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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

17
Dez08

Chocolat au lait

pickwick

Hoje o dia foi de grande azáfama, para trás e para a frente, e até uma pessoa teve que ser despachada para o hospital. Deu para ir almoçar fora com duas jovens colegas de trabalho, num ratio de 3 para 2, deu para me reunir com cinco (devia haver a palavra “cinca”, para melhor entendimento do género) colegas, num ratio de 1 para 5, e até deu para descobrir o ecrã de um computador portátil riscado a golpes de x-acto.

 
A meio da tarde, quase à hora do lanche, apareceu uma senhora francesa, pedindo para falar com o patronato. Não mão, trazia uma monumental caixa de chocolates, com um bilhete colado. Eu já conhecia a senhora, mas nunca tínhamos chegado a vias de facto ao nível oral. A senhora francesa, está em Portugal há poucos meses, pelo que fez o melhor que pôde, num português muito mal amanhado, para expressar o que lhe ia na alma e o destino a dar à caixa de chocolates: para agradecer o trabalho dos profissionais da nossa instituição para com os seus rebentos. O bilhete dizia precisamente isso, num português perfeito. Agradeci-lhe a atenção, assim com aquele meu ar de brutamontes que tão habilmente faço quando fico sem jeito, estendi-lhe a mão e desejei-lhe bom Natal.
 
Entretanto, apareceu uma colega nossa que viveu em França até ao fim da adolescência, e que tem ajudado nas traduções. A senhora francesa agarrou-se a ela, deu-lhe outra caixa de chocolates, e se não derramou umas lágrimas foi porque não calhou.
 
O Natal presta-se a estas coisas, eu sei. Eu dispenso perfeitamente. À excepção das magníficas travessas de arroz doce, borrifadas com canela.
 
Levei a caixa de chocolates para a sala, fechada, com o bilhete bem visível, para proporcionar um agradável momento de leitura aos meus colegas.
 
Instantes depois, assim daqueles instantes em que um gajo sai da sala e vai ao gabinete e volta à sala, deparei-me com a caixa completamente vandalizada, sobrando menos de vinte por cento dos chocolates! Num ágil golpe de ancas, posicionei-me estrategicamente, de forma a, num simples e singelo alongamento do braço, caçar um dos chocolates sobreviventes. Um gajo tem de ser assim, ágil, para fazer face à concorrência do bando de abutres esfaimados que rondam diariamente o local de trabalho, olhos fitos em qualquer peça comestível que se atravesse ao caminho. Com ou sem bilhete lamechas. pickwick