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Sábado, 16 de Junho de 2012
Personal trainer 1

Conforme prometido há três anos atrás, ofereci os meus préstimos técnicos (cof cof cof) para preparar fisicamente a Virgulina (nome de código… e ainda bem!) para concorrer à Academia Militar. Está na hora, agora que terminou o 12º ano. E, na sequência disto, encontrámo-nos outro dia no campo de jogos, para trocarmos impressões e combinar estratégias.

 

Lembrava-me de ver sempre a Virgulina a “papar” as provas de corta-mato, muito leve e muito fresca, a “dar ao pedal” por ali fora, acima e abaixo, ora no asfalto, ora em terra batida. É sempre agradável ver uma miúda com genica, por comparação extrema com umas quantas que parece que levam uma betoneira incrustada nas nádegas. 

 

Mas, como em tudo na vida, não há nada como um engano técnico para um gajo se remeter à humilde posição de singelo mortal. Tantas provas de corta-mato ganhas, afinal, não são suficientes para garantir a capacidade física para executar uns quantos exercícios banais.

 

Descobri, então, que a Virgulina não consegue ultrapassar as provas de salto em extensão, salto da vala e flexão de braços na barra. Já conseguiu, até, espetar-se numa vala, quando foi ao quartel de infantaria experimentar a coisa. Só não saiu de lá toda “feita num oito”, porque não calhou. Basicamente, falta-lhe potência muscular, tanto nas pernas, como nos braços / costas. Um desafio pela frente, portanto, no prazo de uns míseros dois meses.

 

Numa dimensão paralela (estritamente), imaginei-me a treiná-la num barracão fedorento, a levantar fardos de palha e baldes de estrume, a empurrar vacas teimosas, a sacudir-se dos irritantes enxames de moscas, a içar-se numa corda untada com banha de porco, a comer meia dúzia de ovos ao pequeno-almoço e dois mega-bifes de veado a cada uma das restantes refeições, ela a gemer de dor (coitada) e eu a dar-lhe com o cabo do ancinho nas pernas e a gritar-lhe “anda lá, pá! xiu! faz-te um homem!”. Sim, são muitos filmes do Balboa, pronto…

 

De regresso a esta dimensão, deixei-lhe umas quantas sugestões de treino. Mas, fiquei com aquela impressão estranha de que vou ter que voltar à carga, de forma mais intensa, quiçá violenta, até porque a prova de flexão de braços na barra deixou-me ligeiramente preocupado. Pelo que percebi, até ao ano passado, a prova de flexão de braços na barra era feita apenas pelos rapazes, sendo que as meninas faziam, em alternativa, flexões de braços no chão, que é muito mais fácil. Subiram a fasquia para as meninas. Assim seja. Daqui por umas semanas, a Virgulina terá que estar apta a erguer uma caneca de litro de cerveja só com o mindinho e o polegar, terminando a beberagem com um mui másculo e harmonioso arroto… ou não! pickwick

publicado por pickwick às 07:43
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Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
Garganta funda

É feriado, que por acaso é Dia do Trabalhador, e um gajo mete-se a jeito para um dia de sossego, na paz e harmonia de um lar isento de stress. Começa-se por abrir as janelas, para deixar entrar um projecto falhado de luz solar. Um passeio matinal de pouco mais de dez metros pelas assoalhadas, para verificar se há monstros mutantes renascidos das cinzas da noite. Um copo de água. As plantinhas estão na mesma, que sem sol não há quem cresça. Ligam-se os dois computadores, verifica-se o mail, tiram-se uns apontamentos, abrem-se uns documentos, planeia-se o dia de trabalho, come-se uma bolachinha ou duas ou cinco, suspira-se de prazer por um dia tão sossegado e promissor. Entretanto, tira-se um generoso naco de lombo de porco do frigorífico e esfaqueia-se cirurgicamente em quatro locais distintos, pelos quais se introduz, a seguir, outras tantas linguiças picantes. Unta-se com especiarias que fazem mal aos corações mais sensíveis e mergulha-se a coisa em vinho branco. Ao almoço, irá ao forno com umas batatinhas. Um gajo até se baba, só de imaginar o petisco. Regressa-se ao computador e prossegue-se com uma pesquisa na lista de espécies autóctones.

