pickwick

 

A pedido especial de uma leitora, vou arranjar maneira de me enterrar, com um relato pindérico da minha primeira vez. Assim seja.
 
Se eu fosse um índio, daqueles com a pele vermelha e penas a pingar do rabo-de-cavalo, provavelmente chamar-me-ia chacal-desconfiado. A desconfiança é, e sempre foi, uma característica que me condiciona no dia-a-dia, nas decisões, nas relações com as outras pessoas, enfim, em cada passo dado. E com elas, pior ainda. Ao ponto da paranóia, confesso. Mas, antes passar fome que ser apanhado em falso – era o lema.
 
A Ondinhas (nome de código, obviamente) foi o primeiro beijo, na porta que dava para as escadas de emergência do prédio dela. Assim uma coisa tipo passeio na lua, portanto, como se um gajo estivesse a provar cogumelos chineses pela primeira vez, daqueles todos besuntados e escorregadios, que não se podem trincar com muita força senão ou saltam disparados boca fora ou deixam um gajo a largar baba de forma vergonhosa. Um beijo, um encosto, um olho nas beiças dela, um olho no decote, um olho nas escadas, outro na porta do elevador, outro na porta do apartamento dela, outro nas portas dos outros apartamentos e o radar no máximo. Nestas ocasiões, um gajo desenvolve glóbulos oculares com uma multiplicidade digna de um épico do Kung Fu. Às custas desta desconfiança de ser apanhado em flagrante a babar-me para dentro da boca de uma miúda, fui oportunamente chamado à atenção pela mesma, no sentido de, de forma clara e objectiva, fechar os olhos e saborear o momento. Não dá. Mas resulta um gajo deixar uma nesga de um dos olhos abertos, quase sem se notar atrás das pestanas, e ir mudando de posição, enquanto faz de conta que está concentrado, para através da nesga controlar as beiças, o decote, as escadas, a porta do elevador, a porta do apartamento dela e as portas dos outros apartamentos. Não há nada como ser-se artista.
 
A fase seguinte, com a Ondinhas, foi a exploração anatómica do amor. Ora, dada a tenra idade de ambos, mais dela do que minha, a localização geográfica com melhor índice de segurança, para o desenvolvimento de tal actividade, era o próprio apartamento dela. Durante o dia. Com os pais fora. E as duas irmãs dentro. E às vezes a empregada também. É para estas situações que servem as fechaduras nas portas. Portanto, se da parte dela – miúda já com experiência, segundo confidência – as preocupações passavam pela panóplia de coisas que poderia fazer com a minha pila, e que a minha pila podia fazer-lhe a ela, assim como a diversidade de usos não verbais que se pode dar a uma língua e as diabruras que habitam nas pontas dos dedos, já as minhas preocupações eram mais… como direi… lá está… o índio “chacal-desconfiado”… a saber:
 
1. A irmã Cristina (nome de código) ainda era muito novinha para se poder interessar por essas coisas de gajos e ah e tal, mas nunca se sabia até onde podia esticar a sua curiosidade de saber se estávamos fechados à chave num gabinete a jogar ao Monopólio ou à Bisca. E um buraco de fechadura é sempre um buraco de fechadura.
 
2. A irmã Maria (nome de código), com quem estive no verão passado, já tinha idade para se interessar por coisas da vida, tendo uma pontaria impressionante para se passear pelo apartamento embrulhada numa modesta toalha (após um refrescante banho) no preciso momento em que eu ia a circular pela sala. O buraco da fechadura da porta é sempre aquela coisa e sabia-se lá o que lhe podia dar na telha para fazer, caso tivesse acesso visual às aventuras eróticas da irmã e do respectivo namorado.
 
