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Domingo, 30 de Julho de 2006
Doce Nostalgia #2
É plausível, extremamente possível aliás, que este post não vos diga absolutamente nada. Mas há alturas em que não resisto a partilhar os meus sonhos, histórias e ambições de criança. Ambições de palmo e meio, ambições de 10 anos - inspiradas talvez em Enid Blyton, Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães - mas sem dúvida verdadeiras.

Perseguição Total

Introdução

Depois de dois textos da Editora Relato terem sido assinados por ele, nós, Editora, apostámos definitivamente em André Spencer Coelho, o mais recente escritor português. Quando André Spencer Coelho escreveu esta obra, fê-lo a pensar em si, leitor. Depois de duas obras com o mesmo título ("O Relatório" e "O Relatório II"), decidimos lançar para o mercado um texto com um novo título, "Perseguição Total", sempre com o mesmo personagem, o lendário Inspector Barrosão.

Sempre querendo o melhor para si,
Editora Relato


Tinha acabado de tocar para sair da aula de Inglês. Levantámo-nos e o professor mandou-nos sair. Neste caso, o director da escola Colégio Vasco da Gama tinha-me pedido para investigar quem andava a roubar os pneus da Carrinha H. Mal saímos da aula de Inglês, comecei a minha investigação. Para tentar detectar o ladrão em 27 alunos da turma C do 6º ano, apliquei a minha táctica de procurar os mais "santinhos" da turma para seguidamente os perseguir. A escolha foi difícil, mas consegui eleger um suspeito: "Manelinho, o santinho". Foi aí que comecei a minha perseguição do primeiro ao último segundo. Ele dirigiu-se à sua viatura, arrancando de imediato. Mas ele não perdia pela demora: chamei o meu carro telepático e instalei-me nele. O percurso até ao seu suposto esconderijo não foi longo. Seis quilómetros após a partida do referido Colégio, o suspeito parou. Saiu da viatura, de que eu previamente tinha anotado a matrícula, dirigindo-se para uma vivenda. Segui-o, naturalmente. Só quando o vi a sair da vivenda com o fato-de-banho vestido é que reparei que aquele "santinho" era mesmo "santinho". A seguir ele mergulhou nas águas transparentes da sua bela piscina, e eu deixei-o em paz. Coitado!
Depois fui para minha casa, tendo lá chegado por volta da meia-noite. Tentei dormir, mas não consegui: tinha de arranjar rapidamente um suspeito. Mudei de táctica. Desta vez, decidi suspeitar dos mauzões, porque tinha aprendido uma lição: não confiar nos ditados populares. No meu suspeito "santinho" eu tinha aplicado um ditado muito popular: "As aparências iludem". Mas desta vez não caí na mesma armadilha, e até inventei um novo ditado popular: "As aparências não iludem". Mas, com tudo isto, esqueci-me de dormir. Bem, só tenho 3 minutos para adormecer ou não durmo o suficiente. Até amanhã!

No dia seguinte, estive a procurar um mauzão na minha turma, e lá o descobri: "Tavares 009, danado para a porrada". Quando saímos da última aula, chamei logo o meu carro telepático, caso ele decidisse fugir antes de eu o poder seguir. Mal se via o meu carro telepático ao virar da esquina e ele já tinha arrancado. Não tinha tempo a perder! Tinha de o seguir!
- Comecei a minha perseguição total! - disse eu, enquanto o carro do suspeito se afastava cada vez mais. Arranquei imediatamente, na 5ª velocidade e a 285 quilómetros à hora. De repente, perdi o carro do suspeito de vista. Olhei para trás e lá estava ele! Tinha arrancado depressa demais para um novato a conduzir como ele. Então lá o segui a 40 quilómetros à hora até à casa dele. Chegámos lá eram 8 horas da noite, devido à demasiada lenta condução do suspeito. Ele saiu da viatura e mal entrou em casa foi-se deitar. Decidi dormir ao pé do último degrau das escadas que davam acesso à casa dele.
- Amanhã retomarei a investigação. - sussurei de mim para mim.
Acordei com um enorme peso na barriga. Olhei para cima e vi que ele me tinha tomado por um degrau. Era agora ou nunca. Eram ainda 5 horas da manhã e ele já tomava o percurso habitual para o Colégio. Segui-o a todo o custo, mas com alguma dificuldade devido ao sono. Chegámos ao Colégio e lá saltou ele o portão de entrada. Com os meus binóculos telepáticos, segui de perto os movimentos dele. Lá estava ele a roubar os pneus da carrinha! Fui-me embora para minha casa e dormi descansado o resto da noite.
Nos seguintes dias, "Tavares 009, danado para a porrada" ficou preso na cadeia de Caxias, e eu recebi a medalha de melhor detective do ano.

riverfl0w
26/9/96

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publicado por riverfl0w às 21:13
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Sexta-feira, 23 de Junho de 2006
Feel like doin' it?
A ouvir, na voz de João Vaz

O meu blog dava um programa de rádio - Rádio Comercial

 

