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Quarta-feira, 3 de Abril de 2013
Mistérios do Corpo Feminino I

Estava eu a braços com as festividades pascais, isto é, na paz e no sossego do lar-doce-lar apenas com o compromisso do almoço familiar no Domingo de Páscoa, quando recebo uma chamada da Lulu. Surpresa!

A Lulu é uma quarentona, divorciada, mãe de filhos já adultos, na qual tropecei há uns três anos atrás. Foi daquelas oportunidades que… chutamos inexplicavelmente para canto. A terminar uma licenciatura em psicologia e com um passado ligado ao atletismo, como atleta e treinadora, acrescia a característica de ser uma boa moça, coisa rara nos tempos que correm. Do contra, uma relação mal finalizada e que lhe deixou mazelas psicológicas não desprezáveis, e uma barriguinha descuidada. O suficiente para me recusar a um envolvimento para o qual ela estava prontamente disponível, com múltiplas opções de profundidade. Sim, eu sou mesmo esquisitinho.

Ora, durante este tempo todo, acho que nos encontrámos duas ou três vezes, no máximo, uma das quais para uma saudável caminhada na Serra da Estrela, e outra para uma corridinha no mato, que terminou com um quase-desmaio da Lulu e um cotovelo avariado na minha pessoa. E meia dúzia de conversas para meter as novidades em dia.

Então, recebo a chamada da Lulu, e, para evitar o aquecimento exagerado da minha orelha por causa das ondas electromagnéticas do telemóvel (algo que cada vez mais me irrita), desafiei-a para irmos jantar os dois. Assim, eu sempre saía de casa para desanuviar, poupava-me à fritura dos miolos com ondas electromagnéticas, e gozava de alguns momentos em companhia feminina, coisa que tem escasseado.

Sempre vi a Lulu de calças. Tanto ao vivo, como em fotos. Daí que, quando apareceu ao pé de mim de salto alto-moderado, com uma mini-saia e umas meias escuras fantasiadas, comecei a pensar seriamente na minha vida. Elegante. Muito elegante. Pernas esguias. Postura direita, muito agradável à vista. Uma delícia. Cabelo pintado de castanho. Sem maquilhagem que se vislumbrasse, mas com um rosto muito bonito. Um gajo começa a fazer contas de cabeça e tem que se conter para não começar a uivar, nem a fazer comentários como se acartasse tijolos de sol a sol.

Dadas as condições climatéricas, a Lulu só tirou o casaco à mesa, no restaurante. Camisola carmim, justa ao corpo. Como é que um gajo tira as medidas a uma mulher sentada à sua frente durante uma refeição? Liliana, sempre quiseste saber, não? Eu explico. Há fracções de segundo, ao longo do tempo, em que, ou porque ela precisa de olhar para o bife que está a cortar com a faca, ou porque ela farta-se de olhar para mim e precisa de descansar a vista noutro alvo. Aí, um gajo está atento e tira as medidas. Num piscar de olhos, para não ser apanhado em flagrante. É tudo um jogo de velocidade. Ela nem dá por nada. É preciso é estar sempre a controlar-lhe o olhar.

Esta técnica só não resulta quando se está em frente a uma gaja extremamente sabidona e desconfiada, que já conhece a técnica, e que simula, por um cagagésimo de segundo, o esperado desvio de olhar para o bife ou para o além. Simula que olha o bife, um gajo detecta que desviou o olhar, o cérebro diz que é altura de olhar para o decote, mas, no preciso momento em que os olhos pecadores caem sobre o peito dela, já está o olhar reprovador a apanhar o flagrante delito. Pimba! Eu sei que só me lixo a relevar publicamente esta técnica, mas, depois deste jantar, não resisti.

E pronto, foi uma fartura de tirar de medidas à Lulu, só para confirmar que aquela elegância era transversal ao corpo inteiro, desde os pés à cabeça, incluindo a barriguinha. Houve uma evolução positiva, inegavelmente.

Ela falava da vida dela e eu perdia-me em sonhos. Momentos houve em que já me estava a ver, qual animal incontrolado, a varrer a mesa com os copos e os caroços de azeitona e os bifes e as batatas fritas, tudo a voar pelos ares, para lhe agarrar as mandíbulas com um toque de veludo e encher-lhe aqueles lábios de beijos. Felizmente, sou um homem com um auto-controlo acima da média, e comi mais umas batatas fritas e duas folhas de alface, na esperança de uma calma interior que tardava em chegar.

Eu nunca tinha visto a Lulu naqueles preparos. E fiquei fascinadíssimo. Estava uma figura, que não há homem à face da Terra que não se sentisse orgulhoso de passear de braço dado com ela. Ou de mão dada, pronto.

