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Segunda-feira, 31 de Julho de 2006
Esclarecimento

(A pedido de várias famílias, nomeadamente de uma família numerosa composta só por raparigas que assinam com nomes de código como Grru Grru, Curujinha, Raquel, e outros mais que virão e outros mais que já desapareceram por via do Alzheimer, torna-se premente prestar aqui esclarecimento sobre a vida e obra de Asdrúbal, o cavalo acinzentado do príncipe ferido num feroz combate com o pintassilgo-dragão-mutante)

Como é do foro público, Asdrúbal foi agarrado pelos testículos, pelo seu próprio dono em agonia, como forma de partilha de sofrimento, logo após o terrível embate de titãs. O sofrimento do cavalo foi brutal e intenso. Quem tem testículos, sabe bem do que falo! Bom, depois de a Corniceia ter levado Jean-Pierre para a caverna, para internamento, Asdrúbal ficou ali, no chão, contorcido com dores, a sofrer até à exaustão, durante 2 dias e 2 noites. Findo esse tempo, em que as dores horríveis não pareciam abrandar, o relinchar agonizante atraiu alguns animais da floresta. Os mais inofensivos, lançavam palavras de conforto: “anda lá, isso passa... acontece aos melhores”. Mas, nem todos os animais da floresta são inofensivos. Uma alcateia de lobos, comandada por um lobo enorme de nome Janeca, com três olhos e rabo de peixe, cercou o cavalo agoniado, na perspectiva de uma refeição gratuita e abundante. Quase mesmo nos últimos segundos que restavam, antes do ataque conjugado dos lobos, Asdrúbal foi salvo. Uma manada de zebras, chefiada por uma lindíssima e formosa zebra de nome Elisa, saltou para a cena, correndo com os lobos ao coice. Uivos de dor percorreram a floresta, entre orelhas rasgadas, focinhos esmagados, ossos partidos e cascos ensanguentados. Uma cena medonha. As zebras salvaram Asdrúbal. Salvaram-no e, não bastando, zelaram durante vários meses pela sua recuperação plena. Como é sabido, os testículos não se recuperam assim de um dia para o outro. É preciso muita afeição, muita paciência, muito carinho e muita persistência. Elisa, a zebra chefe, abdicou do seu posto de comando para se dedicar exclusivamente ao cuidado de Asdrúbal. Todos os dias, durante vários meses, Elisa tratou dele, colhendo ervas aromáticas e medicinais, aplicando compressas, massajando com óleo de girassol, tocando harpa para descontrair a mente, enfim, uma verdadeira enfermeira de quatro cascos e muitas riscas. Alimentava-o boca-a-boca com o melhor que havia de ervas, cogumelos e arbustos nas florestas em redor. Ocasionalmente, confeccionava-lhe um pudim de ovos de cágado, para a sobremesa. Aos poucos, Asdrúbal foi recuperando, até ao dia em que os testículos deixaram de doer, recuperando, até, a sua cor natural, deixando para o esquecimento a cor azulada que tiveram durante meses de sofrimento. Juntos, deram alguns passeios, falando de coisas triviais como o estatuto dos equídeos, o casamento entre zebras do mesmo sexo, as férias, etc. Num destes passeios, Elisa não resistiu em levar a conversa para a relação de proximidade que existia entre ela e Asdrúbal. A intimidade do tratamento, a dependência, o carinho, pareciam justificar um amor óbvio, pelo que seria natural falarem abertamente sobre o assunto e, tal como Elisa ansiava há muito, assumir esse amor perante o resto da manada. Mas, a conversa correu muito mal. Muito mal, mesmo. Asdrúbal, fiel à tradição de honestidade e frontalidade dos cavalos de príncipes, não quis deixar Elisa mais tempo iludida em expectativas. Sem rodeios, contou-lhe como se sentia zonzo cada vez que olhava para uma zebra, tentando adivinhar se eram riscas pretas sobre fundo branco, ou riscas brancas sobre fundo preto. Uma zebra a rebolar no chão, então, dava-lhe um enjoo, como no mar alto, por causa das riscas a girarem, como que um efeito de hipnose. Além do mais, apesar de Elisa ter um focinho larocas, era uma zebra, e as zebras não conseguem, por mais corridas que façam, por mais ginásios que frequentem, por mais saladas que comam, nunca, jamais, abater aquela barriguinha nada sexy e nada elegante. Apesar de a dívida para com Elisa ser infinita, não a poderia pagar com um amor que não sentia, nem com uma cavalgada fugaz atrás de uns arbustos. Ficaria por pagar. Ou, talvez um dia, uma oportunidade surgisse, quem sabe, se Elisa se visse em apuros. Elisa, perante estas revelações, e face à ansiedade acumulada ao longo de meses, não conseguiu conter um jorro de lágrimas de infelicidade. Tanta dedicação, tanto amor, tanto carinho, e nem uma cambalhota! Isto, não se fazia a uma zebra. O raio do cavalo não haveria de sair dali sem pagar com o corpo. Fingindo conformar-se com a situação, Elisa foi engendrando um plano para, com o auxílio das demais zebras, encurralar Asdrúbal numa clareira, atirá-lo ao chão e obrigá-lo a ter sexo com ela até lhe voltarem a doer os testículos. Depois, daria a vez às outras zebras, novas e velhas, feias e doentes, para, num festim porno, fazerem do cavalo o que bem quisessem, concretizando todos os sonhos e fetiches, até Asdrúbal sucumbir e morrer de exaustão. Foi, precisamente, no final desta conversa, e durante os pensamentos maquiavélicos de Elisa, que Asdrúbal foi salvo pelo assobio de Jean-Pierre. Como um tiro, desapareceu da vista de Elisa, levando-se a si próprio e ao seu dono para bem longe daquela floresta e da maldição das fêmeas feias e mal feitas.

(espero ter sido esclarecedor e que a querida leitora tenha tirado da cabeça essa ideia maldosa de fazer queixa de Jean-Pierre, ele próprio uma vítima) pickwick

publicado por riverfl0w às 00:02
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Sábado, 29 de Julho de 2006
Crónicas de um príncipe desencantado –- Parte 4

(há gajos que deviam ser proibidos de escrever em público...)

