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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008
Jornada desportiva
Dizem que está uma espécie de frio. Talvez sim, talvez sopa de legumes.
 
O certo é que, com algumas espécies de temperaturas, a execução de determinadas tarefas reveste-se de carácter especial, por motivos variados. Nada que impeça a jornada desportiva que ainda decorre.
 
1. Apesar de, no final do inverno passado, ter instalado uma salamandra XPTO espanhola aqui na sala, ainda não me compenetrei das suas eventuais potencialidades domésticas. Por tal, ultimamente tenho adoptado uma sofisticada técnica para combater o frio, em especial naqueles momentos em que temos de passar horas a fio em frente do computador, a dar aos dedos, embora estes sejam as partes que mais rapidamente arrefecem e gelam. E a sofisticadíssima técnica consiste em levantar pesos. Pois é! Um gajo começa a estar com frio, levanta-se, pega nos halteres, e pimba, pimba, pimba e pimba. Quinze minutos a bombear, dá aquecimento corporal para cerca de uma hora! Assim, junta-se o útil ao agradável. O útil é um corpo musculado de linhas viris (lá para 2013) e o agradável é a sensação de calor num ambiente gelado. Efeitos colaterais: umas dores musculares, passíveis de desaparecerem com massagens feitas por mãos femininas.
 
2. Uma bela quinta-feira, fui treinar para uma prova de corta-mato com um colega de trabalho, o Fifi (nome de código), já depois do pôr-do-sol, ora em alcatrão, ora mato dentro. O Fifi tem menos de trinta anos e é árbitro de futebol, pelo que foi muito simpático em ter parado as vinte e três vezes em que fiquei sem fôlego. No dia seguinte, portanto, ais e uis, e um andar à coxo. Vergonhoso…
 
3. Outro dia, foi dia de corta-mato lá na instituição. A tal prova para que tinha andado a “treinar” na semana anterior. A malta gosta destas paródias, embora a maior parte acabe por fazer pouco mais que trinta metros. Apesar disso, fiz questão de completar as quatro voltas do percurso. O Fifi saiu ao fim da segunda volta, para ir tratar do som para o espectáculo de entrega das medalhas. O Lili (nome de código), um jovem de vinte e cinco anos, saiu logo ao fim da primeira volta, vai lá saber-se porquê. Os restantes, homens e mulheres, desapareceram misteriosamente de cena. Valeu-me o Pipi (nome de código), quarentão praticante amador de ténis, ou praticante de ténis amador, que concluiu três voltas comigo. Um agente da GNR que montava guarda na estrada para impedir a passagem de veículos, já esfregava as mãos de contente, com o final da prova, para se poder ir embora. Mas, homem que é homem, vai até ao fim. E o Pipi foi um gajo porreiro, que aceitou dar a quarta volta – um feito inédito, mesmo já com risco de um colapso cardíaco. Cortámos a meta, bofes de fora e fomos tomar banho. Ainda estávamos a vestir-nos quando invadem o balneário para nos chamarem para irmos receber as medalhas e a coroa de louros (versão oliveira). Foi bonito, com o senão de no dia seguinte estar mais morto que vivo. Deu direito a uma cervejola ao almoço, para revigorar mente e corpo.
 
4. Ainda com a pica toda do corta-mato, na semana seguinte convenci o patrão e o Fifi a irmos correr ao final do dia, na quinta-feira. Já de noite, pois claro. Isto foi nas vésperas do fim-de-semana em que se previa estarem -15ºC na serra da Estrela, a escassos 7 km do meu local de trabalho, pelo que se imagina a bela temperatura que se fazia sentir. Ainda assim, lá fomos os três, feitos tolinhos, estrada fora. O patrão, que é da zona, levou-nos por um trilho de terra batida pelo meio de nenhures, até um santuário mais além. Fizemos tudo sem stress, até porque não se podia aspirar o ar com muita força para não congelar os pulmões. Soube bem o passeio, coisa para uma hora, embora o dia seguinte fosse muito penoso. Há um motivo estratégico para ter convencido o patrão a ir correr: devido à idade avançada, passaria para ele o fardo de fazer os pedidos para uma paragem aqui e acolá, para recuperar o fôlego. E ajuda à frágil sustentação do ego, confesso.
 
5. Logo no domingo seguinte, pimba. Estava em casa, lá fora chovia, ah e tal, um gelo de rachar, entretanto veio um bocado de sol, mais uma chuva, mais sol, céu nublado e cá vai disto. Duas sweats em cima do corpo e pimba para os pinhais, já com o sol a cair no horizonte. Isto de correr pelos pinhais é muito giro… a natureza, as árvores, os passarinhos, as nuvens, os esquilos, as poças de lama, a ausência de gajas, etc. Mas, isto de um gajo ter peso a mais que a conta é muito chato. Ali nos pinhais nos arredores da minha aldeia, há um percurso que costumo (ou costumava fazer), que incluía uma série de descidas e subidas, sem que a maiorzinha ficava sempre para o fim. Nesse mesmo percurso, todos os anos acontecia o mesmo, quando, pela Primavera, recomeçava a treinar. As primeiras vezes um gajo parava meia dúzia de vezes nas subidas, que já não se aguentava. Depois, de semana para semana, à medida que começava a entrar em forma, ia parando menos vezes, até que, passados uns tempos, entrava mesmo em forma e não parava vez nenhuma nas subidas. Entretanto, já tinha perdido uns quilinhos com a brincadeira. Presentemente, tenho cerca de quinze quilos a mais do que deveria (a fasquia está no peso que tinha quando fui para a tropa), o que quer dizer que é como se andasse a correr com três garrafões de água pendurados no corpo. É muita água! E o que é que acontece? Acontece que um gajo está de tal maneira em baixo de forma, que tem que parar nas descidas!!! Isto é deprimente, mas é a verdade. Um manifesto sinal de decadência. Nada que não se consiga inverter…
 