São 6 da manhã. Horas de estar a dormir, entenda-se - como provavelmente estarão a fazer 90% das pessoas à distância de menos de cinco fusos horários - exceptuando uns quantos que hão de estar a fazer relinchar as molas dos colchões. Se eu não fosse, portanto, ligeiramente insano, estaria a ressonar - embora não ressone - em vez de estar pr'aqui a escrever baboseiras. A questão é que esta madrugada fui assaltado por uma ideia altamente filosófica. Muitas vezes pensamos naquilo que deixámos por fazer, em certas oportunidades que não agarrámos com ambas as mãos... existe até aquele cliché - que fica sempre bem na boca de uma loura qualquer, até porque é fácil de decorar - do "só me arrependo daquilo que não fiz". Pois bem, aqui entre nós, temo que não passe mesmo de um cliché. A verdade é que em qualquer coisa que façamos, mesmo que se trate da oportunidade do século, existe sempre algum pormenor - por mais ínfimo que seja - que não corre bem. Como quando pisei a miúda mais gira da escola inteira, no Baile de Finalistas (que por acaso até estava a dançar comigo), ou quando gaguejei na minha primeira peça de teatro por me ter esquecido da deixa. São momentos que acabamos por recordar com alguma piada, ternura até, mas guardamos alguma mágoa por não terem sido... perfeitos. Os únicos que acabam por ser inexoravelmente perfeitos são, esses sim, aqueles que nunca aconteceram. Situações que ficaram apenas num pensamento, num sorriso, num olhar cúmplice. Aí, imaginámos tudo como queremos - até ao mínimo detalhe - e é assim que fica maravilhosamente guardado no álbum de recordações. Como se tivesse acontecido. Até ao dia em que disfrutamos da alegria imensa de se ter realizado, e guardamos aquela mágoa pequenina de não ter sido perfeito. Quer-me parecer que Flaubert já dissertou sobre este assunto, mas se assim for, é preciso que compreendam que em mais de 4000 anos de história humana é difícil de lembrarmo-nos de coisas originais. Ainda assim, vale a pena pensar nisto. riverfl0w
música: Perfect – Smashing Pumpkins
publicado por riverfl0w às 06:03
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Segunda-feira, 15 de Maio de 2006
Os amigos da Meia Via
Há passeios românticos, numa solarenga tarde de primavera, que facilmente se transformam em passeios nostálgicos. Por certo haverá casais de licenciados que passearão por ruas outrora calcorreadas com uma capa nojenta às costas, apontando para ali e para acolá, entre espasmos bestiais (de besta, entenda-se), recordando em voz alta as efemérides e as companhias que deram azo a cenas tristes de vómitos ao virar daquela ou de aqueloutra esquina. É uma forma de realizar um passeio nostálgico. Cada um tem a sua. Eu cá, foi mais de um saltinho à Meia Via. Para os menos sabidos e menos doutos em geografia nacional, a Meia Via é uma pacata aldeola ribatejana, banhada agora pela moderníssima A23, e alvo do malfadado progresso que assolou todo (ou quase) o país, remetendo para um outrora longínquo a paz e o sossego que faziam de nossa vida uma vida com qualidade de vida. Portanto, uma vida de qualidade. A Meia Via também devia ser assim. No passeio, recordei-me de alguns fogachos, à guisa de “felaches” e picos de acesso ao Memory Stick. Muito cansativo, digo já, ou não tivessem passado mais de três décadas sobre a última vez que estive na Meia Via. Como o tempo voa. Ou, adaptando à modernidade, o tempo agora passa a vida a andar de avião. Bom, entrado na Meia Via, o único pedaço que de lá me poderia recordar era mesmo a escola. Não que lá tivesse estudado, mas porque a minha mãezinha lá trabalhou durante um ano e eu tinha de ir com ela para lá, fazer tempo, entregue à liberdade condicionada do recreio de uma escola primária. Ao dobrar a curva, mesmo antes de bater de frente no edifício escolar, uma encosta suave fazia descida para a auto-estrada. Eu não sou muito de pesadelos, mas há que referir que tenho sorte por nunca ter tido sonhos atribulados com uma cena foleira que me aconteceu naquela encosta. Acho que foi o primeiro dá-de-frosques da minha vida, um verdadeiro brilharete dos “100 metros encosta acima”. A cena foleira deu-se numa tarde qualquer, tinha eu seis anos. Como puto que é puto a sério, e não os pedaços de carne amorfa e enjoada de que são feitas as crianças hoje em dia, não tardei enquanto não quebrei a liberdade condicionada, atravessei a estrada e abalei encosta abaixo, na ganância de explorar novos territórios de baldios, pinheiros e mata rasteira. A coisa é que correu mal, pois um cigano dos seus dez anos, que não tinha mais nada para fazer, topou-me ao longe e em pouco tempo estava também na encosta, aproximando-se de mim com um arame ferrugento nas mãos, esticando-o repetidamente e exibindo um ar sinistro e pouco amigável. Não me lembro bem, mas mandou umas bocas quaisquer sobre enrolar-me o arame ao pescoço e ah e tal. E eu, nem esperei para lhe responder educadamente que fosse à m****, até porque só umas semanas mais tarde é que devo ter aprendido a ser assim educado, vai lá saber-se com quem tive as lições. Em três tempos tinha esgalhado a encosta toda e saltava ligeiro por cima do muro da escola, provavelmente branco que nem umas ceroulas, e muito ofegante, com o coração a saltar-me pelas narinas. É fixe ser-se ameaçado com um arame e escapar. É bonito, até. Lembro que, a seguir ao muro, o conforto veio mesmo dos meus únicos amigos de então. Naquele pátio enorme aos olhos de um puto de seis anos, mas pequenino como agora pude constatar, costumava passar muito tempo com os alunos mais velhos, os da “tele-escola”, tudo acima da barreira dos 12 anos. Uns matulões, pensava eu, lá de baixo da minha minorca estatura. O “russo”, era como me chamavam, a propósito da cor do meu cabelo. Acho que só passados muitos anos é que percebi essa expressão, mas pronto, eles eram felizes assim, a chamar-me destas coisas. Fui ter com eles e fazer queixinhas. Tipo apresentação de queixa de tentativa de agressão numa esquadra da GNR, mas com a diferença que ali se obtinham efeitos práticos. Tal como eu entrei de um salto por cima do muro para dentro da escola, assim saiu um bando de matulões em direcção à encosta baldia. Não assisti a nada, mas desde aí nunca mais voltei a ter problemas com arames e tal. Só com ciganos atrás da minha bicicleta, mas isso é outra estória, noutro local. Uns gajos muito fixes, esses amigos da Meia Via. É curioso regressar a um local passados tantos anos. Especialmente pela nova perspectiva arquitectónica da coisa, pairando os olhos ao dobro da altura de antigamente. Um recreio gigantesco, agora tão mediano. Foi nesse recreio que andei “à porrada” a primeira e única vez da minha vida. Por acaso, mas só por mero acaso, foi por instigação dos meus amigos fixes da Meia Via, curiosos por verem como é que um puto pãozinho de leite com seis anos se safava embrulhado à pancada com um gandulo de dez anos, da aldeia. Lindo serviço! Mas safou-se bem, graças à boa alimentação caseira e à azelhice bilateral. Uma daquelas cenas de pancadaria muito violentas, em que os dois contendores se abraçam, espumam, gemem, rebolam, urram, fingem que matam o outro, mas não acertam uma. No fim, sobram umas caras muito vermelhas, um nariz alheio amassado com a pressão dos abraços, talvez um bocado de ranho a escolher pelas beiças, as gadelhas todas alvoraçadas, as fraldas de fora e a cabeça a andar à roda. Altamente! Teoricamente, como o outro é que teve o azar de ficar com o nariz amassado, sobrou-lhe a derrota. Eu cá não dei por nada, de tão desorientado que estava. Os meus amigos é que estavam todos contentes, que paródia! E o dia estava a correr muito bem, até chegar a minha mãezinha e prometer ajustar contas comigo em casa. Pior, foi chegar a casa e ela ajustar mesmo contas comigo! Foram tantas neste coiro que jurei para nunca mais na vida alinhar numa daquelas. Mas pronto, foi pelos amigos da Meia Via. Uns gajos fixes. pickwick
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publicado por riverfl0w às 22:03
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Terça-feira, 4 de Janeiro de 2005
Nostalgia, talvez