A Primavera recomeçava. O longo e penoso Inverno tinha sido passado ali, naquela caverna, num aturado processo de recuperação da vista de Jean-Pierre. Corniceia, infatigável, tinha minguado o sofrimento do seu salvador, não se poupando a esforços e sacrifícios para o manter bem tratado, alimentado, quente e em grande paz. Os dias foram ocupados com as tarefas necessárias ao bem estar de ambos. Colher lenha e frutos silvestres na floresta, pescar solhas e sardinhas no lago, caçar búfalos e duendes na mata, bordar uns lençóis, lavar a roupa, alugar uns DVD’s, cortar lascas da carne de pintassilgo-dragão-mutante guardada em salmoura, enfim. Entre ambos cresceu uma amizade tão grande que o mundo inteiro é pequeno demais para ela lá caber. E, como entre a amizade e o amor, a linha divisória é, por vezes, muito ténue, pode dizer-se que uma paixão mal abafada crescera entre aquele homem e aquela mulher, unidos naquela espera infindável pela recuperação da vista de Jean-Pierre. A ternura passou a fazer parte do dia-a-dia, os carinhos inocentes invadiram o trato, a companhia mútua insubstituível. Jean-Pierre, incapaz de a apalpar, apesar da vontade incontrolável e dado ser uma atitude muito ordinária, precisava de usar outros sentidos do seu corpo para se ligar a Corniceia, pelo que memorizou a mais fina fragrância do seu odor perfumado, detectando a sua presença antes mesmo de lhe ouvir os passos ou a respiração. As dificuldades da situação tinham-nos aproximado tanto, que nada parecia poder separá-los. O amor, pensava Jean-Pierre, era lindo! Com a Primavera e sem os rigores do Inverno, a recuperação parecia tomar um rumo mais célere. A temperatura convidava a menos roupa, a mais liberdade e Jean-Pierre sonhava já com um banho a dois no lago em frente da caverna. Corniceia, ansiava com as mãos firmes e poderosas do seu secreto amado, besuntando-lhe o corpo feminino com mel tirado por ela própria de uma colmeia selvagem. Este pensamento altamente positivo teve o condão de acelerar a regeneração dos tecidos ósseos na vista do príncipe, pelo que, no início de Maio, acordaram retirar a venda feita de ceroulas rasgadas que protegia os olhos de Jean-Pierre. O momento tão esperado. Corniceia, com muito carinho e redobrados cuidados, retirou, volta após volta, todo o comprimento da venda dos olhos de Jean-Pierre. A escuridão da caverna ajudava a que o choque com a luz não estragasse tudo. Aos poucos, minuto a minuto, Jean-Pierre foi captando imagens à sua volta, embora tudo um bocado desfocado. Sombras, muitas sombras. E uma bola branca, de onde vinha a melodiosa voz da sua paixão. Os minutos deram lugar a horas e, ao princípio do anoitecer, quando a luz era mais fraca, Jean-Pierre saiu para fora da caverna, amparado pelo meigo braço de Corniceia. Ao longe, o sol caía no horizonte, deixando um lindo manto cor-de-laranja sobre as águas do lago. Muito romântico. Melhor não poderia ser, para aquele momento tão importante. As sombras e os focos de luz transformaram-se em vultos e silhuetas, tomando cada vez mais formas conhecidas e quase esquecidas na mente de Jean-Pierre. Os reflexos no lago à sua frente, as árvores abanadas pelo vento suave, as flores agitadas, passarinhos a chilrear, um elefante a saltitar suavemente de nenúfar em nenúfar, o sol a pôr-se ao longe, as cores da floresta, a cor do sol, a cor da água, o granito, as folhas. Era tão bom poder ver, novamente. Piscou os olhos vezes sem conta, para se certificar que a visão não desaparecia, que estava mesmo curado. Foi arrancado à divagação por um leve aperto no braço, o mesmo que Corniceia ainda amparava, com ternura. Acordou para a realidade! Ali, ao lado dela, estava a mulher pela qual saiu do seu castelo numa demanda de amor. Sorriu. Inspirou, pela milésima vez o perfume do seu agradável odor, fechou os olhos, voltou-se para ela e abriu-os.
- Arrrgggggggg!!!!!!!!!

Jean-Pierre estava para morrer! Mas que monstruosidade era aquela ali mesmo ao lado dele?
- Ai que nojo! Quem és tu? Onde está a Corniceia? Que lhe fizeste, sua vaca?!
- Mas… mas… eu sou a Corniceia!
- Aiiii… vira-te para lá, carago, que és tão feia e tão mal feita que perco já o apetite para o jantar! Arre!!! Só me faltava mais isto!
Corniceia caiu no chão de relva, num pranto sem fim, deitando baba e ranho por tudo quanto era orifício facial. Os passarinhos fugiram! Jean-Pierre quase não conseguia olhar de novo. Ter-se-ia enganado? Seria uma partida do sentido da visão que o abandonou durante tantos meses? Olhou de soslaio para a choradeira ali no chão. Não. Não se tinha enganado. Ali estavam 250 quilos de banha às pregas, encimadas por uma bola com dois olhitos, um corno a brotar da testa e uma dentadura horrível com algumas falhas. Um dos braços era revestido por uma pele semelhante a escamas de crocodilo, rugosa, nojenta. Sentiu o estômago a embrulhar-se, procurou conter um vómito involuntário, mas ainda escapou um restinho da carne do caldinho de lagarto do almoço.
- Que nojo!... Que nojo!... Que nojo!... – dizia em voz alta, sem parar, enquanto andava de um lado para o outro, inconsolável, quase que enraivecido.
Jean-Pierre estava a ver a sua vida, subitamente, andar para trás. Tanta expectativas e, afinal, calhou-lhe uma baleia deformada, na rifa. Era preciso ter azar. Muito azar! Mas, Jean-Pierre era um jovem bem formado e não deixaria que um azar daqueles lhe estragasse a demanda a que se propôs. Firme e decidido, colheu os seus haveres, as suas armas, as suas roupas, assobiou, montou o fiel Asdrúbal e deixou para trás todas aquelas tristezas e revezes, partindo ao encontro do pôr-do-sol. Nunca mais haveria de ser visto por aquelas paragens, nem nas mais próximas, e muito menos na aldeia onde tinha começado todo aquele disparate. A esperança é a última a morrer, antes da barata, e Jean-Pierre sabia bem disso. Nada estava perdido, para além de uns quantos meses da sua vida. Mais aldeias viriam, vilas e cidades, mulheres bonitas e cultas, raparigas simpáticas e doces. O mundo esperava-o e ele não queria que esperassem muito por ele. pickwick