6. Falando em jornada desportiva, começou o mês de Dezembro, e, com ele, a repetição de uma jornada “desportiva” de outro calibre. É o mês do Natal e, consequentemente, o gabinete do patronato encher-se-á de chocolates a um ritmo quase diário. Ou são os trabalhadores que passam por lá para deixarem uns docinhos, ou são os próprios membros que oferecem os docinhos aos trabalhadores que por lá passam. O certo é que se trata de um mês de intenso consumo de chocolates. Arrasador! Depois vem o Natal com a família, um intervalo, e a desgraça total com a passagem de ano… Ainda se eu fosse um enjoadinho que só gostasse de salada-de-fruta e pescada com hortaliça… mas, não… tive logo o azar de ser um cidadão do mundo, aberto à diversidade gastronómica e aos prazeres da vida… (suspiro) pickwick
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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007
Acabe-se com o Natal
Eu não quero ser desmancha-prazeres, nem mete-nojo (embora tenha queda para tal), mas quer-me parecer que o Natal já deu o que tinha a dar. Como festa, como celebração, como desculpa para o que quer que seja, whatever, já deu o que tinha a dar, digo eu. Quer-me parecer que o povo já está um pouco enjoado disto. Está cansado de encher o bandulho, de panos vermelhos, de rabanadas, do Pai Natal, das renas do Pai Natal, das ceias de âmbito profissional, das ceias de âmbito associativo, das ceias por dá cá aquela palha, dos presentes e prendas e presentinhos e prendinhas, dos laçarotes das prendas, do papel de embrulho das prendas, da confusão diária das vésperas, do bacalhau, do peru, do polvo e do resto, do bolo-rei, das SMS sisudas, das SMS humorísticas, das SMS eróticas, dos anúncios da TV, dos filmes lamechas na TV, dos programas de Natal da TV, da TV, do Natal, das canções de Natal tradicionais, das canções de Natal menos tradicionais, dos remix’s das canções de Natal, da neve, da neve artificial, das árvores de Natal, das bolas das árvores de Natal, dos enfeites, das estrelinhas, das coroas, do azevinho coitado, das viagens de Natal, dos acidentes das viagens de Natal, das filas para comprar presentes, das lojas a tresandar a Natal, dos hipermercados a tresandar a Natal, das chaminés por onde ninguém vai descer, do jantar de Natal em família, da família, dos avós desdentados, das tias chatas, dos pinheiros resinosos, dos pinheiros de plástico, das luzinhas a piscar, das lareiras, das meias, das camisolas, o bandulho constantemente atulhado de doces e couves, enfim. E, até, da Mãe Natal trajada a rigor com uma curtíssima mini-saia. Quer-me parecer que o povo está cansado e farto. Cheira-se no ar uma atmosfera de falsa alegria, um pacto silencioso com a tradição enfadonha, apenas inquebrável pelos adereços porreiros que acrescem a isto tudo: o subsídio de Natal, as férias e umas prendinhas. Pela parte que me toca, tenho a reclamar que foi graças a esta trapalhada do Natal que, pelas vinte e duas horas do dia vinte e quatro de Dezembro do presente ano, fui confrontado com o ponteiro da balança a passar a centena de quilos. Não devo ter sido caso único, por certo. Tal como milhões de portugueses, vou ver-me obrigado a encetar sérios esforços para reduzir os efeitos nefastos de vários dias a alimentar-me como um camelo à partida para o deserto. Afinal de contas, não tenciono trocar de guarda-roupa só por causa de um barbudo vestido de vermelho. E, já agora, não esqueçamos os malefícios para a saúde! Ui! Do piorio! E o bacalhau! Tanto sal!!! Doces, açúcar, mais doces, ainda mais açúcar, fritos, doces fritos, óleo queimado, rabanadas, mais fritos. Peru engripado. Bolo-rei sem fava nem brinde. Bolo-rei de castanhas (andam a estragar castanhas, andam sim). Oferecem-se prendas e presentes que não servem para rigorosamente nada, só para ficar a oferta feita. Até há quem já não saiba o que fazer a tanto frasco de aftershave! Alguns já podem começar uma extensa colecção de cachecóis. Do mal, o menos, quando a oferta é feita de chocolates – embora o excesso de cacau seja perigoso. Pesando na balança, francamente, não vale a pena continuar. Era de se acabar com o Natal e pronto. Por causa do hábito instalado, poder-se-ia substituir o Natal por algo mais animado, mais apetecível, menos chato, menos vermelho, mais global e menos rechonchudo. Para breve, apresentarei ao mundo uma proposta para substituir o Natal por algo diferente. Uma proposta séria, baseada em estudos científicos rigorosos, como é meu apanágio. Que tal uma… Festa do Mundo? pickwick
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Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2006
Noite de Natal

