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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

10
Ago08

O incrível professor

pickwick

Pela frescura de uma manhã de sábado, fui até ao Minho, para mais uma reportagem fotográfica. No entanto, pouco depois de sair da A25 e entrar na A29, parei de dedilhar em cima do controlo de mudança de estação no rádio do carro. O ecrã mostrava “RRAVEIRO”, pelo que presumo fosse a Rádio Regional de Aveiro. Se não era, passou a ser!

 
E que estava a passar de tão especial para me quedar por aquelas ondas? Ora, estava mesmo, mesmo, mesmo a começar um programa do “Professor Mambo”. Se não era Mambo, pá, era qualquer coisa parecida com uma feijoada de tretas.
 
Apesar de estar numa fase de dolorosa ressaca pelo descalabro gastronómico da véspera, ou, para ser mais preciso, da rega que assistiu à refeição, consegui memorizar partes significativas do programa do “professor”. Fiquei fascinado.
 
Bom, em primeiro lugar, o senhor faz de conta que não fala português, exprimindo-se num francês aparentemente finório, não conseguindo, contudo, disfarçar um sotaque piroso. Ao seu lado, estava a sua tradutora de serviço, uma brilhante D. Isabel (se não era Isabel, passa a ser), que se exprimia em português como se fosse a Primeira Dama do país.
 
A sessão começou com as cordiais saudações do “professor”, montadas num discurso de dez minutos sobre disparates idiotas como, por exemplo, presumir que os ouvintes tinham abandonado tudo o que estavam a fazer para correrem para a sua rádio só para ouvir o programa. Só lhe faltou agradecer aos bombeiros que se baldaram à chamada para combater um monstruoso incêndio num lar de idosos, apenas para ficarem no quartel a escutar o programa. Enfim. Sempre tudo traduzido pela D. Isabel, claro.
 
Entretanto, liga uma ouvinte. Que se chamava Isabel? Mau! Em tempos tive uma namorada chamada Isabel e se calhar estou a fazer uma grande confusão, em resultado da violenta ressaca. Bem, se não se chamava Isabel, passa a chamar-se. A outra será apenas a “tradutora”. Esta é a “ouvinte”. Pronto.
 
A ouvinte explica que a sua vida é uma desgraça, o casamento não sei quê, blá blá blá. O “professor” pede, no seu francês piroso, a data de nascimento da “ouvinte”. A “tradutora” imediatamente traduz para a “ouvinte”. Esta, obviamente uma pessoa culta, responde naquela forma que as pessoas broncas usam para parecerem doutoradas consumadas: ah e tal, primeiro o ano, 1964, depois uma cambalhota e duas piruetas, o dia, 28 (ou 26?...), e com um salto mortal à retaguarda, sai o mês, Fevereiro.
 
Imediatamente a seguir ouve-se uma música tipo “Quem quer ser milionário” e a “tradutora” explica: o professor Mambo já está a concentrar-se no seu caso! A música continua. Eu, com a cabeça ainda à roda e agarrado ao volante, sinto que se me escapou algo. Caso? Qual caso? A mulher só disse a data de nascimento, carago!
 
Em poucos segundos, a música termina e o “professor” começa a dissertar sobre o “caso”, prontamente assistido pela igualmente fantástica “tradutora”. O “professor” vai revelando o que a sua impressionante capacidade de vidente consegue produzir sobre a vida pessoal da “ouvinte”, perguntando, a cada novidade, se é verdade, para que a “ouvinte” confirme. Extraordinário!
 
Era o filho que lhe fazia a vida negra. Era o casamento que começou a descambar quando o filho fez 4 anos. Era a filha que era uma ingénua. Eh, pá! Impressionante, mesmo. Depois a “ouvinte” decidiu revelar que o marido era um homem lindo, lindo, lindo, tão lindo que as mulheres olhavam todas para ele. Depois um dia ela não aguentava mais e disse ao marido que era melhor divorciarem-se e ele pediu 15 dias para pensar e findo o prazo ela questionou-o e ele respondeu que era do caraças porque quanto estava com ela só pensava nas outras e quando estava com as outras só pensava nela. E vice-versa, portanto.
 
A próxima cartava foi jogada pelo “professor”: o marido da “ouvinte” não era para ter casado com ela, mas, sim, com outra, uma antiga namorada. A “ouvinte” ficou muito espantada e exclamou que o marido nunca lhe tinha contado nada disso, do seu passado, mas deu o benefício da dúvida ao “professor”. Este, aproveitou para revelar que o problema do casamento dela estava naquele facto que o marido nunca lhe revelou.
 
Entretanto, com a aproximação do Porto, o rádio acabou por perder a sintonia da estação e lá se foi a continuação do programa, para grande desconsolação minha. E, finalmente, fechei a boca de espanto que já trazia há vários quilómetros. Completamente deslumbrado com um mundo maravilhoso e fantástico do “professor Mambo”.
 
Como é possível adivinhar-se tanta coisa apenas com uma data de nascimento? Incrível! Qual Hulk, qual quê! Incrível é o “professor Mambo”.
 
Se aquilo era possível, não se poderia obrigar o homem a escrever um livro com todas as datas de nascimento possíveis e as vidas pessoais dos respectivos? Sim, porque, obviamente, ninguém mais nasceu no mesmo dia, mês e ano que eu! Mas, caberia num livro? Talvez um DVD interactivo… Ou dois… Ou em volumes, por década.
 
Pessoalmente, acho que um homem daqueles tem uma obrigação para com o Homem! Não pode usar aqueles poderes todos apenas para ganhar uns trocos para si. São poderes que tem de usar como um dever para com a sociedade! Eu explico!
 
Exemplo 1: anda aqui um gajo a jogar no Euromilhões e no Totoloto todas as semanas, apostando uns cêntimos num sonho em que arrecada uns trocos para acabar de pagar o empréstimo da casa, sofrendo de ansiedade semanal, quando bastaria ao “professor” fazer uma análise à minha data de nascimento e saber logo se alguma vez vou ganhar o Euromilhões ou o Totoloto, e, se for o caso, em que dia. Podia, ou não podia? Claro que podia! Mas, não, o sacana anda para aí a ganhar dinheiro quando devia publicar um livro já com as datas de nascimento de todos aqueles que vão ganhar o Euromilhões ou o Totoloto.
 
Exemplo 2: um gajo arranja uma namorada, é muito giro, flores, piqueniques, cinemas, frases bonitas, valentes quecas em locais imprevistos, amor, muito amor, passarinhos, etc.; o senhor “professor” mais não faria senão a sua obrigação se informasse um gajo se valia a pena andar para ali a investir tempo e dinheiro, prevendo uma eventual separação ou divórcio num futuro a curto ou longo prazo. Podia, ou não podia? Claro que podia! Mas, não o faz. O sacana! Era sua obrigação, publicar um livro com todas as situações de incompatibilidade de datas de nascimento. Nasceu a 18 de Janeiro de 1976? Então nem pense em casar-se com alguém que tenha nascido a 24 de Novembro de 1971, ou a 31 de Dezembro de 1991, ou a 14 de Julho de 1979, ou… Ah, mas espere lá, nasceu a 18 de Janeiro de 1976? Então procure casar-se com alguém que tenha nascido a 21 de Junho de 1964 ou a 2 de Abril de 1998; mas, cuidado, que se casar com quem nasceu a 21 de Junho de 1964 vai ter dois gémeos larilas e nunca vai ter netos, enquanto que se casar com quem nasceu a 2 de Abril de 1998 vai ter uma filha única chamada Esmeralda que vai ser cantora de serviço no restaurante “O Manel dos Leitões”… pickwick