publicado por riverfl0w às 01:59
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Sexta-feira, 28 de Julho de 2006
Crónicas de um príncipe desencantado - Parte 3

(está cada vez mais difícil não avacalhar esta aventura...)

Já somavam 13 dias e 13 noites de uma louca corrida no rasto do pintassilgo-dragão-mutante, quando, finalmente, pelas 23h45, Jean-Pierre encontrou indícios claros de que estava bem próximo do seu objectivo. Parado na margem de um lago, observava a margem oposta. Lá, em frente da entrada de uma caverna escura, uma fogueira iluminava graciosamente tudo ao seu redor. O pintassilgo-dragão-mutante, certamente crente de que teria escapado impune àquele vil assalto, dançava sapateado em cima de uma grande laje de granito, enquanto dois esquilos tocavam uma célebre música dos “Da Vinci” numas harmónicas ferrugentas e desafinadas. A cena era arrepiante, mas Jean-Pierre não era homem para se deixar intimidar facilmente. Deslocando-se furtivamente por entre árvores e arbustos, afastando habilmente ramos caídos que poderiam denunciar a sua passagem, foi-se aproximando. Com a espada em punho e o olhar cintilante, nada o poderia deter. A meio do caminho, parou num snack-bar medieval e pediu uma Coca-cola fresquinha. Estava ainda mal disposto do almoço. A carne de hipopótamo não ficou lá muito bem assada, por causa da imensa camada de gordura, e a digestão demorava. Não podia correr o risco de enfrentar o pintassilgo-dragão-mutante e tombar com uma indigestão, vomitando nacos de hipopótamo meio crus. A reputação de um príncipe é muito importante! Já mais recomposto, Jean-Pierre meteu-se novamente ao caminho. Asdrúbal seguia-o pela trela, metros atrás, fiel como sempre, abanando a cauda e petiscando avelãs caídas no chão. Por fim, o príncipe chegou ao destino. A maior prova da sua vida, até então, estava ali mesmo. Deixando Asdrúbal, o seu fiel corcel, escondido no mato, avançou em passos largos para a laje onde o pássaro dava o seu espectáculo de sapateado. Os esquilos foram os primeiros a darem conta da presença estranha, parando de tocar. O pintassilgo-dragão-mutante também parou de dançar, procurando a origem da interrupção. Homem e pássaro olharam-se. Trovões ecoaram nos céus e os esquilos puseram-se a andar para bem longe. Não eram precisas faíscas para dar mais ambiente ao confronto que se avizinhava: o reflexo das chamas da fogueira no aço da espada e as narinas fumegantes do pássaro, bastavam!
- Quem ousa importunar-me? – inquiriu o pássaro com uma voz cavernosa e possante.
- C’est moi, Jean-Pierre – respondeu o príncipe, com pronúncia da Golegã.
- E que quereis? Vindes em busca de algo? Ou quereis apenas ser comido ao meu jantar?
- Venho para salvar a bela Corniceia, que raptaste de forma cobarde, dias atrás, numa aldeia. Ela é a filha do chefe e ele presentear-me-á, quando regressar, com a sua mão.
- Viestes este tempo todo, atrás de mim, para depois ficardes com a mão gordurosa do chefe de uma aldeia? Muahahahahahah!...
- Xiu! É a mão da filha e atrás vem o resto do corpo todo!
- Ah! Quereis a moçoila que tenho ali na caverna, não é? Quereis privar-me de um sossegado, abundante e suculento repasto, não é? E, ainda por cima, quereis casar com ela, não é?
- Sim! E pelo gume desta espada assim será! – Jean-Pierre brandiu a lâmina no espaço, com um ar feroz, capaz de desfazer o mundo com um só golpe.
- E sois vós e mais quem, posso saber?
- Sou apenas eu! - Oh meu amigo, mas vamos ter que nos chatear? Então tanta coisa e é só um pindérico com um canivetezito de escuteiro na mão que tenho que enfrentar? Isto começa a ser ofensivo da minha dignidade!
- Nem mas, nem meio mas. Pela espada morrerás, ó pássaro!
- Eu não disse “mas” nenhum, ó general da cueca!
- Adiante, deixai que o silêncio afogue a vossa fraqueza e o gume da minha espada faça a merecida justiça!
Evidentemente, não havia mais lugar a conversa fiada. Além do mais, Jean-Pierre começava a ficar cansado de estar sempre a tratar o bicho na segunda pessoa do plural. Homem e pássaro prepararam-se para o embate. Ali, na laje de granito, à beira do lago e com a luz da fogueira crepitante, o destino estava em jogo. Estudaram-se mutuamente. A espada subiu e desceu, a mão segurou-a com mais força, as narinas fumegantes abriam e fechavam, as dentuças brancas, do tamanho de pés de girassol, rangiam entre a saliva quente e asquerosa. De súbito, os pulmões do animal incharam-se até mais não. Jean-Pierre sabia o que vinha a seguir. Sem mais demora, soltou o cabo da espada e agarrou-a pela ponta da lâmina. Fulminante, lançou a espada pelos ares, em direcção ao inimigo. Este, esvaziava os pulmões, lançando uma labareda do tamanho de uma carrinha Hiace. Fogo e aço cruzaram-se nos ares. A paixão do realizador pela câmara lenta permitia apreciar o momento, segundo a segundo. Bonito! Muito bonito! A lâmina penetro o pintassilgo-dragão-mutante entre os olhos, desfazendo-lhe o cérebro, cortando o comando daquele corpo gigantesco, nu e possante. Toda aquela massa estacou, por segundos, tombando de seguida, com um estrondo medonho, rachando parte da laje de granito. Nem um pio de agonia. A morte veio certeira. Do outro lado da contenda, Jean-Pierre agonizava no chão. A labareda tinha-o atingido de frente. O clarão e o excesso de calor, embora não lhe tivessem provocado queimaduras – o sortudo! -, deixaram-no cego, temporariamente, com dores dilacerantes, que quase o fizeram desmaiar. Desesperado, apesar da vitória, assobiou para chamar o seu fiel corcel. As beiças chamuscadas não lhe permitiram emitir o assobio correcto, mas Asdrúbal era, entre outros atributos, um tradutor nato, pelo que rapidamente compareceu junto do dono, com um sorrisinho maroto. Jean-Pierre chorava, junto do seu cavalo, que continuava a sorrir. Aquilo eram dores demais para suportar por um só homem, especialmente com o cavalo a rir-se. Os olhos parecia que saltavam das órbitas, em chamas. Num gesto de partilha e amor, justo, Jean-Pierre agarrou firmemente o seu cavalo pelos testículos. Asdrúbal atirou-se para o chão, contorcido com dores terríveis, esperneando e relinchando quanto podia, fazendo coro de agonia com o dono, em perfeito desafino. A choradeira foi interrompida, subitamente, por uma melodia divina: uma doce voz de mulher. Como o canto de uma sereia que vem salvar um marinheiro no mar infestado de tubarões. Jean-Pierre não via, porque estava ceguinho, mas a mulher, ou melhor, uma jovem de cerca de 19 anos, aproximava-se dele, receosa, mal acreditando no cadáver do pintassilgo-dragão-mutante ali prostrado na laje.
- Quem sois vós? Fostes vós quem matou a fera?
- Sim, sim, porra, isto dói para caraças! Tens aí Fenistil?
- Oh, sois um príncipe que me veio salvar das garras do mal, o meu coração é vosso, a partir de hoje.
- E o resto? Só o coração?! Chiça, que isto dói…
- Qual resto? Que quereis dizer?
- Nada, nada… esquece…
- Vinde, tratarei de vós até estardes aptos para regressarmos à minha aldeia. O mundo, para mim, a partir de hoje, sois vós.
Em silêncio, Corniceia levou Jean-Pierre para dentro da caverna. Longos meses de recuperação esperavam o príncipe, nas mãos delicadas da bela Corniceia.