Que bonita! Que ternura! Bem, este ano, para variar mesmo, fui passar o Natal a essa bela localidade que responde pelo nome de Foz do Arelho. Não reparei se havia algum rio Arelho a desaguar por lá perto, mas isso agora não interessa. Fui passar o Natal à Foz do Arelho porque a minha mãezinha decidiu que, este ano, não havia de andar de roda dos tachos e das panelas e das travessas. Assim sendo, arranjou-se para ir passar quatro dias ao complexo hoteleiro do Inatel, naquela mesma localidade. É fácil, é barato e não dá que fazer. Comida na mesa, bufete em abundância, sem necessidade de conduzir depois das refeições, quarto aquecido com televisão… Bom, que se pode pedir mais? Além disso tudo, nada do irritante e obeso Pai Natal. Só vantagens! Fomos jantar por volta da hora do jantar, ou seja, já não me lembro. Mal entrei no refeitório (devia chamar-lhe restaurante, para ser mais chique, mas a verdade é que aquilo parecia uma cantina militar), percebi logo que este ia ser um Natal diferente. Diante de mim, sentada num sofá do átrio, estava uma moçoila dos seus 19-23 anos, mais coisa, menos coisa, cabelos longos e aloirados, óculos com armação azul, costados direitos e firmes, figura elegante e quase que majestosa, ajeitando-se para o jantar. Por ajeitar, entenda-se: vestir mais uma pecinha de roupa, para enfrentar o gelo da noite, por cima de uma curtíssima camisolinha, abaixo da qual assentava a cintura rebaixadíssima (tipo “tuning”) de umas calças de ganga. Palmo de pele à mostra, como manda a regra e como o povo gosta. Entre a cintura da calça de ganga e a pele fresca, dois centímetros de cuequinha azul-bebé. Meu Deus, porque me lanças estas coisas para a frente do nariz? Olhei com mais pormenor, meio embriagado pelo choque, reparando que as cuequinhas azul-bebé não estavam a ser usadas por acaso do destino, nem pelo destino do acaso. Aliás, ali, naquela vigorosa moçoila, nada parecia ter sido deixado ao acaso. O azul-bebé da cuequinha condizia com o azul da armação dos óculos, com o azul da ganga e com o azul de algumas faixas coloridas na camisola de lã. À matadora! Seria ela a ementa do jantar? Não. Que pena! A ementa era mesmo bacalhau conforme a tradição e, para as mentes mais abertas, lombinhos de porco. Nham! Para fazer feliz a mãezinha, provei o bacalhau, as couves, a cenoura e a batata. Depois, arrumei o prato e fui jantar os belos dos lombinhos. A menina da cuequinha azul-bebé foi sentar-se junto da família. Nesta noite, sabendo que não precisaria de conduzir, teria a oportunidade fantástica de poder regar os lombinhos com a bebida que me coubesse no estômago. Teria, digo bem. Mas não tive. Veio para a mesa uma garrafinha de tinto da casa, 75cl. Deu para provar. Gostoso! Mas não deu para beber. Quando eu e o meu irmãozinho esvaziámos a garrafa, a mãezinha olhou desolada para os seus dois filhos, lamentando profundamente que fossem uns beberolas e já tivessem bebido tanto vinho! Eu ainda sugeri uma cervejinha, que é assim mais fraquinha e ajuda à digestão, mas mais valia ficar calado, pois a sugestão ainda escandalizou mais a mãezinha, por implicar uma mistura explosiva de álcool… Estes dois irmãozinhos olharam-se, entristecidos com um Natal estragado por teorias puritanas sobre ingestão de bebidas alcoólicas. Ainda planearam um assalto ao bar do complexo, para botar abaixo uns úteis digestivos, mas optaram por uma posição abstémia, de respeito pela ocasião. Ora bolas! Entretanto, devido à limitação líquida, houve que remediar o tédio. Curiosamente, ao contrário do expectável, o Inatel não estava a ser frequentado apenas por representantes das brigadas do reumático e da artrose, tal como verificado pela existência de uma moçoila com cuequinhas azul-bebé. Além desta, outras dignas representantes do sexo feminino dentro do prazo de validade marcaram presença no refeitório. Para grande alegria da minha mesa, excluindo a minha mãezinha, que só tinha olhos para o bacalhau e para os lindos filhos. De destacar três presumíveis irmãs, cuja diferença etária rondaria os oito anos, sendo que a mais nova teria os seus dezanove anos. A mais velha era feia como um gnu e vestia-se como quem já ultrapassou o prazo de validade. A do meio, era portadora de uma beleza aceitável, boca tipo BB (de Brigitte Bardot), elegante, trajando com uma saia ligeiramente acima do joelho (palmas! alegria! júbilo!), pernas cobertas por umas meias integrais (tipo collants) de cor bordeaux (oh…), que condiziam com uma bonita camisola também bordeaux. Da mais nova, lamento a imprecisão científica, mas apenas me recordo que trajava uma mini-saia!... Muito mini… Que grande jantar de Natal! Ainda sobre a ementa, há a referir uma quebra no fornecimento de sobremesas. Ao que a minha mãezinha conseguiu apurar, posteriormente, era suposto ter havido pudim Molotov e uma torta à qual costumam chamar “tronco”, dadas as parecenças. Mas, aconteceu que, pelo caminho da confeitaria até ao Inatel, numa distância de alguns quilómetros, uma travagem mais brusca transformou as travessas de deliciosas sobremesas, nomeadamente as atrás referidas, numa javardice indescritível no compartimento da carrinha onde eram transportadas. E logo o pudim Molotov, tão sensível, tão ai-não-me-toquem-senão-desmancho-me-todo. Por isso, sobraram apenas outras iguarias menos espalhafatosas, das quais destaco o arroz-doce, esse inigualável príncipe das sobremesas. Um Natal sem arroz-doce, é como uma mulher muito gorda e muito feia e muito peluda a dançar toda nua em cima de um caixote de peixe apodrecido: não morre ninguém por causa disso, mas não é agradável. E porque a noite de Natal é uma noite bonita e feliz, divulgo publicamente a grande conclusão a que chegou o meu irmãozinho: na noite de Natal não há prostituição! Irmãozinho, subscrevo-te inteiramente. No Natal, só há mesmo meninas com lingerie sugestiva e saias encolhidas. Rameiras é que não! pickwick