Hoje era urgente vir aqui. Dei por mim a duzentos e muitos quilómetros de onde sempre vivi, fechado num quarto a ler na diagonal o que os outros escreveram sobre a arte do século XX. Reparei que mal conheço as pessoas com quem vivo há quatro meses... reparei que talvez tenha criado laços mais fortes com os dois franceses e as duas polacas que a minha família acolheu nos últimos cinco dias, mesmo falando um francês mal amanhado. Aprendi que na Polónia não há laranjeiras, que a Torre Eiffel tem 360 metros, que se vê a uma distância de sete quilómetros, e que "Doubránotz" quer dizer "Boa Noite". São trivialidades, talvez. Mas não serão estes pequenos momentos que dão sabor à vida?

Reparei que mal sei os nomes dos meus colegas de curso. Uma delas competiu comigo num dos campeonatos de natação, há uns anos. Aquele nome não me era estranho, eu sabia. Cruzámo-nos algumas vezes na câmara de chamada. Veio-me à memória aquele cheio intenso a cloro, que antes das provas me dava sempre a volta ao estômago... o ajeitar frenético dos óculos, os músculos retesados à espera do sinal de partida.
Vasculhei nos motores de busca à procura desses tempos... ei-los! Míudos de catorze anos na piscina, de sorriso rasgado. Não foi há muitos anos que era eu quem estava ali... sonhava em ser campeão nacional, em ser apurado para os campeonatos da Alemanha, muito mais.