Depois tirei-lhe uns vírus do computador portátil, dois beijinhos de despedida e lá foi ela. Fiquei uns segundos imóvel, no carro, de olhar grudado naquelas pernas enquanto ela atravessava a rua até ao carro dela. E o resto da noite foi para pensar na vida, nas oportunidades chutadas para canto e nos mistérios do corpo feminino. pickwick

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publicado por pickwick às 18:37
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Domingo, 10 de Junho de 2012
Mirador de gajedo

Há gente que, por meia palha, faz julgamentos sumários de personalidade. Apelida fulano e sicrano, bate palmas, pega fogo às barbatanas, aponta o dedinho, enfim. Tem dias em que eu também sou assim e não perdoo.

 

Ora, estava eu distraidíssimo a divagar sobre coisas importantes da vida, quando uma leitora deste blog traçou implacavelmente o meu suposto perfil: “mirador de gajedo”. Podia ter-se lembrado de outra coisa, eventualmente mais bonita? Podia, claro que podia, mas deu-lhe para isto. Curiosamente, não encontrei argumentos imediatos para refutar tal traçado, mas isso agora não interessa.

 

No dia seguinte, calhou ir almoçar com colegas de trabalho. Quando dei por mim, estava sentado à mesa com seis mulheres. Em princípio, é agradável almoçar numa mesa só com mulheres.

 

À minha frente, a colega que me apalpou obscenamente o braço num dia de chuva. À minha direita, a colega que o mais majestoso par de coiso-e-tal que deambula lá pelo local de trabalho, sendo que o dito par sobressai predominantemente entre a Primavera e o início do Outono, devido às temperaturas mais amenas que incentivam à condução de camisas descapotadas. Em frente a esta, uma colega com dentadura estilo “Aliens, o oitavo passageiro”, mas que compensa pela sua boa disposição e disponibilidade. Ao lado da colega do majestoso par, uma de par inferior, da qual não há muito a dizer, excepto que o pai quase que se afoga em dinheiro. Na extremidade da mesa, a eguazita saltitona com cérebro de ervilha e uma colega discreta sobre quem jamais teria assunto para escrever.

 

À distância de uma jogada do Cavalo no xadrez, estava uma colega que veio almoçar connosco para matar saudades. Já escrevi sobre ela várias vezes, porque aquela elegância toda combina muitíssimo bem com a respectiva dimensão peitoral. Mas, neste dia, a minha impressão sobre ela tomou uma nova perspectiva. O cabelo liso, pintado de carmim, caía pelo crânio abaixo, apenas se desviando para deixar passar duas orelhas-de-abano. Acima dos lábios pintados, dois olhinhos de carneiro-mal-morto. Tive um flash e juro que vi nela Neytiri, a personagem feminina saída-da-casca de “Avatar”, numa versão atacada de palidez súbita. Só lhe faltava a pele azul e a cauda sexy a mergulhar na sopa para aferir a temperatura. Entretanto, aproveitei a minha camuflagem natural para verificar se os restantes adereços eram compatíveis com a Neytiri e dei de caras com um decote exótico e improvável: o extraordinário decote-de-alguidar!

 

O termo “decote-de-alguidar” surgiu-me naturalmente. Por comparação: imagine-se um alguidar cortado ao meio (na vertical) e colado a uma parede de onde brotam duas maminhas que parecem ficar a nadar no vazio dentro de um meio-alguidar tão grande. Ou seja, houve ali um claro lapso na escolha do tamanho do sutiã… ou… é algo que estará a entrar na moda e eu tive a honra de ver um dos primeiros exemplares. Seja como for, não fica bem. Não fica bem, porque alguém pode começar a atirar azeitonas ou ervilhas lá para dentro. Não fica bem, porque o empregado pode descuidar-se, confundir o prato da sopa com o decote e provocar uma queimadura. E não fica bem, porque, de onde eu estava sentado, garanto que conseguia encestar uma bola com, pelo menos, 18 cm de diâmetro! pickwick

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publicado por pickwick às 20:50
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Quinta-feira, 24 de Maio de 2012
Peito de franga

A Nélia (nome de código) hoje apareceu completamente deslumbrante, nos seus 170 cm de altura, vestido preto até um palmo acima dos joelhos, com aqueles magníficos olhos azuis e a juba nitidamente viking. Os bafos de calor proporcionam momentos assim.

 

No entanto, as coisas dentro de casa ainda “soam” a um início de primavera.

 

Quando a vi, ainda pensei, ah e tal, vamos lá ver se não me chama para nada. As gajas, onde eu trabalho, passam a vida a chamar-me para resolver problemas técnicos com maquinaria sofisticada, incluindo a caça aos bichos virulentos. Com a proximidade do verão, um gajo tem que se mentalizar que vai apenas resolver problemas técnicos, e não vai aproveitar-se das oportunidades para deitar o olho onde não é chamado.