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Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2006
Queria um Natal assim...

Isto sim, seria um Natal a sério, com muito entusiasmo, muita alegria e ainda mais alegria... Enfim, fica o suspiro...

 

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Terça-feira, 26 de Dezembro de 2006
Vésperas de Natal

Que é como quem diz: nos dias antecedentes. Tipo, nos dias anteriores ao Natal. Isso. Fui passear à capital, essa bela localidade de mouros frustrados, paredes esborratadas e lixo humano. Um “must” desta cidade é a verdadeira, a única, a inimitável, a extraordinária Feira da Ladra. Fascina-me, pronto. Gosto de ir lá na ânsia de encontrar, por golpe de sorte, mais algum item que possa ficar bem no meu amontoado de itens amontoáveis, que alguns caridosos apelidam de coleccionáveis, como se eu tivesse, de facto, uma colecção. Enfim. A feira estava ligeiramente desfalcada. Os larápios do costume não faltaram ao chamamento, com os seus sacos suspeitos, os olhares por cima do ombro, e nem faltou uma bela rusga policial, como nos filmes. Só foi pena não encontrar nada do que queria. Para a próxima, talvez a sorte bata na minha porta. Ainda tentei ir a uma Feira de Velharias, com mesmo propósito, mas, dada a data, não se realizou, com grande pena minha. A culpa, claro está, é do Natal. Claro que não gosto do Natal. Acontecem sempre coisas estúpidas. Ah, e também fui Ikea. Já andava para lá ir há anos! Nunca calhou. E calhou agora. É um mundo! Fico sempre fascinado com estes centros de vendas, intoxicados por centenas de pessoas que se chocam nos corredores. O que vale é que, no meio de tanta gente, aparecem sempre umas gajas giras e bem postas, para adoçar o olhar. Ao fim de alguns minutos, torna-se enjoativo. É que, para quem vive numa paz de alma com vista para a maior serra de Portugal continental, ver-se embrulhado entre centenas de compradores com ar de ganância e olhares envidraçados, não traz absolutamente nenhum prazer. Mas, algum dia tinha de lá ir, para ver como era, até porque encontrei por lá umas coisinhas bem baratinhas que me faziam alguma falta e que tive mesmo, mesmo, mesmo que comprar, entrando para a lista de clientes desta superfície comercial tão conhecida. Adiante. Por altura do Natal, cometem-se algumas loucuras, como é sabido. Parece que o dinheiro estica misteriosamente até limites impensáveis e compram-se objectos cuja utilidade é mais difícil de imaginar do que relativamente a um pijama com ursinhos e “estrunfes”. Neste caso concreto, aconteceu com o meu paizinho, que resolveu comprar uma nova televisão. Eu já sabia, desde tempos há muito idos, que ele não gostava de televisões de tamanho mediano. Tem que ver com problemas de visão e ah e tal. Ultimamente, que é como quem diz, nos últimos anos, ele andava com um pouco de azar com a televisão lá de casa. Ora dava, ora não dava, ora gozava com o dono, enfim. Pelos vistos, o meu paizinho chateou-se e foi comprar uma televisão para homens. Não medi, mas deve ter mais de um metro de largura! Descomunal. Ocupa quase metade da parede. Um exagero, direi eu. Bom, mas para exagero mesmo, basta o preço. Prestei atenção ao preço delas, na Worten, assim só como que por curiosidade, e fiquei com a sensação que o mundo está mesmo perdido. Por esta altura, a televisão estava em promoção, por obra e graça do Pai Natal que gosta muito dos clientes, sendo o PVP de uns arredondados 1600 euros. Trezentos e vinte contos. Mas, antes da promoção extraordinária, a televisão estava à venda por 1900 euros, que foi quando o meu paizinho se lembrou de a comprar. Ou seja, quase quatrocentos contos! Por uma televisão. Isto não é normal. Com quatrocentos contos eu enchia uma estante com livros, comprava infindáveis peças de lingerie sensual para a minha fã número um, comprava umas calças novas para substituir a ganga coçada que uso hoje, e ainda sobrava dinheiro para mais uns livros e umas velharias sem importância. Quatrocentos contos! Porra! O Natal deixa as pessoas estranhas e sem capacidade para resistir à atracção absurda pelos produtos supérfluos. O Natal também é uma boa época para mostrar o nosso melhor em termos de disparates. Eu comecei bem. Fui ajudar o meu paizinho a mudar de sítio uma bicicleta daquelas estáticas para pedalar enquanto se vê televisão, tão prestável e simpático que eu estava, mas começou logo da melhor maneira, quando bati com um dos pés da bicicleta na esquina de uma parede. Foi só um toquezinho levezinho, devagarinho, como se fosse com uma pena. Só assim de mansinho, com carinho. Mas foi o suficiente para fazer saltar da parede uma lasca de estuque com quase um quilo e mais de um palmo de comprimento, deixando à mostra o cimento que se encontrava escondido debaixo de três centímetros de estuque. Foi um bom começo. Poucos minutos depois, foi a cena das molduras antigas que eram da minha avó. Umas relíquias, portanto. Era só para tirar os pregos de trás, com um alicate, com jeitinho, devagarinho, suavemente. E lá se foi o vidro, com uma rachadela em forma de banana. As molduras que sobraram, eram para ser penduradas algures nas paredes do corredor. Tarefa simples e ao alcance de qualquer mortal. Um preguinho de aço, um martelo, pás, pás, pás, e já está. Já está, lascas de estuque e caírem da parede. O meu paizinho já tinha agastada a célebre frase “não faz mal, ninguém morre por causa disso”, mas, na falta de outra coisa igualmente simpática para dizer, continuou a usá-la. A culpa, obviamente, é do Natal. Esbanjar dinheiro e lascar o estuque das paredes, são tudo efeitos nocivos da época natalícia. Arre! pickwick