 

Nisto, ia a manhã a meio, a campainha da porta começa a zurrar desalmadamente. Deve ser um vendedor de sabonetes lava-rabos ou técnicos de TV por cabo. Devia, mas não foi. Eram dois compinchas de longa distância, que por essa hora deviam estar algures a passear-se pelas serras de Arada e S. Macário. Em vez disso, estavam à minha porta, a sugerirem-me calçar as botas e abalar com eles para o passeio pedestre. Ora, um gajo com tanto trabalhinho para fazer, tanto lombo para assar e comer, tanta paz e tanto sossego, não cede facilmente. Ao fim de muita conversa da treta, e de uma actualização de conhecimentos aos comandos do Inkscape, não tive outra alternativa senão calçar as botas, meter meia dúzia de tarecos na mochila, e sair porta fora, renunciando heroicamente, qual mártir de uma causa desconhecida, a um dia de trabalho e paz e sossego e lombo de porco.

 

Algures no meio de nenhures, ou na Serra de Arada ou na Serra de S. Macário (venha o diabo e escolha!), deixámos o carro numa amostra de povoação, com um nome do género covas-de-qualquer-coisinha, e partimos rumo a uma garganta que subia quase até aos céus, por entre calhaus afiados e vegetação rasteira.

 

Umas fotos artísticas às folhas de carvalho salpicadas por pingos de água da chuva, uma gincana por entre incontáveis poios de vaca, tira impermeável, mete impermeável, volta a tirar, volta a meter, ora chuva, ora sol, enfim. Entretanto, hora do almoço. Paragem numa encosta, pseudo-abrigados do vento e da chuva numa curva abrupta. Chouriça a assar, queijinho, pão da véspera, bolachas, e uma mísera e única garrafinha de tinto alentejano, tudo para repartir por três estômagos esfomeados pelo esforço da caminhada e pelo avançado da hora. Com chuva a meio, o que deu muito jeito para deixar que algumas pingas aumentassem o volume do tinto nos copos – o desespero tem destas coisas… estragar um tinto requintado (Reguengos) com água da chuva.

 

Após o repasto, retoma-se a caminhada, sempre a subir. Entretanto, estala uma acesa discussão sobre vacas, a propósito dos incontáveis poios de vaca que evitávamos pisar, os quais, para surpresa de todos, eram maioritariamente provas inegáveis de que as vacas daquelas paragens não andam a ter a melhor das alimentações. Quem já andou pelo Portugal profundo, em terras frequentadas por bovinos, conhece muito bem o aspecto de um saudável poio de vaca – uma espécie de bolo de côco em cima do qual assentou as nalgas um simpático babuíno. Mas, os poios de hoje, eram mais do género arroz doce com ervas aromáticas e uma pitada de pimenta preta. Uma nojeira. Daí até começarmos a insultar a vacaria da região, foi uma questão de segundos. Só que, a bem dizer, houve ali uma dificuldade linguística conceptual que limitou a nossa agressividade: não se vai insultar uma vaca, chamando-lhe “vaca”. Ainda começámos com isso, aproveitando a liberdade dos montes. Mas, soou tão mal, que… “suas cabras!...”, ainda começou o Miguel… mas, nããã… ainda soou pior… E andavam três gajos, a subir um monte, a chover, no meio de giestas e tojos, a pensar que nomes feios haveriam de chamar às vacas que se borravam todas a subir o mesmo monte. Entretanto, a uns cem metros, três vacas pardas olhavam-nos com alguma atenção. Fiz “mmmm” e uma delas respondeu, mas depois falhou o vocabulário e a conversa ficou por ali.

 

Entretanto, actualização geográfica, o Nando saca das cartas militares para nos posicionarmos no terreno e melhor planearmos a ascensão até ao cume. Ups! Eram da Serra do Caramulo! A conversa mudou rapidamente das vacas indígenas e da falta de consistência do respectivo cocó, para os sinais evidentes e inegáveis de pré-senilidade do Nando – mas ele é que tocou no assunto, nós limitámo-nos a anuir simpaticamente!