Hoje estou aqui, longe, e noto que que pouco tenho dessa época. Uma ou duas fotos, perdidas no tempo, alguns telefones que nunca mais foram marcados.
Hoje já não quero ser campeão nacional. Quero ir a São Tomé e Príncipe, a Taizé, escrever artigos para a revista, tirar a carta, ser titular da equipa de FutSal... e quem sabe ser jornalista, produtor multimédia, o tempo o dirá. E é por isso que tenho apontamentos sobre Les Fauves, Débussy, Schönberg, Bahaus, Breton, Entartete Kunst pousados na secretária.
Mas acima de tudo, quero falar mais, conhecer mais, viver mais. Cada momento como se fosse o último. Doubránotz. riverfl0w
publicado por riverfl0w às 01:19
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Quarta-feira, 22 de Setembro de 2004
Inconsciências 6
Esta é a verdadeira inconsciência! Um gajo quando vai para a escola primária ainda está em processo procriação da consciência, a bem dizer. Antes, então, não passa de uma expectativa dos adultos que torcem por nós e pelo nosso futuro como médicos famosos e cheios de notas. Quando se anda ainda de fraldas, é a altura excelente para as barbaridades que nunca queremos que os nossos filhos saibam. Apanhei a minha primeira bebedeira com a bonita idade de ano e meio. Assim tipo dezoito meses. Por aí, segundo consta dos registos de memória da família. Local? Um bar qualquer em Moçambique, onde fazia muito calor. Dizem. Eu não me lembro de nada. Estava ao colinho da minha mãezinha, ao balcão. Como estava calor, a bela da imperial ajudava a abater o sofrimento. A minha mãezinha, que não era muito de beber, mas gostava de fazer coisas que ficassem bem aos olhos dos outros, tinha pedido uma imperial. Gostava mais de conversar com a colega ao lado do que propriamente beber cerveja. Copo cheio, portanto. Já naquela altura o meu estômago ansiava por tudo e mais qualquer coisa que mexesse, deitasse fumo, tivesse espuma ou borbulhasse. E ali, mesmo à minha frente, tinha uma combinação de duas. Espuma e borbulhas. A minha mãezinha ainda estranhou o copo vazio, mas como a conversa foi longa e a distracção ainda mais, não pensou mais no assunto. Até ao momento em que me meteu no chão e me largou. Aí, sim! Qual Fred Astaire?! A loucura total. Nem seguro pela mão! Imparável! Meses depois, o meu primeiro acidente de automóvel. Sóbrio, atenção! Sóbrio e ainda de fraldas. Era para ser uma brincadeirinha do meu paizinho. Meter-me ao volante do “Vauxhall Viva” branco da família, com uma almofada por baixo para poder ver (e ser filmado) para a frente e conduzir conscientemente. Bem, até hoje ainda não percebi como foi. Há umas filmagens de uma câmara Super 8, muito descontroladas, onde apareço eu ao volante, a olhar para a câmara, a rir-me a bandeiras despregadas. Completamente feliz, presumo. Com um chapéu à cóbói, se bem me lembro. O carro em andamento, numa pequena descida. De repente, entra em cena o meu paizinho, largado a correr, a tentar meter a mão dentro do carro e agarrar no volante ou não sei onde. Diz-se que foi a primeira árvore que apareceu logo à frente. Eu não sei. Não tenho culpa. O meu paizinho tapou-me a vista e não pude desviar o carro. pickwick
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publicado por riverfl0w às 22:56
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Quarta-feira, 8 de Setembro de 2004
Inconsciências 5
Ok, agora já não é nos onze. Passemos aos treze. Para além de ter sido o ano em que ganhei a alcunha com que assino estes posts, foi também o ano em que dei comigo sentado na paragem do comboio da estação de Belém, lá para as 3h da madrugada. O dia tinha sido comprido. Pela hora do almoço lembro-me de andar mato fora cheio de boas intenções de chegar à nascente do rio Almonda, com uma mochila a tiracolo, ali para os lados de Torres Novas. Mais comboio, menos pé, e vice-versa, e aí estava eu na paragem do comboio. Fazia algum frio, na altura. Devia ser início de primavera. Ia vestido com roupa de ir à missa, imprópria para andar por ali àquelas horas. Já tinha tentado adormecer debaixo de arbustos em jardins públicos em Santos, mesmo em cima da terra húmida, mas não resultara muito bem. Queria apanhar o comboio para o Estoril, onde morava a Rita (sim, a mesma da alcunha), mas descobri que os comboios não funcionavam numa determinada faixa da madrugada. O próximo, só lá para as 5h ou 6h. Resignado, sentei-me no banco da estação, à espera. Eu devia pensar que era normal um puto de treze anos, vestido como se fosse para a missa, estar ali plantado naquele sítio, àquela hora. Pensava mesmo! Nisto, entre um pestanejar pesado e um desequilíbrio momentâneo, passa um “Citroen Diana” castanho. Nada de mais. Menos de um minuto depois, passa outro igualzinho no sentido contrário. Quase que parecia que era o primeiro, depois de dar meia volta, mas vindo mais lentamente. Mais meio minuto e… era o mesmo, mais lentamente… E novamente… até que parou. Mesmo atrás do banco onde eu estava. A janela abre-se e um tipo barbudo tipo Fidel pergunta-me para onde é que eu quero ir. Respondo educadamente que quero ir para o Estoril. E ele pergunta se eu quero boleia. E eu digo que sim, obrigado. Ok, isto nunca se faz, pois não? Nunca!!!... A minha mãezinha fartou-se de me avisar, para nunca apanhar boleia de estranhos. Só me lembrei disso depois do carro arrancar, comigo lá dentro. A conversa foi relativamente rápida. Ele pergunta se eu tenho namorada e eu respondo que sim (grande mentiroso). Ele pergunta a minha idade e eu respondo com mais um ano por cima, para não parecer muito mal. Ele pergunta se eu quero uns beijinhos e uns abraços e eu respondo-lhe que não, obrigado. Beijinhos e abraços? Ai ai ai, pensei eu. Temos festa, temos, temos… O barbudo lá deve ter topado que eu, apesar das respostas prontas, tinha feito clique cá dentro. E atalha logo com um discurso muito calmante, que eu não tivesse medo, que ele não era daqueles que fazia mal às crianças, e bla bla bla. E eu respondo logo que não, nada disso, não me passou nada disso pela cabeça e bla bla bla. Silêncio. Assim como quem se lembra que se esqueceu do totoloto, informo-o que afinal tenho família em Algés, ali mesmo ao lado, e pode deixar-me lá. Ele diz que não tenha pressa, vamos só dar uma voltinha até à Torre de Belém. À Torre de Belém? Ai ai ai… Isto já cheira a sopa estragada. Silêncio, até chegarmos ao parque de estacionamento em frente à torre. Outros carros, todos com ar extremamente suspeito, estavam já lá estacionados. Alguns com pessoas muito suspeitas lá dentro. O silêncio continua. Era óbvia a embrulhada em que estava metido. E das grandes. Havia que engendrar um plano rápido para me meter ao fresco. Faço um ar de fascínio pelo rio Tejo iluminado pelo luar. Pergunto-lhe se posso ir ver mais de perto. Ele pergunta se eu estou com medo de alguma coisa, que ele não é dos que fazem mal às crianças. Eu respondo que não, é mesmo só para ver o rio, que está tão bonito. Ele aceita. Uma mão no fecho da porta e outra na mochila, e lá vou eu até ao muro, dois metros à frente. Ele continua dentro do carro. O gajo se fosse esperto, tinha-me espetado um sopapo logo lá dentro. Mas não. Sorte a minha, está visto. Assim como quem continua fascinado pela paisagem, baloiço o corpo para um lado e para o outro, enquanto seguro com mais firmeza a alça da mochila. Respiro fundo e, num ápice, desapareço numa correria frenética. Em poucos metros desço uma escadaria que dá até quase ao leito do rio e dou de caras com um fulano, todo vestido de preto, que se assusta comigo e se cola à parede. O coração quase que pára, chiça! Mas que mau ambiente por ali. A pausa foi mesmo só de umas fracções de segundo. Embalo novamente e aí vai disto. Não era qualquer adulto que me conseguia deitar a mão naquele tempo. E, borradinho de medo como ia, tinha que ser um bom atleta. Só parei na linha do comboio, já em Algés. Estavam várias carruagens paradas e atirei-me para dentro de uma delas, sonhando com o sossego de um esconderijo. O sonho durou uns 4 segundos, só até ouvir uma porta a bater. Salto da carruagem para o meio da linha, a pele arrepiada até mais não, e lanço-me para o lado de lá, atravessando a marginal e calcando o primeiro passeio da terra. Ando mais uns 10 metros e vejo ao longe dois polícias. Era só o que me faltava! Eles topam-me, mas eu, cheio de esperteza, finjo que saio calmamente de trás de um carro, sacudindo as calças e apertando os atacadores. Afinal de contas, que coisa tão banal, um puto de treze anos, vestido para a missa, mochila a tiracolo, àquela hora, naquele lugar. Assim como quem vai à horta, dirijo-me para fora de vista dos polícias, topando pelo canto do olho que nenhum deles se lançou a correr atrás de mim. Assim que dobro uma esquina, zás!, nova corrida frenética, com aquela sensação de já ter ganho a maratona e ludibriado a força policial inteira lá da terra. Assim que dobro a próxima esquina, dou de caras com outro polícia, calmíssimo, como se estivesse ali mesmo à minha espera. Então que andas aqui a fazer, pergunta ele. Ando a passear, respondo eu. Resposta inteligente, não é? A cabeça desdobra-se em mais planos para dar o fora daquela cena, olho para trás e aproxima-se mais um polícia. Que é como quem diz, acabou-se! Despeja lá o que tens na mochila, ordena-me o polícia. Obedeço. Caem na calçada alguns objectos. A faca e os fósforos dão um bocado nas vistas. Vá, anda connosco, vamos ali à esquadra, diz-me ele. Um puto não tem bem consciência do que faz, nem em que se mete, pois não? pickwick
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publicado por riverfl0w às 00:06
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Terça-feira, 7 de Setembro de 2004
Esta noite fui assediado pela Bárbara Guimarães

