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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

15
Dez08

O Mercedes e o mau hálito

pickwick
No sábado passado fui até à capital, para uma reunião de trabalho. Fica bem a um gajo ir reunir-se à capital, em especial se for com pessoas que igualmente se deslocaram de longe, assim tipo Algarve, Porto e Braga.
 
Na véspera, ligou-me o Figas (nome de código), que mora a 11 km de mim e também tinha sido convocado para a mesmíssima reunião. Foi a primeira reunião dele na capital, pelo que estava um bocado tímido. Combinámos ir juntos, de carro até Coimbra e depois de Comboio até à capital.
 
Às 6h30 em ponto, conforme combinado, ainda de noite e a pingar, o Figas estava no cruzamento à beira de minha casa, no seu Mercedes não-sei-quê-sport. Ah e tal, é um modelo Sport, já dei duas vezes 260 km/h com ele, em Espanha, e agora mudei-lhe os pneus para uns mais duros, que se gastam menos, mas não são bons para a chuva. E tal. Chovia com fartura. Num troço de auto-estrada, os lençóis de água eram mais que muitos, mas o Figas não perdoava. Olha, olha, dizia ele, enquanto o bólide se ressentia do impacto neste ou naquele lençol de água.
 
Eu não acho graça nenhuma a estas divagações automobilísticas. Mesmo dentro de um Mercedes versão Sport. Até Coimbra, não consegui desgrudar os olhos da estrada, sempre alerta para aquele momento inesperado em que somos obrigados a accionar os travões secretos de emergência debaixo do tapete do lado do pendura, salvando a pátria, o coiro e os dentes.
 
O Mercedes é um carro engraçado. Pessoalmente, depois de uma viagem destas, não vejo grandes melhorias, ou mais valias, em relação a uma carroça puxada por duas vacas injectadas com ecstasy. Engraçado, mas nada mais.
 
Em Coimbra, apanhámos o Alfa. Grande conforto, às vezes grandes gajas, mas com o frio a exibição de carnes torna-se mais rara e o prazer da observação é reduzido a uma unha. Na capital, reunião, argumentos para trás, argumentos para a frente, heresias à mistura, almoço de escalopes de peru com natas e cogumelos, o presidente da reunião pagou o almoço, é um querido, continuação da reunião, concessões, esforços estéreis, blá, blá, blá, e entretanto são 17h e está na hora de regressar.
 
Do Chiado a Santa Apolónia, apanhámos boleia de um dos companheiros de reunião. Num Mercedes. Arre! No banco de trás, não havia espaço para coçar a micose, tal era o aperto. Afinal de contas, o único gajo com menos de 90 kg era o próprio condutor e proprietário. Um Mercedes é, afinal, uma carroça apertadinha.
 
Comboio até Coimbra, poucas gajas para apreciar, com excepção da hospedeira de bordo a impingir umas bijutarias gastronómicas a preços astronómicos. 
 
De regresso ao interior do Mercedes versão Sport, estofos em cabedal, ah e tal, andámos uns 200m e íamos levando com outro carro em cheio pela lateral esquerda, assim daqueles acidentes bem assanhados, com mortos e feridos e muita baba e muito ranho. O cruzamento era manhoso, eu sei, mas o Figas podia ter menos problemas de vista, não? Valeu-nos o meu “cuidado!!!” e o ABS da carroça. Senão, era cá um tiro pela esquerda que íamos parar ao fundo do Mondego com os faróis do outro carro enfiados nos sovacos.
 
Eu, quando são estas cenas, perco logo a paciência e prefiro fazer os outros 75 km a pé até casa. Mas, pronto, um gajo tem de ser diplomático e disfarçar o buraco que acabou de fazer no tapete do lado do pendura, à procura dos travões.
 
Já no IP3, começa a conversa esquisita. Ah e tal, uma pastilha para o mau hálito, diz o Figas. Não sei quê, que não gosto nada quando as pessoas estão ao pé de mim e estão com mau hálito. E o fulano tal está sempre com mau hálito e não posso com aquilo mas o gajo não percebe. E por isso eu não gosto nada de estar com mau hálito, porque também não gosto que estejam ao pé de mim com mau hálito. E às vezes a malta também não está à vontade para dizer ao outro que está com mau hálito, com receio de ser desagradável. Mas devia dizer, se o outro estiver. Vamos parar ali para comer uma sandes de leitão? Não, obrigado, vou jantar com alguém.
 
Como ninguém foi acusado de mau hálito, quedou-se sobre o Mercedes um silêncio pouco agradável, enquanto eu tentava digerir a conversa. Pelo tom, deduzi que era mais provável que ele quisesse que eu lhe dissesse se ele tinha ou não mau hálito, do que eu ter mau hálito e ele me querer informar disso sem ser demasiado grosseiro. A dúvida pairou no ar até à minha rua. E foi-se, com o vendo, a chuva e o frio.
 
Para a próxima, vou de bicicleta. pickwick