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Domingo, 24 de Dezembro de 2006
O Natal na Zara

Um destes dias que passaram, vivi uma experiência memorável, a qual desejo partilhar ao longo destas linhas. Julgo que era uma quarta-feira. Combinei com uma amiga irmos até à cidade mais próxima, meter a conversa em dia, jantar e dar um passeio por um centro comercial. Sim, um centro comercial. Um gajo tem que fazer cedências, a troco da companhia. Pretendia parquear o carro num espaço baldio mesmo em frente ao restaurante chinês, onde iríamos jantar, e onde já estavam parqueados dezenas de carros. Quando cortei para o terreno, o qual alguns bem dispostos cidadãos apelidam de parque de estacionamento, quando surge pela frente um daqueles fulanos com ar de cão rafeiro, magro e mal arranjado, barba por desfazer e cabelo desgrenhado, alto, a esbracejar. Estava a falar com uma gaja qualquer e deixou-a para vir para a frente do meu carro esbracejar. Quem era o fulano? Um arrumador, pois claro. A dar indicações para onde eu poderia encontrar um lugar vago. Ora, há uma série de personagens da nossa sociedade que constituem uma verdadeira lista negra de indivíduos elimináveis. Os arrumadores estão nos primeiros lugares. Naquele mesmo “parque”, há uns dois anos atrás, apanhei pela frente outro arrumador, a querer prestar-se a servir, cuja disponibilidade obteve, como resposta da minha parte, uma tentativa frustrada de atropelamento, para gáudio do meu irmão que se desmanchou em gargalhadas de júbilo. Agora, como então, os nervos incharam e lá se foram as estribeiras. Parei o carro à entrada e fiquei a olhar para o arrumador com aquele ar de quem come criancinhas guisadas ao pequeno-almoço. Ele topou que havia qualquer coisa de errado, mas a droga deixa as pessoas assim, com pouca perspicácia. Aproximou-se da minha janela, a sorrir e a esbracejar. Pronto, passei-me. Prego a fundo, motor a roncar, rodas em rotação rapidíssima, calhaus e lama a saltarem por todo o lado, a amiga ah e tal calma que dás cabo disto tudo, travo mais à frente, mais prego a fundo, mais calhaus pelos ares, mãos crispadas, dentes a ranger, irritação máxima. Detesto arrumadores. Estacionei mais à frente, ah e tal o gajo ainda te vem dar cabo do carro, dizia a amiga. Ah sim?, pensei eu, então deixa-o o vir que depois tenho ali uma coisa na bagageira para ele. Fechei o carro e dirigimo-nos ao restaurante, que ficava, curiosamente, na mesma direcção onde o arrumador estava instalado com uma gaja, provavelmente uma das suas fãs. Não sei o que passou pela cabeça do arrumador, mas lá achou que eu comia mesmo criancinhas guisadas ao pequeno-almoço e jantava arrumadores gratinados. Começou a andar mais a gaja, afastando-se, mas falando alto, bem alto, ah e tal, não te fiz mal nenhum, porque é que ‘tás chateado comigo, e eu a fazer-lhe sinal com a mão para se afastar, como quem afasta uma mosca. Ele foi mantendo a distância, até que desapareceu ao fundo da rua, para nunca mais se ver. Sou mesmo um querido, quando chega o Natal, não sou? Bom, carne de vaca com cogumelos chineses e bambu, pato três sabores, cervejinha, banana frita com gelado, ah e tal, e lá fomos nós para o centro comercial. Queria comprar uma saia, a minha amiga. Está bem, disse-lhe eu. Mais valia ter ficado calado. É Natal e devemos ser simpáticos, mas ir com uma amiga às compras à procura de uma saia, é, tão só e apenas, um infantil erro táctico. Fui arrastado por todo o centro comercial, entrei em praticamente todas as lojas de marcas pomposas com roupa de gaja. Tipo cachorrinho. Valeu-me o consolo de não ser o único gajo a arrastar-se atrás de gajas que queriam comprar roupa. Aliás, o mundo deve estar a mudar, porque a quantidade de gajos a arrastarem-se atrás de gajas que queriam comprar roupa, era escandalosamente grande! Às mãos cheias! Começámos pela Zara. Que só tinha roupa para gajos. Ah, esta é a Zara Man, disse ela, vamos à Zara Woman. Pronto, então. Vamos lá. Visita cultural. Apesar de ser Dezembro e estar um frio de rachar cimento, as empregadas apresentavam-se todas elegantemente vestidas com calças pretas e uma camisa fininha, também preta, com riscas. Esta camisa, das duas uma: ou foi feita propositadamente dois números abaixo das utilizadoras, ou o modelo é mesmo para dar a impressão que é dois números abaixo. Um gajo nunca sabe, porque a moda tem destas e doutras coisas. Ou seja, como todas as empregadas da Zara eram proprietárias de abundantes e erectos seios, todas as camisas aparentavam estar em risco de estoirarem pelos botões, facto que proporcionava uma paisagem deslumbrante para qualquer apreciador da especialidade. Para mais, a Zara não contrata gajas balofas. Algumas menos bonitas, sim, mas balofas é que não. Pelo que, dentro daquela loja, a paisagem era, de facto, deslumbrante. À parte as empregadas e os respectivos peitos volumosos a forçarem os botões, a loja tinha ainda outras coisas para entreter o olho. Nomeadamente, as peças de roupa. Ora, em quase todas as secções havia uma peça de roupa que me fascinou. Tratava-se de uma mini-saia, incrivelmente mini, estonteantemente curta, com cerca de um simples palmo de comprimento. Ah pois é. Um palmo! C’um caraças!, exclamei eu, perante tanto erotismo subjacente. Ah e tal, respondeu a amiga, isso é para usar com calças por baixo. É mesmo?, questionei eu, incrédulo e desapontado. Bem, em princípio, respondeu ela. Nunca se sabe, terminei eu, babando-me interiormente com a imaginação. Tenho que sair mais vezes à rua naquela cidade, para me cruzar com as compradoras daquele tipo de saia. Já na fila para pagar uma camisola (ainda faltava a saia que nos levou ali), detectei um fulano engravatado, de casaquinho, gel no cabelo, metro e oitenta, que também era funcionário da Zara Woman. Carago!, exclamei eu. Gajo de sorte! Prestei mais atenção e apercebi-me que, afinal, não era um gajo de sorte. Não. Era um gajo com toda a sorte que se poderia arranjar e pedir emprestada. O bafejado, sacana sortudo, para além de trabalhar na Zara só para mulheres, rodeado de mulheres e mais mulheres e ainda mais umas quantas gajas e as amigas das gajas, só aqui e além cruzando-se com o namorado de uma cliente, trabalhava na área da experimentação. Esta é aquela área mais reservada, que tem uns cubículos vedados por umas reles cortinas que deixam gigantescas brechas através das quais um olho mais atento encontrará corpos esculturais a experimentarem roupa, despe, veste, despe, veste, vem cá fora, mostra às amigas (ou ao coitado do namorado), volta para dentro, despe, veste, e ah e tal. Quanto é que o gajo pagou ao patrão para trabalhar ali, hum? Não tem problemas de coração? E as que vão comprar roupa sozinhas e depois ficam com o fecho encravado e pedem ajuda? E as que vão comprar roupa sozinhas e não têm mais a quem pedir opinião sobre certa roupa parca de tecido? Enfim, fiquei o resto da noite a roer-me por não ter um emprego daqueles. Lá para a décima segunda loja, a minha amiga encontrou a saia que queria, com um farrapo de seda agarrado como musgo na parte da frente, preta, pelo joelho, da Pepe Jeans London (o esforço que fiz para conseguir memorizar uma marca de roupa que nunca ouvi falar, só para dar conta da mesma aqui neste blog!), que custou a módica quantia de setenta e cinco euros. Quinze contos. Com quinze contos, tentei explicar, eu comprava quase dez pares de calças. Não adiantou, ela gostou mesmo da saia e não vacilou, nem mesmo com o penduricalho de seda à frente, que mais parecia um defeito do que uma obra de arte e cuja utilidade a empregada da loja não conseguiu explicar. Minutos depois, já no Continente, comprou uma outra saia, giríssima (não me fica bem comentar roupa de mulher, mas depois de ver o sortudo do gajo a trabalhar na Zara Woman no meio de mulheres a trocarem de roupa, o mundo tem que mudar), daquelas que dá vontade de meter a mão por baixo, pelo preço de quinze euros. E sem penduricalhos inexplicáveis. Ou seja, pelo preço da outra, compravam-se cinco destas, se não me falham as contas. E acabou o dia. Eu devia sair menos à rua. E sair menos com amigas quando vão pelas ruas fora acometidas por aquela missão universal de comprar roupa. Os fenómenos a que assisto afectam-me negativamente na maneira de ver o mundo, diminuindo a esperança que tenho na humanidade. Sim, a raça humana está perdida. pickwick

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Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2006
Começou o raio do Feliz Natal

