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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

19
Jan09

Raio dos anticorpos

pickwick
Aproveitei ser um dia diferente e fui até à cidade, ao hospital. Há uns meses atrás, recebi uma carta do Serviço de Imunohemoterapia (o paraíso dos vampiros), solicitando a minha presença física em horário incompatível com a minha vida profissional, na sequência de uma tentativa frustrada para dar sangue. É tramado um gajo andar quase vinte anos a dar sangue e um belo dia dizem que ah e tal, hoje não vai poder dar sangue, porque esteve em África quando era criança, e vai ter que fazer um exame por causa da malária (isto há quase quarenta anos atrás). Dada a especificidade do dia de hoje, aproveitei e fui lá indagar pelo resultado do exame da malária. Atendeu-me a senhora doutora que manda no arraial, uma fulana com ar de limpa-escadas, que já conheço há quase uma década, e que está cada vez mais gorda e balofa. Em tempos idos, a senhora doutora que manda no arraial estava de férias e fui atendida por uma caloira a transpirar carne fresca que me diagnosticou graves problemas de saúde derivados de um hipotético consumo excessivo de coisas maldosas nomeadamente sal na comida o que muito me transtornou porque naquela época eu andava numa fase cómica de não usar sal e temperar/cozinhar toda a comida com ervas aromáticas mas como a doutora caloira era toda jeitosa embora ligeiramente mal encarada como quem não dá uma cambalhota há mais de dezanove semanas eu até abanei a cabeça para ela ficar satisfeita com o seu trabalho de mestra. Se continuar a escrever parágrafos destes, com pontuação tão habilmente distribuída, estarei a um passo de ganhar o Nobel da Literatura. Pronto, mas foi a senhora doutora que manda no arraial quem me atendeu, comunicando-me a extraordinária notícia: nunca mais na vida poderei dar sangue. Sorri para a senhora doutora, assim como quem sorri para o juiz que me condena a prisão perpétua por ter pisado uma folha de plátano no parque municipal. Definitivamente, escreveu ela na minha ficha informática. Motivo? Como estive em África, o meu corpo desenvolveu anticorpos contra a malária. Em termos práticos, estou mais protegido contra a malária do que o comum dos mortais, explicou a senhora doutora. Em termos europeus, estou impedido de dar sangue. A Europa é uma coisa do caraças, realmente. A legislação comunitária, quero dizer. Conversa puxa conversa, quis eu saber quantos dadores se andam a “perder” com estas novidades fantásticas. Ah e tal, vinte por cento dos nossos dadores que estiveram em África e fizeram o exame, já foram eliminados. O que vale, digo eu, é que mais de 95% da população portuguesa dá sangue regularmente, pelo que meia-dúzia de gatos pingados com anticorpos na carne não farão qualquer diferença… pickwick