(bem, é melhor para por aqui, que é para não começar a inventar pêlos na miúda e ah e tal...) pickwick

publicado por riverfl0w às 01:27
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Quinta-feira, 27 de Julho de 2006
Crónicas de um príncipe desencantado –- Parte 2

(mais uma esforçada tentativa... Lúcia, o que eu não faço por ti?...)

A Primavera já ia no fim. Jean-Pierre, montado no seu fiel corcel de nome Asdrúbal, não mostrava sinais de cansaço, apesar de já terem passado muitas semanas e muitas léguas sobre o dia da sua partida. Ainda assim, o destino parecia fugir-lhe. Certo dia, ao parar debaixo de um chaparro no cimo de um monte, procurando apaziguar o intenso calor que o sol abrasador trazia aos mortais, viu ao longe um pássaro. Batia as asas, com a delicadeza de uma cegonha, subindo e descendo em altitude, como quem brinca com o céu. Jean-Pierre gostava de pássaros, especialmente de cegonhas e borboletas. Eram bonitos e artísticos. Com o braço, limpou parte do suor que lhe escorria da testa, impedindo-o de alcançar, com a vista, toda a beleza natural até ao limite do horizonte. O calor era mesmo muito. Enquanto se perdia em pensamentos, sonhos e apreciações, não tomou consciência de que, o pássaro que ao longe batia as asas, estava agora bem mais próximo. E bem maior. E com umas asas estranhas. Jean-Pierre deslocou-se para que as folhas do chaparro lhe proporcionassem uma visão mais fidedigna da ave que, aparentemente, se aproximava, lentamente. Algo não batia certo, entre o tamanho do pássaro e o tamanho das árvores. Aquele pássaro, parecia muito maior do que qualquer pássaro, quase do tamanho das próprias árvores! Monstruosamente grande, portanto. Quando se encontrava a cerca de 178 metros de distância de Jean-Pierre, o misterioso pássaro estacou nos ares, com um movimento brusco mas elegante, rugiu, vomitou uma língua de fogo, e precipitou-se para o vale ali mesmo em frente, penetrando numa clareira escondida por árvores enormes. Agora, sim. Jean-Pierre tinha a certeza de que pássaro era aquele: era um temível pintassilgo-dragão-mutante. Este perigosa espécie tinha sido enjeitada duma ménage-à-trois entre um pintassilgo, um dragão e uma lata de desperdício tóxico. Uma coisa nada bonita de se ver, tida pelos caçadores como muito difícil de abater. Em décimas de segundos, o rugido do pintassilgo-dragão-mutante foi secundado pelos gritos histéricos de seres humanos, especialmente os guinchos inconfundíveis e irritantes de mulheres. Sempre as mulheres, aos guinchos! Uma aldeia estava em perigo e só ele a poderia salvar. O sentido de dever não deixou Jean-Pierre parado nem mais um instante. Numa questão de segundos, Asdrúbal tinha-o levado floresta dentro, partindo ramos e esmagando flores, como uma turba imparável de salvação dos pobres e oprimidos, numa velocidade vertiginosa. Ao longe, o pêlo acinzentado do cavalo parecia uma bala lançada por um canhão, rasgando o ar por entre troncos e arbustos. Jean-Pierre aproveitava a viagem para tirar um resto de ervilha dos dentes da frente. Não ia querer aparecer na aldeia com um dente verde, pois não? Enfim, cavalo e cavaleiro chegaram à clareira, onde se erguiam as modestas cabanas de uma aldeia. À entrada, uma placa indicava o nome da povoação: Afinfadura-de-Baixo. Bonito nome, pensou Jean-Pierre, observando o panorama. O poderoso e enorme pintassilgo-dragão-mutante tinha lançado a confusão geral. Telhados ardiam, mulheres fugiam para todos os lados, homens enfraquecidos pela miséria procuravam, em vão, alvejar o pássaro com pedras, enxadas e baldes. O calor insuportável ajudava à festa. O bicho chafurdava por entre as cabanas, pegando fogo a umas, arrancando o telhado a outras, sacudindo um ou outro corpo que se atravessasse no caminho. Nisto, um homem aproximou-se de Jean-Pierre, com passo apressado, um saco de linho a tiracolo, lábios cerrados pela raiva e um bocadinho de espuma a saltar fora.
- Então, amigo? Como é? – perguntou Jean-Pierre, na sua inocência.