Hoje dei por mim a aconselhar um amigo meu. O tema era, (inevitavelmente, como diria o pickwick), gajas. E a verdade é que fiquei surpreendido com o que ia dizendo:
Ora, há a fase dos interesses comuns, em que as conversas giram em torno disso, ao mesmo tempo que se vão alargando os horizontes - introduzi eu, com aquele ar de sábio social tresloucado. Depois, chega a parte do cafezito, que complementa a fase anterior. Quem diz café, diz ópera, diz Scooby Doo ou mesmo um serão a observar o comportamento dos gansos patola no seu habitat natural. Aí, consoante fores vendo o teu espaço de manobra, atacas. Falas primeiro sobre o assunto, indirecta ou directamente, ou simplesmente atacas. Como achares melhor - rematei.
"Grande táctica, vais abrir uma agência de casamentos?" - perguntou, naif.
Não, isto é flirt, puro divertimento social. Toda a gente sabe os passos, mas a piada é jogar o jogo da sedução. Tal como na esgrima... tens de avançar e recuar, estudando os movimentos do teu adversário - qual comentador da RTP a comentar uma partida olímpica de florete. Depois há estratégias, claro. Basta seres tu próprio, e usares uma boa dose de boa disposição e romantismo. Talvez ajude um pouco de estilo self made cliché, "Até um esquilo conseguiria perceber como és bonita... e os esquilos vêem mal ao perto!" ou até, numa fase mais avançada...