 

Umas centenas de metros mais à frente, o terreno começou a complicar-se. O acesso à garganta era impraticável, e o Nando, que era o guia da expedição, descobriu que tínhamos falhado o trilho correcto ainda antes do almoço. Mais um sinal de pré-senilidade, claro. Logo a seguir, outro sinal de pré-senilidade: a bateria da máquina fotográfica tinha vindo praticamente descarregada, assim como a bateria extra!

 

Voltámos para trás, depois de cinco minutos de paragem estratégica para deixar cair livremente uma carga de granizo, regressando ao carro e encerrando oficialmente o passeio pedestre. A meio da descida, mais um sinal de pré-senilidade: a única laje de xisto escorregadia que havia ao longo do trilho, foi precisamente onde o Nando meteu as botas e zás!, de rabo na pedra. Então, partiste o cóccix? Ah e tal, não, não, que tenho umas boas nalgas. Prontinho, adiante, adiante. Conversa sobre nalgas, e as nalgas da amiga do Miguel que tinha quase partido o cóccix porque não tinha as nalgas tão acolchoadas como as nossas e mais não sei o quê… Nestas alturas, dou graças por não termos companhia feminina, senão, não haveria reputação que sobrevivesse ao nível tão eloquente das nossas conversas...

 

À chegada ao carro, o nosso guia fez mais uma descoberta estonteante: olhem, ainda bem que voltámos para trás lá em cima… é que íamos na garganta errada… estou mesmo a ficar senil… - e apontou para uma majestosa garganta afunilada entre medonhos penhascos, sobrevoada por uma camada de nuvens do mais negro que havia disponível, à direita da garganta que tentámos subir e que não nos levaria a lado algum, até porque não tinha mesmo trilho algum para levar ao cume. Mas, aquela outra, sim, era uma garganta para Homens! Enfim, fica para uma próxima. De preferência, quando o guia se lembrar de levar as cartas militares certas! pickwick

publicado por pickwick às 00:40
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Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009
Ó para ele, tão macho
Outro dia fui apanhado numa onda de ah e tal vamos à feira comer umas bifanas e um caldo verde e andar nos carrinhos-de-choque. Já houve tempos em que mandar umas pantufadas nos carrinhos-de-choque ainda me entusiasmava, mas acho que já foi algures no século passado. Um gajo com a idade fica meio artolas e deixa de saber apreciar certos prazeres da vida. Enfim, não se pode ser perfeito. Entre o perfeito e o imperfeito fica aquele gajo que, como eu, já não tem paciência para andar a chocar contra os carrinhos das meninas nem para andar ao soco com os namorados ou pretendentes dessas meninas que também andavam na pista mas um gajo não sabia, embora seja incapaz de renunciar a um caldo verde e a uma bifana. E assim lá fui.
 
Depois do manjar, os meus companheiros de passeio - uma senhora e os seus dois filhos adolescentes – foram gastar umas fichas nos carrinhos, enquanto que eu me plantei nuns bancos metálicos muito mal jeitosos que rodeavam a pista, daqueles que um gajo senta-se e passados três segundos já está a levantar-se para se sentar novamente porque entretanto já se está quase com o traseiro no chão.
 
Algures durante a terceira ficha, acercou-se da pista uma família muito jovem, tipo os irmãozinhos todos juntos e os pais nem vê-los. Havia a adolescente gorda, um bebé num carrinho, um jovem adulto com ar de quem levanta vacas durante a manhã e mata coelhos à dentada durante a tarde, mais duas ou três personagens que se me evaporaram da memória, e um puto com cerca de onze anos.
 
Às tantas, cada um foi para seu lado, para os carrinhos, carrosséis e demais diversões, ficando o bebé, no carrinho, à guarda do puto. Que puto responsável, pensei eu. Quando olhei com mais atenção, reparei que o puto estava já a mais de meio de um cigarrinho, na maior das descontracções, alternando umas beijocas no bebé com umas baforadas de fumo para o ar. Com aquele ar de macho-por-desmamar, quase que aposto como o puto estava decidido a que o povo o tomasse por pai do bebé.
 