- Não é! Esqueceram-se de lhe levar o alpista, esta semana, e agora o estúpido do pássaro vem para aqui, outra vez, à procura de alguma coisa para comer! É sempre a mesma coisa!
O homem seguiu caminho, no mesmo passo apressado. Jean-Pierre voltou a olhar para a aldeia, tentando engendrar uma solução. Como não trazia alpista, a coisa teria que se resolver mesmo à pancada. Jean-Pierre não apreciava violência, especialmente contra os animais, de quem tanto gostava, por serem também filhos de Deus e mais não sei o quê. Mas ali impunha-se actuar. No momento em que impelia Asdrúbal para a frente, o pintassilgo-dragão-mutante levantou voo, dando às asas com vigor. Do bico pendiam restos de roupas de mulher. Em doze batidas de asas, o pássaro desapareceu por cima das copas das árvores. Um burburinho de vozes começou a crescer de tom, no centro da aldeia. Jean-Pierre aproximou-se, para tentar perceber. Alguém elevou a voz mais alto e anunciou, dramaticamente: o pássaro raptou Corniceia, a filha do chefe da aldeia! Upa, pensou Jean-Pierre, isto está correr bem... o chefe tem uma filha?... Os seus pensamentos voaram, por instantes, para uma aldeia distante, num sonho, cercada por árvores, onde vivia a filha do chefe da aldeia, linda de morrer, virgem até aos tornozelos (a contar de cima), loiríssima como o ouro, com uns olhos azuis como o céu, infinitamente prendada e capaz, senhora de uma cultura fabulosa, meiga, doce, dotada de um corpo escultural por debaixo daquelas vestimentas foleiras de antanho. O seu amor, por certo. Entretanto, ia Jean-Pierre começar a imaginar a filha do chefe a preparar-se para tomar banho toda nua no ribeiro, os aldeões toparam-no, no seu corcel, com as suas vestes e as suas armas. Não deixava dúvidas de que era um cavaleiro, certamente, e dos bons, que salvam princesas e batem com a espada nos maus. Um dos aldeões, mais bem vestido e mais bem alimentado que os restantes, dirigiu-se a Jean-Pierre, com o sobrolho carregado por algum fardo terrível.
- És tu, nobre cavaleiro, quem vai salvar a minha filha, a doce Corniceia?
- Olhe, para si, é príncipe Jean-Pierre, está bem? Vamos lá ver esse respeitinho!
- Peço desculpa, ó glorioso príncipe. Por momentos, pensei que haveria quem salvasse a minha linda Corniceia das garras daquele palhaço mutante sem penas...
- Bem, lá por ser príncipe, não quer dizer que não seja capaz de dar dois safanões num pássaro grandalhão e atrofiado das ideias!
- E ides salvá-la?
- Hum… bem… estava capaz disso…
- Se a vossa coragem for tão grande como a vossa generosidade, e a ferocidade tão grande como a coragem, estou certo que levareis a bom porto a empreitada de salvar a minha querida Corniceia.
- Ah, bom… - Jean-Pierre lambia as beiças com tanto piropo.
- A vossa recompensa será a sua mão, com a minha bênção. O casamento será três noites depois do seu regresso.
- Combinado, ó chefe da aldeia.
Uma aclamação histérica dos aldeões, acabou com o ambiente suave e pacato da cena, voando pelos ares ancinhos, peles de coelho curtidas, leitões e ceroulas de linho. Os aldeões festejavam o futuro que ainda não tinha chegado: não só a filha do chefe seria salva, como casaria com um príncipe!
- Adeus, ó gentes! – gritou Jean-Pierre, empinando o corcel num gesto de vitória.
Cavalo e cavaleiro lançaram-se no rasto do pintassilgo-dragão-mutante que fugira com Corniceia, a lindíssima filha do chefe da aldeia de Afinfadura-de-Baixo. Destemido, corajoso, forte, viril, seria Jean-Pierre capaz de fazer frente ao pássaro e resgatar a futura princesa?

(Marta, consegui escrever uma aventura inteira sem que aparecessem mulheres ou homens com pêlos, viste? Os únicos pêlos eram os do cavalo. Ah... o que eu não faço pelas leitoras...) pickwick

publicado por riverfl0w às 23:42
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Terça-feira, 25 de Julho de 2006
Crónicas de um príncipe desencantado –- Parte 1

(porque dei conta que há, pelo menos, duas leitoras deste blog que acreditam na vinda de um príncipe encantado, aqui fica uma estorinha, em jeito de homenagem a esse sonho)