Aviso: Todos os menores de 18 anos devem carregar neste preciso momento na combinação de teclas Alt+F4. Obrigado.

"Arrefinfava-te até teres o útero encostado à garganta." (para os menos esclarecidos, é obvio que nunca usaria esta frase, a menos que tentasse engatar uma ninfomaníaca. Pouco provável.)

E é nestas alturas que vida nos passa à frente... os namoricos da primária, de mãos dadas, inocentes; o primeiro beijo, a medo, atrapalhado, numa garagem, ao som de Savage Garden; a primeira paixão, por uma rapariga mais velha, onde sempre ia arrancando uns beijos, fugazes, mas bem saborosos; a irreverência do ciclo e a indecisão própria da idade; os primeiros namoros a sério, ainda que curtos; a alemã de Taizé, entre tantos outros flirts de ocasião, que gostou tanto ou tão pouco de mim que me deu morada e número de telefone errados; os flirts de férias, em que era urgente aproveitar o tempo; outro namoro, data de outras tantas aventuras, muito bons momentos a dois; e finalmente uma história acabada, ou talvez por acabar.... porque mesmo quando estamos parados, o Mundo continua a girar. (Que lindo!)
E sabe tão bem, o gosto de um beijo. riverfl0w

PS: O título serviu apenas para que lessem o post até ao fim. Espero que não se zanguem.