Pronto! Ah e tal, boas festas, boas entradas, Feliz Natal, blá blá blá. Aqui está um dos motivos pelos quais o Natal é tão irritantemente irritante! Qualquer coisinha, então adeus, boas férias, Feliz Natal, boas entradas em 2007, e o caraças. Beijinho, beijinho (esta parte até podia ser agradável, se não tivesse o Feliz Natal), entra com o pé direito, não comas muitos doces, blá blá blá. Hoje ainda perguntei, com ar pasmado, a alguns colegas: Feliz Natal?! Que apressados! É como chegar ao verão e começar a dar os parabéns pelo aniversário a toda a gente, adiantadamente. É foleiro e pronto! Já chegaram no correio alguns postais, até em mão própria, cheios de simpatia e ternura, mas era escusado, ok? E por e-mail? Oh oh! Já começou a vaga do Feliz Natal electrónico! Uma nojeira a invadir a minha caixa de correio electrónico. Por falar nisso, hoje descobri mais uma daquelas que não lembram a Nossa Senhora e muito menos ao Menino Jesus. Eu conto. Outro dia, já lá vão largas semanas, desenhei e pintei um postal de Natal (compromissos e responsabilidades, a quanto me obrigais!) para enviar a todos os sócios de uma associação à qual pertenço, e que bem podia ser uma associação de apreciadores de lingerie e respectivo conteúdo, mas que não é. Trata-se, portanto, de uma obra original. O desenho seguiu em formato electrónico para uma empresa de impressão, que tratou de imprimir os cartões e devolvê-los, para que os pudéssemos expedir para todos os associados, acto que concretizámos no virar do mês. Hoje, recebi por correio electrónico (num e-mail, portanto) os votos de Feliz Natal do dono da empresa de impressão, enviados para uma série de clientes ou amigos ou sei lá. Os votos vinham sobre a forma de uma imagem, tipo postal de Natal, que era, nada mais, nada menos, que o postalinho que eu tinha criado! Fiquei sem palavras! Viva o Natal! E, como esse e-mail, outros surgiram, de empresas que fazem de contas que eu sou o melhor cliente e amigo quando nem sequer as conheço, de amigos, de conhecidos, de misteriosos remetentes, sei lá, qualquer dia também recebo um e-mail do próprio Pai Natal a falar-me sobre as renas e o bacalhau da consoada. Estamos a 20 de Dezembro. Daqui a dois ou três dias estará na hora de desligar o telemóvel, como forma de protesto pela onda imensurável de mensagens com votos e mais votos. Escapariam as mensagens humorísticas sobre o Natal, se não tivessem perdido já a graça. Ontem chegou-me uma, que rezava assim: “Aviso natalício: o Natal este ano foi cancelado. E tudo por tua culpa… Disseram ao Pai Natal que te portaste bem todo o ano… E ele morreu de tanto rir! Feliz Natal!” Eduardo, pá, essa não teve graça, ok? Tenho aqui uma guardada desde o ano passado, que diz assim: “Natal? Sininhos? Anjinhos? Peru? Azevias? Amor? Ganda tanga! A malta quer é sexo e Boas Festas no corpo todo! Festas felizes!” José, pá, não foi má, mas parece uma gracinha dos bosquímanos do deserto do Kalahari. O Rui, no ano passado, também mandou uma mensagem que bateu aos pontos todas as outras: “José martelava, Maria gemia, o burro de pau feito e a vaca mugia… Feliz Natal e Próspero Ano Novo. Já agora, sai debaixo do burro, porque não pertences ao Presépio.” Bonita, não é? Ainda dentro desta onda, devo dizer que acho extremamente foleiro enviar votos de Feliz Natal e afins assim por grosso. Isto é, pega-se em todos os endereços do telemóvel, e aí vai disto. Pega-se em todos os endereços de e-mail, e aí vai disto. Foleiro. Muito foleiro. São opções de vida, claro, mas escusavam de me entupir o e-mail e a memória do telemóvel, não? Apesar de tudo, apesar de achar o Natal uma nojeira insuperável, uma abundância de hipocrisia transbordante, devo confessar que fico sentido quando, do meio do nada, surge um telefonema simples, de um amigo, a desejar Feliz Natal. É raro, mas tem acontecido. Preferia não receber estes telefonemas, sinceramente. Detesto que me telefonem e detesto o Natal. Mas, no meio de tanto absurdo a propósito e despropósito do Natal, estes singelos telefonemas surgem como uma lufada de ar fresco. Ao ponto que eu parar e pensar se não serei uma versão gulosa e modernaça do Grinch, o tal que roubou o Natal a não sei quem… E as Mãe Natal? Uiii… pickwick

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Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006
O Natal incentiva o rímel

Não sabiam? Mas é verdade. Tem tudo que ver com aquela palermice das árvores de Natal e dos penduricalhos nos ramos e nas paredes e nos cortinados, e o azevinho, e as luzinhas, e os bonecos do Pai Natal pendurados nas varandas e as estrelinhas e ah e tal. Tem, tem! Hoje, uma percentagem escandalosamente grande de colegas foram trabalhar com rímel nas ventas. Nomeadamente a Maria (a já famosa da queixada de um certo animal) e a sua companheira de casa, a Carla. Ambas com rímel nas pálpebras. Está bem que hoje havia Ceia de Natal para a comunidade trabalhadora do sítio, à qual eu me baldei descaradamente, mas era escusado passarem o dia inteiro com as pálpebras a fazerem faíscas e a dispararem raios de luz por causa do rímel psicadélico que insistiram em espalhar nas pálpebras. Estou agora aqui a pensar para comigo… o rímel usa-se nas pálpebras? Ou é nas pestanas? Hum… agora fica-me a dúvida. Bom, seja como for, é aquela porcaria psicadélica que as gajas metem nas pálpebras, não se sabe bem para quê, que lhes dá aquele ar ridículo de robô metálico com maminhas e nádegazinhas de silicone barato. Não consigo perceber para que metem estas porcarias na cara. Gaja que é gaja, não usa maquilhagem, e aí é que se vê se realmente é bonita ou não. É que, a bem dizer, ficam tão… como direi… tão… pirosas! Não aprecio. Se um gajo quiser, assim como que de um momento para o outro, lamber lascivamente os olhos a uma fêmea, o que vai lamber? Meio milímetro de pele e uma décima de milímetro de poeira crepuscular? É que, verdade seja dita, no calor da ternura e do erotismo que uma mulher transmite, um homem sente uma vontade irresistível de lamber a pele da mulher. Eu sei que parece muito animal falar assim, mas sabeis bem do que falo. Ora, à excepção dos homens abertos a novos e sintéticos paladares, o homem normal não lambe a pele a uma mulher pela gula de se lambuzar com pastas e poeiras cósmicas. Lambe, porque quer sentir o paladar natural da pele dela. O aroma carnal. Certo? Portanto, Maria e Carla, fazíeis melhor se limpásseis essa poeira toda das pálpebras e aparecêsseis mais naturais e com maior ar de doçura. Além da Maria e da Carla, devo salientar a Dulce. A Dulce, que dia-sim, dia-sim aparece com paletes de maquilhagem a esborratar as feições pouco atraentes, foi trabalhar também com quilos de maquilhagem na cara e, obviamente, quilos de rímel e outros pós psicadélicos. Nada de novo, até aqui. Acontece que, embora tenha sido um dia bastante frio, em especial numa aldeia a meia dúzia de quilómetros de uma encosta da Serra da Estrela, a Dulce foi trabalhar com uma mini-saia! Ah pois é! Ah pois é! Morram de inveja! Está bem que, por baixo, usava umas meias-collans castanhas, baças, mas não deixava de ser uma mini-saia, daquelas largas, que deixam um gajo com epilepsia quando elas se lembram de subir as escadas à nossa frente. Dulce, tu és uma miúda porreira, mas, por favor, em dia de trabalho, não apareças nesses preparos, está bem? Um gajo precisa de concentração para produzir! E, por falar em rímel, outro dia andei a bisbilhotar umas cenas no Google Earth e descobri uma imagem de satélite da minha rua, na qual estavam estacionados o meu carro e o carro do vizinho da porta em frente! Fiquei fascinado! Um gajo fascina-se com pouco: mini-saias, decotes e imagens de satélite do próprio carro. Sim senhor! Com tanta ligeireza de espírito, até admira como é que tenho um emprego, uma casa e um carro! E, por falar em mini-saias, há bocado trocava umas impressões com o Guã, ali no Messenger, quando veio à conversa o jantar. Ah e tal, estou a comer lasanha, disse-lhe eu. Porra, você come muita lasanha, respondeu-me o Guã. Sinal vermelho para a lasanha, está visto. Percebido! Devia optar por uma alimentação mais verde, mais fibrosa, mas entre ontem e hoje ao almoço abati oito chocolates de caramelo. Algo não vai bem, por aqui. Deve ser do frio. Por falar em fibra, já repararam que agora está na moda as gajas usarem uns calções no Inverno? Com collans por baixo, note-se! A parte chata da questão é que, quando usam um casaco comprido, um gajo olha e pensa que ah e tal, olha, lá vai fulana tal com um casaco e uma brutal mini-saia por baixo. Ui, ui, tão bom! E está a ser enganado! Redondamente! Não está bem! Não é leal da parte delas! Este Inverno vai ser amargurado por enganos dispensáveis. Ora bolas. pickwick

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Domingo, 17 de Dezembro de 2006
Natal, maminhas e outros disparates

Estou a ganhar gosto por esta elaborada técnica de escrever por partes e usar pontos e meter números e ah e tal que até pareço um daqueles engenheiros que ganham 18 mil euros por mês a coçar a micose por baixo da mesa. Adiante.