Eu, com aquela idade, se fosse apanhado pelo meu paizinho a armar-me aos cágados com um cigarro, nem que fosse meio cigarro, levava um chuto com tamanha força que pegava fogo no cu e ainda ganhava um galo na testa quando chocasse com o planeta Mercúrio. A minha sorte, com aquela idade, foi dominar minimamente a versão lusitana da mítica arte Ninja. Embora às vezes nem por isso. pickwick
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publicado por pickwick às 00:42
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Quarta-feira, 7 de Junho de 2006
O amor é como o capim
O Guã ligou-me esta semana, novamente, sendo que as vacas vieram novamente à conversa. O Guã é o tal que foi pintar vacas com frases brilhantes para o meio da cidade, num momento de reflexão interior de grande projecção mediática. Desta feita, tinha para me transmitir um daqueles pensamentos eternos que nos revelam grande sabedoria. Era um pensamento comprido, mas posso resumi-lo assim: o amor é como o capim… o capim nasce, com toda a beleza da natureza, cresce, floresce, torna-se lindo, verdejante, apetecível, deslumbrante, eleva os sentidos, torna tudo mais cor-de-rosa (apesar de ser verde), até que um dia… vem uma vaca cheia de fome e dá cabo de tudo! Ora bem, portanto, para os que não perceberam o pensamento todo, a vaca aparece no prado e come o capim. A relva, a erva, whatever. Eu acrescentaria que a vaca ainda há-de acabar por ruminar a coisa. Se bem me lembro, ruminar é aquele acto educadíssimo de puxar a comida do estômago para a boca, para mastigar mais um bocado e, finalmente, engolir de vez. Deve ser assim. As vacas têm destas coisas… ruminar o que se comeu, mesmo que lhes seja indigesto. É um fenómeno psicológico difícil de explicar. Portanto, imaginemos que o capim já não está nos conformes com os gostos mais refinados da vaca, mas ela não hesita em puxar para cima para mastigar e, pasme-se, voltar a engolir. Eu cá não percebo, mas deve ser mesmo típico das vacas. Tal como é típico dos fanáticos por futebol arrotar e grunhir como se percebessem alguma coisa do que deitam cá para fora. O pensamento, é bonito. E muito realista. Depois de meditar nele, puxei do livro das memórias e constatei que é muito comum vir a vaca e comer o capim. Estragar tudo, portanto. Não é que tenham de ser sempre as vacas… não… é sabido que nos prados também há bois, mas todos sabemos que há mais vacas do que bois… deve ter a haver com aquela coisa do equilíbrio da qualidade, certo? Portanto, estatisticamente, como há mais vacas que bois, haverá mais vacas a comer o capim e estragar tudo, do que bois a fazer o mesmo. Feio, feio, é estragar tudo. Seja boi, vaca ou um tabuleiro de xadrez, tanto faz. É feio e é foleiro. Eu também faço como os bois que vão ao prado a estragam o capim. De tempos a tempos. Às vezes, é por uma questão de preservação da qualidade de algo, mas outras é mesmo porque um gajo não as pensa, não as medita e não tem paciência para prevenir. É verdade. O que vale é que costumam ser coisas pequenas, de pouca monta. Se um gajo foi boi e ao mesmo tempo for engenheiro de pontes, aí é que não convém muito, mas isso são pormenores secundários. Entretanto, há uma vaca especial que nos últimos tempos até tem aparecido na TV, que adora aparecer no prado e comer o capim todo. Às vezes, não vem para comer… vem mesmo é para se borrar toda pelas ancas abaixo, para cima da erva, e deixar tudo que é um nojo, mal cheiroso e com mau aspecto. Não quero citar nomes, para não ser processado, mas ela anda aí… a dar cabo do capim… pickwick
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publicado por riverfl0w às 19:11
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Sábado, 13 de Maio de 2006
As vacas, o amor e a vida