 

E, pronto, a Nélia lá fez o favor de me chamar. Um gajo aproxima-se, com aquele ar altamente profissional, a transpirar preocupação e generosidade, faz um esforço hercúleo para concentrar a linha de vista no objecto do problema técnico, mas, infelizmente, em poucos segundos sucumbe vergonhosamente à tentação, qual fracote a agachar-se perante o feroz rugir de uma meia-leca de gato vadio.

 

Nestes momentos, devia fazer-se uma pausa breve para agradecer o facto de termos os olhos presos ao crânio e o dom de nos equilibrarmos instintivamente. Porque, caso contrário, os meus olhitos hoje teriam saltado para lá das bochechas e caído milimetricamente no meio do decote da Nélia, escorregando por ali abaixo e escondendo-se no umbigo, grunhindo de prazer: uiii!... qu’é tão bom!... Caso contrário, teria simplesmente tombado para cima dela, partindo-lhe os ossos do tórax com o peso farto do meu corpo. Obrigado! Obrigado!

 

Descobri o quão sexy é a “pele de galinha” numa mulher. Fica-lhes bem, sei lá. E assim estava o peito da Nélia. Uma perfeitinha e deliciosa “pele de galinha”. O decote, atenção, não era muito. Não era daqueles decotes do tipo ui-onde-é-que-foram-parar-os-mamilos, em que a área descoberta é tanta que se estranha a invisibilidade dos ditos. Nada disso. O decote da Nélia era sensual, mas discreto. Todinho feito de uma “pele de galinha” que apelava ao conforto de um toque masculino. Um gajo não pode chegar a “vias de facto”, nem pode deixar cair o queixo a escorrer um fio de baba. Um gajo tem que ser forte. E a melhor forma de um gajo ser forte, é fugir. Ah, pois é! Quem diria?... pickwick

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publicado por pickwick às 22:24
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Quinta-feira, 5 de Abril de 2012
Do Japão para as Docas

Num belo domingo, fui até uma capital de distrito para jantar com a Liliana. Já andávamos a tentar combinar este jantar desde mil novecentos e tal, e, finalmente, chegou o momento. Tirei a roupa empoeirada com terra solta e algum estrume, banhei-me, barbeei-me, vesti uma roupa desapropriada para quem está acampado, e meti-me ao caminho. Assim, de repente, ninguém diria que o dia tinha sido de trabalho rural.

 

À hora combinada, lá me encontrei com a Liliana, no sítio do costume (só houve uma única vez prévia, mas fica sempre bem dizer isto assim). A coisa começou a correr mal logo ali. Ela podia ter aparecido de calças de ganga? Podia, claro. Mas, não. Eu acho que ela tem um “quê” daqueles torturadores medievais dentro de si. Em vez da ganga, apresentou-se de vestido preto, curto, meias fantasiadas e sei lá mais o quê que não consegui reparar porque só estava preocupado em tentar convencer-me a mim próprio de que começar a uivar ali mesmo não seria uma ideia muito feliz. Nem que fosse entredentes. Aproximamo-nos, beijinho, ui que cheira tão bem, vestido curto e salto alto. Isto do salto alto é que… enfim… com um bocadinho de laca no cabelo e ultrapassava-me em altura. Medo!

 

Por esta altura, eu já começava a dizer mal da vida. Embora a minha roupagem passasse despercebida em qualquer cidade, o mesmo não se poderia dizer do meu bólide, todo porcalhão, manchado de terra misturada com pingos de uma chuvada recente, com meio quilo de poeira a dormir a sesta no limpa-vidros traseiro. Vergonhoso, eu sei, mas já era tarde. Eu podia deixar a Liliana ali um bocadinho à espera e ir a correr lavar o carro numa estação de serviço. Podia. Ou podia pedir encarecidamente à Liliana para ir a correr trocar o vestido por umas calças rotas que melhor condissessem com o aspecto rural do meu carro. Podia. Mas, por vezes, mais vale ficar quieto.

 

Ela pareceu não se importar muito com o contraste e entrou para o carro. O ambiente ficou pesado. O habitáculo encheu-se com o perfume dela e, por momentos, pensei para comigo que já poderia começar a uivar, uma vez que ninguém me ouviria, à excepção dela. Poderia, mas não comecei. Se começasse, é provável que acabasse a jantar sozinho. Mas, isso agora não interessa.

 

Por sugestão da Liliana, fomos até ao Japão. Foi a primeira vez que entrei num restaurante japonês. Sempre me esquivei aos restaurantes japoneses, para não ter que me sujeitar a comer “sushi”, uma espécie de carapau gigante, totalmente cru e com os olhos ainda a revirarem-se de sofrimento pela falta de água. Eu já não sou apreciador de peixe, mas, peixe cru, só se estivesse um mês inteiro à deriva num qualquer oceano, em cima de uma frágil jangada, naufragado sabe-se lá de quê. E, mesmo assim, seria apenas uma petingazinha, sem rabo. Bom, adiante.