Jean-Pierre era um príncipe. O seu atribulado principado nadava num desencanto pela falta da amada desde sempre sonhada. As pretendentes, algumas que por um fio não o anilharam em cerimónia, multiplicavam-se dentro e fora de fronteiras. Fartura de oferta, dizia-se à boca cheia, não faltava, assim como a qualidade. Mulheres feitas e jovens de beleza estonteante gladiavam-se nas arenas dos boatos e pelos corredores das cortes, na ânsia de alcançar algo que, mal sabiam, estava muito fora do seu alcance. Filhas das melhores famílias, prendadas por anos e anos de formação em finezas e outros atributos procurados pela realeza sem sentido, embatiam num muro, aparentemente intransponível, de simplicidade que aquele príncipe fazia questão de exibir.
Aos 26 anos, Jean-Pierre aliava o porte atlético e todo o garbo provido por anos de treino na arte da guerra, à sensibilidade e delicadeza de quem sabe apreciar as várias formas de arte. Era esta sensibilidade que o levava a declinar todas as pretendentes que se passeavam pelos corredores cósmicos das casas reais. Buscava algo que não se encontrava, de forma alguma, entre o vazio de festas sem fim, preocupações confinadas a vestimentas na moda e pensamentos pobres e limitados. Além, lá longe, para trás da copa das árvores da mata do castelo, estaria à espera a mulher dos seus sonhos, despida de riqueza que não a sua alma. Algures, anónima, desprezada pelos que não sabem ver bem fundo o coração de uma mulher e descobrir o verdadeiro filão de uma princesa. Assim pensava Jean-Pierre. Não fazia sentido esperar mais tempo entre o silêncio das muralhas e a tristeza da solidão. A partida, urgia.
O meio da Primavera apanhou Jean-Pierre no cúmulo da impaciência. Perante o pasmo e a incredulidade de todos, anunciou a sua decisão como quem anuncia uma praga de gafanhotos nas searas do reino. Frei Jonas, o responsável pela sua faceta sensível e delicada, preparou-o espiritualmente para o Caminho. Não sendo fácil, faria do mais difícil também o mais apetecível e valioso. Frei Jonas, embora temeroso dos perigos, compreendia aquele jovem, as suas angústias e a sua ambição. Uma ambição tão simples e nobre como era a de encontrar, apenas, a outra metade do seu próprio mundo, onde depositaria todo o amor que tinha para entregar.
E, no meio da Primavera, partiu.

(Lúcia, olha, desculpa, mas não consigo escrever mais assim... não consigo aguentar mais sem avacalhar a estória toda, sem transformar o cavalo onde se vai montar numa égua resmungona com o cio, sem inventar mulheres gordas e peludas por essas aldeias fora, sem dissecar a mente extremamente perversa deste príncipe, e enfim... isto é mais forte que eu...desculpa... eu tentei... mas não consigo...) pickwick

publicado por riverfl0w às 14:57
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Quinta-feira, 20 de Julho de 2006
Elas não querem ser princesas
Só a ida à Serra da Estrela, no passado fim-de-semana, dava um blog inteirinho. Em vez de apreciarem a natureza, o contacto com a beleza suprema, os passarinhos a chilrear, o vento da passar entre os arbustos serranos, e outras coisas que tais, os cinco letrados de mochila às costas que compunham o grupo de andarilhos, não se calaram o tempo todo. Ainda estão por escrever algumas divagações menores obtidas durante a caminhada, mas esta é demasiado profunda para ser deixada no meio das outras, pelo que lhe dedico um post próprio. Ora bem, então, após o confronto de uma série de experiências pessoais e alheias, chegámos à brilhante conclusão de que as mulheres não querem ser princesas. E, atenção, isto não é uma conclusão machista e desavergonhada, como algumas mentes feministas possam alvitrar. A própria Ana (nome de código do único elemento do sexo feminino do grupo, cujo nome verdadeiro se escreve ao contrário) defendeu esta ideia com unhas e dentes, ela própria partilhando factos e argumentos a favor. A ideia, que já defendo desde há duas décadas, é de que as mulheres gostam mesmo é de levar porrada. Bem, não precisa de ser à estalada. Aliás, nem precisam de levar porrada. Elas não querem mesmo é ser tratadas como princesas. O passado mostra que, em todos os casos em que os homens mimaram as respectivas mulheres, a relação acabou por se deteriorar com o passar do tempo. Numa larga percentagem destes casos, as mulheres, outrora tratadas como princesas, acabaram por se juntar a homens que as tratam como sopeiras de segunda escolha. Mesmo assim, mesmo sabendo que agora já não são bem tratadas como antigamente, resignam-se com alguma satisfação. Isto é, ou não é, de um gajo atirar com a cabeça contra uma parede? O JN (nome de código já referenciado noutro post), chegou-se à frente com uma teoria para justificar esta atitude aparentemente insana das mulheres: elas gostam de um homem que as trate à bofetada, porque esse será o homem que as defenderá mais rapidamente. Ou seja, é tudo uma questão animalesca. Ou seja, as mulheres são uns puros animais grosseiros. Aquela imagem que temos das mulheres, doces, sensíveis, belas, frágeis, queridas, e ah e tal, não passa de bluff. Elas regem-se por instintos animais básicos, onde a violência é parte integrante e omnipresente. O JN foi mais além na sua teoria: cada vez que o homem bate na mulher, esta sente que ele está a treinar para um dia a defender. É bonito, não é? O gajo que trate bem a sua mulher, é um frouxo, sabendo ela que, quando se vir num aperto, atacada por outrem, em risco, o frouxo do seu gajo não irá em sua defesa, porque... não tem treinado nela! Todas estas teorias, note-se, assentam em estudos científicos verídicos. São resmas e resmas de casos assim. E, quando estivermos perante um caso de separação ou divórcio, em que haja o argumento de violência doméstica por parte do homem, atentem: pode ser um caso de défice de violência, e não de excesso, ok? pickwick
publicado por riverfl0w às 00:45
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Quinta-feira, 13 de Julho de 2006
Príncipes e Princesas com castelos de algodão