1. Cantorias de Natal

Afinal, correram menos mal as cantorias de Natal. O povo trepou para cima do palco, perante uma assistência atónita e sob a batuta de um entusiasmado maestro. A plenos pulmões, ah e tal um bom natal e não sei quê. Correu bem. Algumas colegas esconderam-se atrás de mim, sendo que eu já me tinha escondido atrás de outras colegas. Sim, no palco só estavam dois gajos: eu e o fotógrafo da festa. O resto, meus amigos, era um mar de gajas esganiçadas. A Ana, que estava à minha frente, segurava um papel com a letra da música, mas estava a achar tanta graça à cantoria que não parava de saltitar, tornando a leitura da letra da canção uma tarefa impossível. Azar! Ainda íamos na segunda quadra, quando a Isaura - uma colega dos seus cinquenta anos que tem um problema de dicção e fala como se tivesse metade da língua agrafada a um dos beiços – pára de cantar e segura-me o braço: ai, o colega canta muito bem! Teoricamente, isto deveria fazer bem ao ego. Certo? Mas eu não gosto de elogios destes, por vários motivos: a) a elogiadora é balofa e feia, embora muito simpática; b) não se interrompe uma cantoria de Natal para dizer coisas destas, seja a quem for; c) é foleiro tentar elogiar um gajo que canta (ou guincha) com voz de rádio de válvulas avariado.

2. Um toque de mamas

A Maria desenvolveu uma nova técnica de contacto com os seus colegas masculinos. Já não dá palmadinhas no peito dos colegas, mas, antes, encosta os seus peitos aos colegas masculinos. Não queria dizer “esfrega”, para não ser muito brejeiro, mas, na realidade, é o verbo que melhor se adequa à situação. Esta técnica, secular, é usada por um sem-número de mulheres e miúdas, com um objectivo ainda por definir em concreto, sendo que o mais provável é tratar-se de um desarranjo hormonal temporário. Deve fazer algum efeito tipo bomba de encher pneus: por cada encosto, a mama é pressionada e há um fluxo de energia positiva que sobe pelo corpo da mulher até aos miolos, dando-lhe uma sensação de renovação da bateria de hormonas. Sei lá, qualquer coisa assim. Nunca percebi muito bem.

3. Gatos

Afinal, ao que parece, continuo alérgico a gatos. E gatas. Daquelas com pêlos e bigodes, que deixam croquetes em caixas de areia. Esta cena das alergias é uma mariquice que bem que poderia ir passear para outras paragens, não? Chiça!

4. Joana das Tostas

O mistério da foto da Joana das Tostas (nome de código) está cada vez mais misterioso. A menina em causa contactou-me por via oficial, como manda o preceito, espicaçando-me com o anúncio de que a sua foto se encontra no seu blog, embora seja preciso olhar com atenção. Ora, já revirei o blog dela e mais uns quantos que vieram por arrasto e não encontrei nada do que pretendia. Como se isso não bastasse, a Joana dirigiu-se a mim nos termos mais educados, respeitosos e formais que se poderiam encontrar em 2006. Foi muito simpático da parte dela, sim, mas um gajo até sente um arrepio na espinha ao ser tratado assim, por você, com formalidade. Joana, conseguiste intimidar-me. Parabéns!

5. Barba Negra

Ah pois é. Fui ao cinema, em casa. DVD, portanto. À falta de outra porcaria, trouxe a porcaria do “Barba Negra”. Podia dar-me para pior, eu sei, mas fiquei por aqui, com o mais foleiro filme de piratas que podia existir. Piratas que ficam muito chateados mas demoram quase dois meses para tirar a espada da bainha e trespassar o inimigo. Barcos que num segundo têm uma vela içada e no segundo seguinte, noutro ângulo, já têm oito velas içadas. Cenas marítimas em alto mar filmadas numa zona com um metro de água de profundidade. Enfim. Eu devia ter vergonha.

6. Alfa Pendular

É fixe andar de comboio. Especialmente no Alfa Pendular. Há mulheres com camisolas curtinhas que ficam com a pele sedosa toda à mostra, desde o diafragma até à bacia, quando vão mexer nas bagagens lá em cima. Há televisão a bordo! Há comando eléctrico do cortinado. Há hospedeira de bordo com carrinho cheio de comida. Há velhotes desdentados a ressonarem em estéreo. Há estribo para os pés. E tem que haver dinheiro para pagar o balúrdio do bilhete! Sacanas!

7. Tags e outros fenómenos

Este fim-de-semana estive com o meu parceiro deste blog, que me interpelou, pela n-ésima vez, sobre a utilização de “tags” nos meus posts. Ainda não sei bem para que servem os “tags”, embora ele me tenha explicado que é por causa disso que temos tantas visitas no nosso blog e aparecemos em tantos motores de busca. Ora bolas. E eu a pensar que havia gente que lia este blog. Afinal, vêm cá parar por engano, somando nas estatísticas enganosas, dando ao pedal daqui para fora assim que descobrem que foram, eles próprios, enganados pelo motor de busca. Ainda assim, com “tags” ou sem eles, o nosso blog aparece em primeiro lugar no Google quando fazemos uma busca usando as seguintes palavrinhas mágicas: “maminhas cuequinhas Maria”. Estou orgulhoso! pickwick

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publicado por pickwick às 21:56
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Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2006
Uma folgazinha ao Natal

Vou dar uma folgazinha ao Natal, que tão traiçoeiramente foi atacado ultimamente por este destroço de um naufrágio do pensamento que se encarna na minha pessoa. Por partes:

1. A garrafa de J&B

O dia de hoje começou da melhor maneira. Ainda antes das nove badaladas do relógio da torre da igreja não tinham começado a bater, e já tinha na minha posse uma prenda de Natal comunitária, dada por um sorridente grupo de criancinhas: uma bela garrafa de J&B! Perguntou-me um colega: então isso foi ideia dos meninos, e qual foi a prenda das meninas? A ideia foi das meninas, respondi-lhe eu. Depois acham foleiras aquelas dissertações sobre as gajas que não deviam ter autorização para parir. Pois é. As crianças são muito queridas, quando querem, garrafas de uísque e ah e tal. Quinze anos. É a idade do uísque. As meninas têm menos. Fiquei a saber que o J e o B são de Justerini e Brooks, provavelmente dois fulanos que descobriram que emborrachar comuns mortais era mais lucrativo do que trabalhar.

