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Sábado, 26 de Julho de 2008
O homem que não parte pratos

Hoje, a Fafá voltou para dar mais um contributo intelectual para a causa da nossa instituição. Ao contrário do previsto, se é que a uma perversa especulação se pode chamar previsão, a senhora apareceu trajada de forma sóbria e conservadora, com saia abaixo do joelho, sem qualquer ponta de sensualidade. Não foi a única. Hoje, as mulheres aparecerem todas sem qualquer toque de sensualidade, talvez porque o dia começou com nuvens e alguma chuva. Até a loira dentuça apareceu sem decote, o que é estranhíssimo e completamente imprevisível.

 
Bom, quando o contributo intelectual dela estava a terminar, já só faltando encerrar o computador, proporcionou-se um regresso ao passado, a propósito das ocorrências que culminaram na eleição da actual equipa do patronato. A Fafá resolveu contar daquelas estórias que ainda ninguém conhecia e rimo-nos todos muito com as situações.
 
Ora, acontece que o ex-patrão nunca conseguiu engolir a derrota que lhe abriu caminho à transferência de instituição, como consequência final. Nem na altura, nem ainda hoje. Aquilo ficou lá entranhado, a moer entre o rancor e a fúria, com aquele défice de desportivismo e democracia que caracteriza os sedentos do poder absoluto.
 
A Fafá, então, aludiu à primeira pessoa em quem o ex-patrão se vingaria, assim que pudesse, se pudesse. O actual patrão, enterrado na leitura de uns documentos mas com os ouvidos postos na conversa, riu-se com aquele ar de condenado ao fuzilamento nos segundos que antecedem a pressão nos gatilhos. Obviamente, se ele era o cabeça de lista, caber-lhe-ia a ele a honra de primeira vítima de qualquer acção de vingança.
 
Mas, parece que não. A primeira pessoa a comer pela medida grossa seria eu mesmo! Euzinho?, pensei para comigo. O patrão respirou com algum alívio, mas urgia uma explicação!
 
Ah e tal, é que o ex-patrão ficou mesmo pasmo de todo quando me soube metido na lista para o patronato. Poderia ser qualquer um, menos eu, pelos vistos. Seria a última pessoa que ele imaginaria! E porquê? Porque, segundo as próprias palavras nos momentos se seguiram à tomada de conhecimento, eu era o tipo “que não parte um prato”. E o pessoal que não parte um prato, presumia ele, era incapaz de se chegar à frente e ousar afrontá-lo em renhidas e inesperadas eleições.
 
Pela parte que me toca, tem a sua piada, embora essa de não partir um prato seja assim um bocado para o larilas e não transmita toda a masculinidade e virilidade e outras coisas acabadas em “dade” que emanam do meu corpo. Bem, dantes emanavam, mas a decadência da idade se calhar já está a fazer das suas.
 
Enfim, tenho a dizer que ainda não parti nenhum prato em minha casa, até porque prezo muito o serviço de loiça chinesa que a minha mãezinha insistiu em trazer-me da China, à força. Mas, pratos à parte, eu até era gajo para partir algumas caras e, embora a lista não fosse extensa, seria elaborada com bastante rapidez, mesmo com os contributos negativos do Alzheimer. Curiosamente, a esmagadora maioria dos eleitos para a lista seriam do sexo feminino, mas isso agora são pormenores que não interessam.
 
Fafá, obrigado pela notícia. Amanhã já levo o colete, um crucifixo ao peito e dois dentes de alho na algibeira. pickwick
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publicado por pickwick às 00:05
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