(Uma leitora deste blog, nome de código “Chi”, caiu no ingénuo erro de me pedir para escrever uma história de príncipes e princesas com castelos de algodão doce, para o blog dela. Não fazendo um caderno de encargos, um pedido destes encerra perigo eminente. O resultado não ficou bonito, mas poderá servir de aviso à navegação alheia.)
Era uma vez um Príncipe chamado Liló, que vivia num país encantado e cheio de flores com padrões axadrezados. Liló ia a passar no prado verde, montado no seu belo cavalo lilás e zarolho, quando avistou ao longe um castelo de algodão em tons de cinza. Impressionado com as vistas, Liló apressou o corcel pela relva até estacar às portas do castelo, feitas de enormes placas de chocolate para culinária. Um véu esbranquiçado esvoaçava pela janela da torre mais alta do castelo, chamando-lhe a atenção. O relinchar do cavalo zarolho trouxe ao parapeito a dona do véu. Era, nem mais, nem menos, que a Princesa Salsinha, famosa galdéria das cortes que tinha sido atirada pelo seu pai para um quarto no cimo da torre, afastada das tentações da carne. Foi, decididamente, amor à primeira vista! Um novo relinchar do corcel inquieto com tamanha seca e farto de ouvir como música de fundo mais um tema de Emanuel, trouxe Liló à realidade. Ganhando coragem, dirigiu-se à Princesa Salsinha:
Liló – Ó de cima! Ó do véu!...
Salsinha – Que quereis, nobre e viril cavaleiro?
Liló – Cavaleiro? Então? Brincamos? Eu sou um Príncipe!
Salsinha – Ah! Ok! Desculpe lá o mau jeito. Então que me quereis?
Liló – Tão sozinha aí no cimo… precisais de ajuda?
Salsinha – Bem, se me resgatásseis desta maldita torre, eu poderia confortar-vos durante uma semana ali na cabana abandonada à beira do regato.
Liló – E não podeis descer sozinha daí?
Salsinha – Não. O meu pai trancou-me aqui dentro. Sacana…
Liló – Que pena… Então, que tenho de fazer?
Salsinha – O castelo é feito de algodão. As portas são feitas de chocolate. Só tendes de seguir em frente, comendo tudo o que lhe apareça pela frente. E, para que ficais mais desperto para o que vos espera, anuncio-vos que toda a minha roupa é feita de algodão doce…
Liló – Xi… Algodão doce…
O Príncipe lambeu-se avidamente, os olhos reviraram-se e um fio de baba escorreu para cima do dorso do cavalo, que, temendo algo pior, relinchou mais uma vez, acordando Liló para a realidade.
Liló – Pronto! Não precisais de dizer mais nada! Vou a caminho, minha princesa!
Salsinha – Vinde, vinde, que vos espera a concretização de todos os vossos mais íntimos sonhos…
O Príncipe avançou e devorou as portas do castelo. Um bocado enjoativo, o chocolate para culinária, mas o amor tudo compensa. Entrando no pátio interior, aproximou-se da torre e começou a comê-la. O desespero era tanto, que Liló não se apercebeu logo que o algodão da torre não era algodão doce, mas sim algodão simples, o que, ao fim de uns 7 metros de torre, começou a tornar-se muito intragável. Ainda assim, porque o seu prémio aguardava, continuou. A torre, sendo comida a partir de baixo, metro após metro, trazia o quarto cimeiro para mais perto de Liló, que devorava os nacos de algodão com um ar já agoniado.
Salsinha – Estais quase, meu príncipe – gritava ela, já cheia de calores.
Por fim, o quarto ficou ao nível do chão e Liló viu-se perante uma porta de chocolate com avelãs. Pedaços de algodão pendiam-lhe das mandíbulas, presos nos dentes. Inspirou profundamente, arrotou com vigor e, suspirando, atirou-se à porta, comendo-a em cerca de 27 segundos.
Salsinha – Meu príncipe! – exclamou, ardente e a arfar.
Liló acabou de mastigar o último pedaço de chocolate e olhou a Princesa Salsinha, mesmo ali, à sua frente, arfando, o peito a subir e a descer por baixo de um corpete de algodão doce azul, uma cuecas e ligas de algodão doce laranja e a tatuagem de um banco de jardim do lado esquerdo do umbigo. Toda a indumentária sensual e provocante estava a derreter-se por cima daquele corpo quente de desejo. O algodão açucarado misturava-se com o suor da pele, as cores desmaiavam e Salsinha parecia coberta, afinal, por uma “nhanha” empastelada que, depois de largos quilos de algodão, não parecia nada apetecível ao Príncipe Liló.
Liló – Errr… Oh menina, que nojo que para aí vai…
Um pequeno arroto brotou-lhe por entre os dentes castanhos do último pedaço de chocolate.
Salsinha – Meu príncipe, temos que ser rápidos. Quanto a minha lingerie derreter toda, o efeito do feitiço passará.
Liló – Feitiço? Qual feitiço?
Liló olhou Salsinha com mais atenção, começando a aperceber-se de uma camada peluda que despertava para o ambiente pesado do quarto.
Liló – Oh menina, que pêlos são esses? Que nojo!
Salsinha – Na verdade, eu sou uma Knorr. Uma bruxa feiosa, que trabalha no atendimento telefónico do INEM, transformou-me numa princesa coberta de algodão doce, para se vingar dos homens esbeltos que a desdenharam durante toda a vida.
(Nota do autor: os Knorr são uma espécie rara de animais míticos, adaptados fisiologicamente de uma obra de Woody Allen; os Knorr têm cerca de 2,4 metros de altura em adultos, a cabeça é um gomo de laranja algarvia, o tronco é de um chimpanzé e os membros são de chimpanzé, mas de chimpanzés diferentes.)
Liló parou uns instantes para pensar. Aquele não era o seu ministério, definitivamente.
Salsinha – Que ar desolado é esse?
Liló – Olhe, menina, eu vou-me embora, está bem? Fique-se lá com a cabana e os algodões e tudo o resto, que eu vou mudar de ares e beber uma água com gás para desenjoar disto tudo. Passe bem!
Salsinha – Oh… - exclamou, desfazendo-se em lágrimas citrinas que lhe pingavam para os pêlos asquerosos misturados com algodão doce derretido.
Liló montou o fiel corcel, entretanto também já enjoado com tanta nojeira, fazendo-se ao prado e aos montes que tocavam o horizonte. Desapareceu para nunca mais voltar.
Moral da história: antes de qualquer casamento, convém sempre haver dificuldades que testem a relação e mostrem aqueles pêlos todos escondidos debaixo da capa do desconhecimento mútuo. pickwick