2. As nádegas da Célia

Queria pedir publicamente desculpa à Célia, por ter comparado as suas nádegas com o Mosteiro dos Jerónimos. Desculpa lá, ó Célia. Hoje vi a Célia, estacada numa porta, inclinada para o interior de um compartimento, a trocar palavras com alguém. Não sei se as calças de fato treino pretas ajudaram, mas, assim naqueles longos segundos em que analisei pormenorizadamente o volume, cheguei à conclusão que eram mais do tamanho da fachada da minha casa, que é bem modesta e pequena. Questão do dia: será que a Célia andou a fazer dieta para ficar mais elegante para a festa de passagem de ano? Ou é do seu novo Windows Vista, que instalou no computador portátil? Fica o mistério. Vou estar atento.

3. Maquilhagem

As mesmas criancinhas que compraram uma garrafa de uísque, até se portaram com relativo civismo durante o almoço. Comeram o arroz de pato com passas (o pato estava de baixa, em casa), o peru assado com osso esborrachado em fanicos, a sopa e o creme de leite. Menos bem esteve a sobremesa, em jeito de festejo. Acabou com uma sessão de maquilhagem, com caras sorridentes esfregadas abundantemente com bolo e macacos a cair do nariz. É tão bonito ser-se criancinha e besuntar a cara do vizinho com o resto do bolo da sobremesa.

4. A gaja da Moviflor

Hoje fui à Moviflor e fui atendido por uma aberração da natureza. Termos de comparação? Batman Returns, o filme. Danny DeVito faz o papel de Pinguim. Alguém se lembra deste Pinguim? Aspecto nojento, ar de pinguim apodrecido num pântano qualquer, corpo balofo e corcunda, etc. Pois bem, imaginem uma mulher-pinguim! Tal e qual! Eu até fiquei mal disposto. Só lhe faltava o chapéu e o pó talco na cara. A fardazinha da Moviflor não abonava nada em seu favor, antes pelo contrário. Enfim. Olhei em volta para ver se encontrava uma lufada de ar fresco, mas não havia mais funcionárias à vista. Vida dura, a minha.

5. A Joana das Tostas e o regresso a 1959

A Joana das Tostas é um nome de código, obviamente. A Joana das Tostas enviou-nos um e-mail muito simpático, alertando para o facto de o nosso blog estar em destaque nos blogs destacados dos Blogs do Sapo. Aqui: http://blogs.sapo.pt/destaques.bml. Fui lá ver e até se me embrulhou o estômago. Aparecia, de facto, uma referência ao nosso blog. Ou seja, um desenho colorido de uma gaja nua a ser apanhada em flagrante a estender roupa, e um título natalício: “Raios partam o Natal”. Melhor publicidade do que esta para cativar para sempre uma potencial sogra, não há! Fiquei curioso quanto à autora do aviso, vindo a descobrir que a mesma domina por completo os blogs dos blogs do Sapo. E tem um blog e tudo! Um blog que domina os outros blogs. Os blogs dos Blogs do Sapo. Achei fantástico, achei-a fascinante, super simpática e bem disposta. Uma querida, portanto. Só tem um defeito: não tem foto no blog e não tem registo óbvio no “áifaive”. E isso, por muito que me custe afirmá-lo, é um drama sério! Em 1959 é que se ouviam as vozes na rádio e se imaginavam corpos esculturais de onde brotavam aquelas vozes divinais. E ficávamo-nos todos pela imaginação. Quer-se dizer, os que já eram vivos e ouviam rádio, claro, que eu ainda nem tinha sido imaginado! Mas, em 2006, quase 2007, não fica bem uma “locutora” da “blogosfera” esconder-se num vazio visual. Até parece de propósito. Mesmo sendo de propósito, faço um apelo: Joana, se me estás a ler, por favor, dá-nos um sinal da tua graça, atira-nos uma foto. Obrigado.

6. Medo, muito medo

Eu devia ter medo. Ando a abusar dos relatos que referem nomes que não estão encobertos por nomes de código e que, por isso, são nomes verídicos. Imaginem só que, um dia destes, a Maria da queixada de bisonte tropeça neste blog e se identifica de pronto! Atiçada como ela é (hoje apalpou o peito ao Zé Manel umas seis vezes), arriscava-me a ver as minhas partes baixas serem trucidadas à mão, sem dó, nem piedade. Vou reflectir sobre o risco em que incorro.

7. Outra vez o Alzheimer

Por falar em 2006 e 2007, o Mauro adorou o livro. Espero que ele saiba ler português. Lá dentro escrevi num cartão uma pequena mensagem, ah e tal, feliz Natal, boa leitura e boa entrada em 2006. O Paulo, que estava ao lado, perguntou logo: 2006? Errrr… desculpei-me eu, num engasgo. É pá, não liguem, desculpa lá, ó Mauro, isso é do Alzheimer, sabes?, respondi com convicção. É fixe quando um gajo dá uma imagem de credibilidade falhada, não é?

8. O rei dos bolos

Chama-se bolo-rei, certo? Ontem comprei um, dos grandes, no Lidl, daqueles que duram até 2019. Comi metade ontem. E a outra metade há minutos atrás. A minha técnica é simples: corto fatias da grossura das pernas daquela senhora que estava à frente da comissão de não-sei-o-quê da lutra contra a SIDA e que era assim muito grande, trago-as num prato para a frente do computador, faca e garfo e aqui vai disto, enquanto vagueio por jornais e páginas na Internet e leio uns e-mails. Eu não devia contar estas coisas. Assim ninguém me vai convidar para escrever um livro para crianças. Mas, as verdades não podem doer só à Célia. É por uma questão de justiça e solidariedade que conto estas bestialidades da vida real. É a vitória da fraternidade sobre o ego. Além do mais, e deixando de lado as graçolas de alguidar, esta alimentação anormal não é mais do que um treino para a noite de consoada em casa da minha mãezinha. Lá, a vida endurecerá: para qualquer item do vasto repasto, a distribuição é feita segundo a receita 2-49-49. Um dos 49 é para o meu irmãozinho e o outro 49 é para mim. O 2 é para a brigada do reumático. Há que treinar com afinco! pickwick

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publicado por pickwick às 00:01
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