publicado por riverfl0w às 03:00
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Mr. Pickwick
Charles Dickens dispensa apresentações. É um famosíssimo escritor do século XIX. A sua primeira obra, publicada por partes, entre 1836 e 1837, chamava-se “The Posthumous Papers of the Pickwick Club”, ou, mais simplificadamente, “The Pickwick Papers”. Tinha o homem vinte e cinco anos. A obra versava sobre as aventuras e actividades do ingénuo Samuel Pickwick e dos seus amigos no “Pickwick Club”. Mr Pickwick era o fundador e presidente do clube, um antigo comerciante e cientista amador convicto. Os inseparáveis amigos incluíam Sam Weller, seu companheiro de maior confiança, o desportista Winkle, o poeta Snodgrass e o mulherengo Tracy Tupman. Foi a rampa de lançamento do sucesso de Dickens. Mais de século e meio depois, existem bares e pubs espalhados pelo mundo que recorreram a esta obra e a este personagem para darem o nome a si próprios. “Pickwick Pub”, “Pickwick Bar”, “Pickwick Cafe”, “Pickwick Restaurant”, “Pickwick Saloon”, “Pickwick Bowling” e até um verdadeiro “Pickwick Club”. No Estoril, em tempos, ali numa rua a modos que nas traseiras dos bombeiros, havia um “Pickwick Pub”. Lembro-me de passar por lá e ver a placa, muito “british”, muito século XIX. Andava eu no 8º ano. E enfim, agora que se esgotou o passeio pela cultura e pela rede de restauração e consumo de bebidas alcoólicas, acho que está na hora de revelar a verdadeira e humilhante origem deste pseudónimo com que assino as barbaridades que por aqui se escrevem. A culpa é de uma miúda. Só podia ser. Chamava-se Rita e fiquei perdido de amores por ela mal entrou para a minha escola e a topei. Estava numa turma um ano atrás de mim, mas era da minha altura. Reconheço que não era assim muito bem feita, mas o amor tem destas coisas misteriosas. Foi paixão para durar um ano inteiro. Mais precisamente até às férias do verão. Corria o boato na escola que namorávamos, mas não passava mesmo de um boato. Faltava só mesmo eu declarar-me e espetar-lhe um beijo naqueles lábios muito carnudos. Ora, como eu não era capaz de me decidir qual das duas tarefas era a mais difícil, andei a engonhar o tempo todo, até ao verão. Até ela achar que eu não gostava de gajas, talvez, ou dela, e se fartar de esperar. Ou seja, grande tanso! Enfim, seja como for que foi, esta miúda marcou de alguma forma a minha adolescência inicial. Era uma miúda porreira, muito simpática, muito querida, muito atenciosa. Não é que falássemos muito, que vivêssemos juntos aventuras, mas quem sabe o que é o amor platónico correspondido, sabe do que falo. Aqui há cerca de uns 4 anos cruzei-me com ela num centro comercial em Oeiras. Era ela de certeza. Reconheceu-me ao longe. Já tinham passado quase duas décadas, mas o olhar foi exactamente o mesmo que nos corredores da escola, as sobrancelhas carregadas, olhar penetrante. Por momentos senti-me tentado a ir ter com ela, mas o namorado ou marido estava junto e podia não achar muita piada. Além do mais, eu estava trajado com o mais reles fato de treino que se possa imaginar, ténis rotos, sujo de andar a mexer em teias de aranha, folhas de bananeira e caixotes cheios de pó. Foi bom vê-la. Não matou a saudade, porque não havia, mas satisfez alguma curiosidade adormecida. Chamava-se Rita e era uma miúda porreira. Se calhar já disse isto. Bom, a Rita, que era uma miúda fixe de quem eu gostava muito, desde o início do ano que me chamava Pickwick. A moda pegou e muita malta não sabia o meu nome. Apenas me tratavam por Pickwick. Até era giro. As amigas dela, então, achavam uma graça imensa. Ficava bem, achava eu. A alcunha ainda a usei durante muitos anos, até mesmo depois de já poder votar. A primeira vez que passei pelo tal bar, fiquei a saber de onde vinha o nome Pickwick. Não percebi muito bem porquê, o que é que eu tinha a ver, mas o amor tem destas coisas. Pensava eu. Ingénuo!!!... Bom, não sei se já disse, mas a miúda chamava-se Rita e eu gostava muito dela. Era muito simpática. Eu engraçava com ela. Certo dia, lá mais para o final do ano, trouxe para a escola uma fotografia do cão dela, para me mostrar. Era um “salsicha”, daqueles “rodinhas-baixas” mal jeitosos com pernas de rã e focinho de canudo com orelhas abelhudas ao pendurão. Fiz um sorriso condescendente, para ela ficar feliz, mas a verdade é que aquele tipo de cão não devia existir. Claro que não lhe disse isso, ou lá se ia o amor platónico pelos ares. Ela ficou satisfeita com o meu sorriso e virou a fotografia para que eu soubesse o nome daquele animal feioso que lhe nutria tanta ternura. Foi o choque do ano! Sim! Era este mesmo: pickwick.
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Segunda-feira, 6 de Setembro de 2004
Inconsciências 4
Onze anos. Sim, outra vez. Não tenho culpa e não é de propósito. O tema de hoje é tabaco. Sim, esse vício horrendo. Foi o ano da primeira experiência. Tenho algumas dúvidas sobre qual foi a marca, mas terá sido algo entre o viril SG Ventil com sabor a sapato usado e o discreto Kentucky tido como o mais eficaz mata ratos da época. Aconteceu quando descobrimos que havia monte de gente a chuchar cigarros. Não é que ainda não soubéssemos, mas nesse ano “descobrimos” isso. E, tal como quem descobre um novo restaurante, há que ir lá meter o nariz. Ou, neste caso, os beiços. Ainda foi uma coisa polémica. Quem iria experimentar, quem iria comprar, que desculpa se daria para a compra, e onde iríamos acender aquilo para ver o efeito. Se alguns comparsas houve que se desmarcaram logo à partida, outros não se fizeram muito rogados. O grupinho de “corajosos” lá se definiu, alguém com um ar angélico foi ao café comprar um maço para o pai, e lá rumámos todos para um canavial ali mesmo à beira da 2ª Circular. Outro dia passei por lá a caminho do aeroporto e o canavial ainda sobrevive, um quarto de século depois, provavelmente à espera de mais experimentadores. A experiência em si não teve nada de especial. Ninguém explodiu, ninguém morreu, tudo numa boa, ai de quem se atrevesse a comentar o sabor fedorento que ficava na boca. A farra só começou quando, sugestionados por um outro amigo qualquer, entrámos na fase de travar o fumo. Entre os enjoos e os vómitos sucessivos, não consigo esquecer as cabeçadas que dei nas latrinas, de tantas tonturas que tinha que nem me conseguia equilibrar. Mas, a malta teimava sempre em repetir a dose. Sem explicação. A pirosice atingiu o seu auge quando começámos a andar com um maço num bolso e no outro uns óculos escuros