Há um filme, giríssimo na época, que tem o título ao contrário: a vida, o amor e as vacas. Tomou esse título, provavelmente, em função do grau de importância de cada um destes conceitos. As vacas eram mesmo vacas, daquelas de pêlo e cornos, que levavam cobóis a passear pelas planícies para passarem o tempo e ganharem algum para pagarem o uísque que consumiam avidamente para tentarem convencer-se uns aos outros - e aos demais - que eram homens do carago. Sendo assim, a vida tomava uma importância maior, seguida pelo amor, essa sacanice maldosa de quem criou o bicho Homem. Passados poucos anos sobre o filme, percebi que a ordem estava trocada e que o centro da vida era mesmo a raça bovina. Daquelas vacas que a gente sabe. Na altura, não me poupava a dissertações sobre a psicologia da vaca, aproveitando o facto de ter muito tempo livre para o fazer, em vez de estudar como era meu dever. Mais anos em cima e, às custas de mudar de cada X vezes e de tentar organizar os meus haveres Y vezes, encaixotei cartas e cartas acumuladas ao longo de vários anos, entre amigos e namoradas. Sobre estas últimas, mais verdadeiramente sobre uma delas, o volume de cartas era mais que muito, tendo acabado por ficar separadas em mais que uma caixa. Uma delas, daqueles “arquivos mortos” de cartão para entalar numa prateleira, acabou por escapar à remessa que transitou para a garagem, encontrando-se na estante da minha sala, com uma pomposa etiqueta a dizer “Correio da Vaca”. Com uma vaquinha que vinha com o Office, a acompanhar. Não há muitos meses, um dos irmãos da dita, com quem me dou na perfeição, veio cá jantar a casa e, estando de frente para a estante, exclamou entre duas garfadas: “Correio da vaca?! Que é essa m****, pá?”. O outro irmão, também à mesa, conhecedor da origem da coisa e do conteúdo da caixa, sorria de gozo. Eu disfarcei a coisa como pude, e penso que o rapaz nunca irá relacionar coisa com coisa. Enfim, isto das vacas tem muito que se lhe diga. Hoje mesmo, numa troca de sms com um amigo, atolado em conturbados sentimentos atrofiantes, derivados de uma relação amorosa mal acabada, vieram as vacas à conversa. Confesso que a culpa foi minha, pois quando o aconselhei a recorrer à escrita para aliviar o sentimento e o aperto, respondi ao pedido de sugestão de tema com “a vida, o amor e as vacas”. Fi-lo de forma imparcial, note-se, utilizando a sequência original do filme. Não quis, pois, influenciar o homem. O certo é que na sms de resposta dizia que ia para o meio das ruas de Coimbra pintar vacas. Pois, até ouvi hoje na rádio que iam andar vacas em fibra de vidro pela cidade e não sei que mais. Pouco depois, recebi nova sms com um pensamento filosófico que fez questão de pintar numa das vacas expostas ao público: “As vacas vão a todo o tipo de paradas e, se deixares, põem-te a pastar. Isso não é nada bom. Se possível, não aprendas a pastar. Se aprenderes, deixa o pasto enquanto podes. Isso é para elas, as vacas”. Esteve bem, este poeta. Portanto, se alguém encontrar uma vaca, no meio da cidade de Coimbra, com este pensamento brilhante, já fica sabendo que é tudo uma questão de gajas foleiras. E eu, faz de conta que não tenho culpa. Seja como for, devo dizer que fiquei encantado com a profundidade do pensamento. A analogia com o “pastar” é mais que perfeita e encaixa que nem uma luva. Vou dormir sobre o assunto, esta noite, para tentar digerir a coisa. Pela parte que me toca, os tempos de andar a ruminar pelos prados, feito artolas, a rastejar que nem as lesmas, já passou. Mas, pelo que parece, as vítimas não param de surgir. Parece uma sina, esta coisa de sermos convencidos a pastar. Aos que não conseguiram escapar à primeira, ou à segunda, nem às demais, reitero a necessidade de se manter a fé de que um dia será o dia da fuga do prado e a conquista da liberdade! pickwick
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publicado por riverfl0w às 00:19
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