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publicado por riverfl0w às 00:06
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Domingo, 5 de Setembro de 2004
Virtual pleasure – The Princess
Numa noite recente, estava eu aqui sem nada para fazer, ou pelo menos sem vontade de pegar no muito que tinha para fazer, quando descobri na Internet um site que vinha mesmo a calhar para essa noite tão solitária. Era em www.virtualpleasure.com e não é preciso explicar mais. Ou é? Havia vários programas para ocupar a noite com algo que nos desse um prazer para além do real. Bastava termos os olhos bem abertos, um microfone e uns auscultadores (colunas de som não convinha, por causa da vizinhança). Entre todos os programas disponíveis, houve um que me atraiu, não sei bem porquê. Deve ser por andar meio lamechas, ultimamente. Chamava-se “The Princess” e não hesitei muito em o escolher. Isto ia meter uma princesa, obviamente. Já era quase meia-noite, portanto, uma belíssima hora para uma coisa destas. Depois que cliquei no botãozinho que dizia “Go and be happy”, os acontecimentos sucederam-se a uma velocidade que ainda agora não consigo definir se era lenta, normal ou demasiado rápida. Ora bem, vamos lá a contar a coisa. A história, resumidamente, era um cavaleiro que faria uma viagem até um castelo longínquo, “roubaria” a princesa ali mantida prisioneira, levá-la-ia para uma cabana algures no isolamento de uma floresta, passaria a noite com ela, e, no dia seguinte, devolvê-la-ia ao castelo mesmo a tempo de alguém dar pela sua falta. Estas estórias modernas, realmente, não são como as de antigamente. Dantes, a princesa não voltava a ser prisioneira, ora bolas. O cavaleiro levava-a e pronto, eram felizes para sempre. Enfim. Modernices!... Adiante. Aquele site deve ter muitas visitas. Ó pá! A parte da viagem, que não interessava para nada, demorou quase uma hora. Irritante! Depois, o site foi abaixo logo na altura em que chegava ao castelo. Era suposto meter a princesa na garupa do cavalo e zarpar para a cabana na floresta, mas o que é certo é que ainda tive de gramar ali quase hora e meia à espera que metessem o site a funcionar novamente. Já estava a dar em doido. Ainda reiniciei o pc a pensar que o problema seria daqui, mas não, era mesmo deles. Assim que o site retomou a actividade, apareceu a princesa. Bem, um luxo. O site tem umas opções para se escolher a figura da princesa, assim bastante sofisticadas. Com jeito, consegui fazer uma montagem que ficou igualzinha à rapariga que eu mais desejava que fosse a minha princesa nessa noite. Impecável! A parte do corpo é que foi mais engraçado. Os gajos aí só tinham uma opção. Nem havia hipótese de escolha. Era corpo perfeito e mais nada. Isto não é bom, porque há muito gajo que prefere miúdas com mais de 150kg, e assim nem participa, tal é a desilusão. Mas, no meu caso, assentou que nem uma luva. Um corpo perfeito é o que tem a rapariga que eu desejava que fosse a minha princesa nessa noite. Assim, de alto a baixo, ficou igualzinho. Cinco estrelas. Viva a tecnologia! Na garupa do meu cavalo, linda de morrer, ia a princesa. Mais uma seca de viagem por montes, vales e florestas, até à cabana. Tenho de mandar um e-mail para ver se eles encurtam essa parte, que não tem piada nenhuma. Já na cabana, notava-se logo uma falhas. Não havia lareira. A sorte é que não estava frio. Também não havia uma cama! Ao menos um sofá, poxa! Mas nem isso! Estenderam-se umas mantas no chão e já fomos com sorte. A partir daí, uma vela iluminou-nos até se apagar, e a noite não foi noite, mas sim horas e horas de… de… enfim… Eu nem tenho palavras… Inexplicável. Também não vou entrar em detalhes. Mas foi… Eu sei lá!... Podia ficar assim dias seguidos! Um gajo não se farta! Nunca, quando estamos com a rapariga com quem mais gostamos de estar, a nossa princesa deste sonho que é a vida. O único atrofio era um relógio daqueles antigos que fazem ding-dong-ding e dão as badaladas de hora a hora, e às meias horas fazem ding. Ou dong. Sacana do relógio! A manhã nasceu cedo e o sol penetrou por entre as fisgas da janela. Diz-se que, se queremos saber se uma mulher é realmente bonita, o teste infalível é ao acordar. Se for mesmo bonita, acorda igualmente bonita, senão, é uma farsa. E esta? Estava perfeita! Eu se não estivesse já irremediavelmente apaixonado, era ali mesmo que o ficava. Princesa que é princesa, toma o pequeno-almoço na cama. E um cavaleiro nunca nega os direitos a quem de direito, daí que lhe fui levar o dito à “cama”. E o dito era, dentro das limitadíssimas opções disponíveis no site, duas rodelinhas de ananás e um copo de sumo de alperce. É lindo levar o pequeno-almoço à cama, a uma princesa, mesmo que seja de ementa limitada. Conta a intenção e o gesto, e, princesa que é princesa, sabe disso. Mais tarde, fiz-lhe um almocinho ligeiro e levei-a de volta ao castelo, mesmo a tempo de as gentes aparecerem para mais um dia entre muralhas. Sobra, agora, a recordação. Parece que ainda sinto os seus lábios nos meus, nas mordiscadelas provocadoras, o toque naquela pele macia, o abraço contínuo, e a insubstituível companhia. É escusado ir ao site agora, pois está em baixo. Pode ser que qualquer dia o voltem a meter online. Espero que sim. Quanto a ti, minha princesa virtual, seja o perpetuar dos meus beijos e do calor do meu abraço o preenchimento dos teus sonhos passados e futuros. pickwick
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publicado por riverfl0w às 17:38
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