espelhados ao pendurão. Foi, sem dúvidas, a época da minha vida em que consumi mais pasta de dentes. Para além das vezes sem conta em que usava a escova, recorríamos frequentemente aos nacos de pasta que eram atirados para dentro da boca com o auxílio da ponta do dedo, mascados de seguida como se fosse a mais bela e saborosa pastilha elástica. Tudo para disfarçar o hálito, claro. Em poucas semanas já fazíamos truques e malabarismos. Já só com uns meros 8mm de cigarro para consumir, entalávamo-lo entre a língua e o beiço inferior, fechando a boca com o cigarro lá dentro a arder. Voltávamos a abrir a boca e aí vinha ele, a largar fumo, pronto para levar mais uma passas. Muito “macho-man”, decididamente. E nem o isqueiro escapava. Como se não bastasse o já batido truque de deitar o gás para dentro de uma mão fechada para depois lhe chegar o fogo e a mão se abrir numa labareda fantástica, tivemos de treinar o mesmo com a boca, como no circo. Às custas disso, certa vez ainda queimei umas pestanas, ao soprar a língua de fogo contra uma parede. Foram muitos meses, nisto. Até ao dia em que o meu melhor amigo teve uma conversinha comigo. Ele fora dos que se metera de lado quando começámos com as experiências. O tema da conversinha era o efeito do tabaco nas prestações físicas. Não éramos putos bem informados, claro, mas contra factos não há argumentos. Até termos começado nisto, fazia parte de um grupinho de alunos bem acima da média em desporto. Éramos os melhores nesta ou naquela modalidade, detendo recordes aqui e além. Foi por aí que ele pegou, precisamente. Ainda não me tinha dado conta disso, mas o recorde de onze elevações na barra que eu dantes fazia sem me chatear muito, contrastava com as reles sete elevações que agora me borrava todo para conseguir fazer. Era um facto, e não valia a pena procurar outras explicações que não o tabaco. Estava mesmo ali, na cara. Foi remédio santo e acabou-se o vício de um momento para o outro. Este amigo morreu aos vinte e poucos anos, vítima de um problema no coração, mas a ele lhe agradeço a lição de vida. Obrigado, 476. pickwick
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publicado por riverfl0w às 10:55
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Sábado, 4 de Setembro de 2004
Inconsciências 3
Pornografia. E sexo. É o tema deste post. Algum dia tinha de ser. Começo com uma estória. Era uma vez, claro, um bando de cerca de uma dezena de putos de onze anos. Caía a noite, mas, ali, naquele caminho alcatroado e ladeado por árvores frondosas, a noite caía ainda mais depressa. Era a subida para o ginásio da escola, onde ao final do dia vinham treinar atletas de outras escolas e não só. O bando aguardava do lado esquerdo para quem sobe, escondidos por montes de terra e arbustos. Ninguém sabia ao certo o que estavam ali a fazer, mas estava a ser divertidíssimo. Nisto, vislumbra-se por entre as sombras um vulto. Era uma mulher dos seus vinte anos, saco desportivo a tiracolo e passadas enérgicas. Alguém no bando descobriu o que poderia ser feito. “Vamos violá-la”, exclamou. A ideia foi recebida com bocas abertas de espanto e sobrolhos franzidos, num sinal evidente de apoio inequívoco. “Quando eu disser, saltamos para cima dela”, era o plano. Os corpos franzinos dos putos retesaram-se naquela posição de salto, impacientes pela ordem final. A mulher passou por eles e, quando já só os via pela nuca, soou o “já!” tão esperado. Foi só o tempo de darem dois ou três passos, alguns nem tanto pois escorregaram desastradamente na terra solta, e ouviu-se a poucas dezenas de metros um apito estridente. Aquela zona era vigiada, sabiam, mas escusavam de apitar numa altura destas. Tomados de pânico, o bando dispersou descontroladamente por todos os lados onde havia um arbusto e muita escuridão. Lá se foi a violação, e a mulher nem chegou a aperceber-se de nada. Mas, “vamos violá-la”??? Do que raio eu me havia de lembrar!... Eu nem sabia o que isso era. Nem eu, nem o resto do bando. Éramos putos, mal informados e completamente estouvados. Devia ter ouvido aquele verbo algures, associado a qualquer coisa que se faz a uma mulher, provavelmente sem roupa. Ainda bem que não chegámos a vias de facto, pois, para além de não sabermos o que fazer, se chegássemos perto dela, o mais provável era sermos corridos ao estalo e ao pontapé, situação que decerto nos traumatizaria para o resto da vida. Foi um ano de descobertas, este. Falava-se muito na Camisa de Vénus, ou Camisinha, para os amigos, mas acho que só no ano seguinte descobri que afinal esta camisa não era a camisa branca vestida pelos nossos colegas mais velhos nas aulas de equitação, de uso obrigatório. Um dos meus colegas, magrinho e com ar lunático, repetente, era o ídolo de alguns pela proeza de conseguir masturbar-se no meio de uma aula de inglês com o professor Walter, esse metro e noventa de peso, fato e lenço no pescoço, com umas mãos maiores que qualquer uma das nossas cabeças. Chamava-lhe àquilo uma … (petisco nacional à base de bacalhau cru desfiado). Mais um nome para a nossa colecção. Circulavam as revistas pornográficas. Às custas delas, sempre que ouço o nome Gina, não consigo contornar a memória. Algumas páginas soltas tornavam-se mesmo num mistério, pois os grandes planos dificultavam a orientação vertical da página. Para além de nos parecerem um bocado nojentas, ficava-nos sempre mal virar e revirar aquilo com um ar de ignorância total. Um dos alunos mais velhos, já nos seus dezassete anos, era frequentador semanal dos serviços das meretrizes da Avenida da Liberdade. Facilmente se tornou o nosso ídolo, reunindo-nos horas a fio à sua volta enquanto contava as aventuras. Tinha predilecção por uma delas, com quem mantinha um relacionamento mais carinhoso, e a quem levava queijo e outros petiscos quase todas as semanas. Nós andávamos fascinados com aquilo tudo, com tantas novidades. Certo dia, o nosso ídolo deixou de aparecer nas aulas durante umas semanas. Mais tarde, voltou às aulas. Não era o mesmo. Vinha de muletas e mal conseguia esboçar um arremesso de sorriso, bem aquém de antigamente. Reunimo-nos à volta dele, curiosos. Teria levado uma sova do chulo da outra? Atropelado? Ele explicou. Nesses minutos seguintes, tive a melhor e mais eficaz lição sobre prevenção de doenças venéreas de toda a minha vida, num gesto de humildade que me marcou para sempre. pickwick
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publicado por riverfl0w às 11:39
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