3. Os pais, que trabalhavam na Câmara, tinham um horário pouco flexível, pelo que a orientação pelo relógio permitia-me entrar e sair do apartamento em segurança: de manhã, ao almoço e ao fim da tarde. No entanto, estar em segurança não quer dizer que um gajo se sinta em segurança. Assim sendo, estar trancado num gabinete do apartamento com a Ondinhas ou estar trancado no quarto dela(s), obrigava a uma reformulação permanente do plano de evacuação de emergência, dependendo das horas, das condições climatéricas, da quantidade de roupa no corpo e da mobília disponível. Um conjunto de variáveis com que é preciso jogar quando se planeia o que fazer se a mãe dela aparecesse de repente em casa fora de horas. A mãe até nutria uma simpatia engraçada por mim, mas a coisa mudaria de plataforma se desse comigo trajado em meia-cueca-molhada no apartamento do qual era proprietária.
 
4. O facto de, até aos catorze anos, ter apanhado umas valentes coças de chicote lá em casa, habituou-me a evitar situações em que possa ser apanhado em falta. Apanhado, nunca! Assim sendo, a última coisa em que me queria ver metido, era numa situação de jovem progenitor! O amigo Almeida, camarada de muitas saídas, lá me indicava os pormenores técnicos para evitar entalar-me com uma dessas, sendo que o emprego de dois preservativos em simultâneo era o expoente da técnica da prevenção. Com um, com dois, ou com vinte, um pingo em falso poderia originar o descalabro, dependendo de circunstâncias íntimas e independentes de cada um dos envolvidos. Todos os movimentos eram cuidadosamente executados, com frieza a mais, mas com muita convicção da minha parte, sendo que a Ondinhas se remetia para uma contestação completamente silenciosa – quando se é jovem, a paciência é mais abundante, portanto.
 
5. Embora não fosse uma coisa de suma importância, a dispersão desgovernada de fluidos pela mobília e outros adereços dos espaços utilizados, era, de facto uma preocupação, em especial naqueles momentos de enorme entusiasmo e pressão em que um gajo parece que nasceu com uma mangueira dos bombeiros em vez de uma pila. Havia, portanto, que tentar governar, com mão-de-ferro, a saída de fluidos. Nem que fosse aquela baba inicial.
 
6. Por fim, havia todo um mundo novo para explorar. Um gajo tinha visto em revistas, um gajo tinha visto na praia, um gajo tinha batido incontáveis vezes na privacidade da solidão, mas, realmente, não sabia o que havia para lá da superfície corporal de uma mulher. Tocar sem estragar, ok? Se apertar demais, rebenta? Cheira a quê? Mijou-se toda? Tem ali um caroço! Raio dos pêlos! Que coisa tão esquisita, com tantas peles. Um dedo? Dois? Três? Ah, miúda do caraças! Ena pá, cabe tudo lá dentro! Mas ela não geme? Espera, tem ali uma coisa dentro que parece uma serrilha! Que mamilos tão giros, cor-de-rosa, que mudam de tamanho. Como é que o Almeida lhe chamava? Clítoris ou clitóris? Se isto se rasga tudo, estou bem tramado! Hum, não sabe nada mal, vá lá. Líquidos com líquidos é que não, senão, estou bem lixado! Gosta de abrir as pernas, a garota, para mostrar que consegue fazer a espargata. Quentinho! Que raio!, não consigo chegar ao fundo! Com tantos apalpões e massagens mamárias, será que a mãe vai notar-lhe o corpo mais inchado, nas zonas mais íntimas, conforme uma das brilhantes teorias do Almeida?
 
Com tantas preocupações na cabeça, é óbvio que, na altura, aqueles primeiros momentos, calmamente prolongados ao longo de vários dias de um verão escaldante, serviram para pouco mais do que uma especialização em anatomia humana, interna e feminina. O prazer, esse, ficou para anos vindouros, com menos ameaças, a cabeça mais fria, e sem tanta curiosidade.
 
Quanto à Ondinhas, depois de eu me mudar para o outro lado do planeta, correu metade dos meus amigos e mais metade dos que eu não conhecia, e, da última vez que soube dela, vivia com um gajo que lhe dava uns valentes tabefes por-dá-cá-aquela-palha. Mas a culpa não foi minha! pickwick