 

Sentámo-nos e a Liliana começou a tirar o casaco. Apoderou-se de mim um pânico tridimensional! Ambiente pesado, novamente. Como qualquer cidadão sabe, quando uma mulher tira o casaco que veste por cima de um vestido, está lançada a confusão! De um impulso, estive prestes a saltar para a Liliana e gritar-lhe “não! não dispas o casaco, por favor, poupa-me!!!”, mas, numa fracção de uma cagagésima de segundo, pude constatar que o vestido não tinha decote. Foi um grande alívio, tenho que confessar. Um “obrigado, Deus meu” escapou-se-me debaixo da língua, muito baixinho. Comer “sushi” de frente para um decote, daria asneira pela certa: de certezinha que, em alguma altura, me engasgaria inadvertidamente e ficaria com meia posta de carapau cru entalada numa das narinas.

 

Não sabia que nos restaurantes japoneses se podia fazer batota com os pauzinhos! Nunca tinha visto tal coisa. Um pedaço de cartão e um elástico a segurar os pauzinhos? Francamente! Assim, até com Parkinson avançado eu conseguiria levar à boca uma bola de gelatina untada com manteiga dos Açores. E logo à primeira!

 

Entretanto, vieram duas cervejas chinesas, “Tsingtao”, marca bem conhecida da minha juventude. Portanto, um gajo vai a um restaurante japonês, e tem que beber cerveja da concorrência. Acho que sim, que assim vão longe. Dois dedos de conversa e apercebi-me de um factor de desassossego que podia comprometer todo o jantar. Não havia decote, mas o vestido da Liliana deixava-lhe os braços nus. Uns espectaculares braços, de musculatura na medida certa, sem qualquer vislumbre de flacidez, simplesmente dignos de uma apreciação prolongada. Mas onde é que ela foi buscar aqueles braços? Ah, pois é, o ginásio… Já tinha com que me entreter durante o jantar, pensei para comigo, desde que não me começasse a babar e não perdesse o fio à meada da conversa.

 

O repasto foi outra novidade: rodízio à japonesa. Isto é, a senhora ia levando travessas para a mesa e a gente ia comendo. Nada a opor. Por fim, chegou o famoso e temido “sushi”. Afinal, não era carapau. À primeira vista, pareciam postas de arroz (?!), embrulhadas em pele de peixe-espada preto (?!), com umas coisas suspeitas no centro (definitivamente suspeitas). Perfeitamente comestível. Ainda existo para contar esta história, por isso, não há que recear.

 

A determinada altura, acabou-se a rodada de comida. A senhora veio à mesa para saber se queríamos mais qualquer coisinha para comer. Ainda me passou pela cabeça um suculento naco de picanha a ser fatiado à facada ali mesmo. A Liliana não se deixou intimidar. Pegou no menu e toca a encomendar mais uns petiscos. Eu acho que ela tem um buraco no estômago por onde se escapa metade da comida que ingere. Só pode. Pela minha parte, que sou homem dado a sacrifícios e causas, acedi prontamente ao seu desejo incontrolável de repetir alguns dos petiscos, concordando com todas as suas escolhas. Temos que lá voltar. Eu era gajo para me habituar à comida japonesa. Desde que na companhia certa.

 

Quando tudo parecia estar a correr bem - conversa agradável, companhia interessantíssima, comida engraçada e sem carapaus crus -, a Liliana lembrou-se de ir ao WC. Levantou-se e foi. Costuma ser assim, eu sei. E quase que tive que untar a testa com um restinho da sobremesa de gelado de chá verde, para arrefecer a imaginação. Aquele vestido preto e curto, a deslizar por ali fora… aquelas pernas perfeitinhas e exclusivamente feitas de fibra… aquela figura… eu nem queria reparar nos glúteos, mas acho que fui traído pela sinalização fluorescente das ancas. Credo! Que desorientação! Um gajo morde os lábios, geme um bocado, franze o sobrolho num solitário sofrimento e suspira…

 

Do Japão, a Liliana quis levar-me para as “docas”. Sem estivadores e sem o pivete a pescada e sardinhas. Um barzinho simpático, com umas cadeiras em jeito de sofás, coloridas. As mesinhas davam pelo joelho, a Liliana estava com o seu vestidinho curto e meias fantasiadas e eu juro que só olhei umas três ou quatro vezes! As torturas medievais foram coisas de meninos, quando comparadas com o que eu sofri, ali, durante mais de duas horas, ora pernas para a esquerda, ora pernas para a direita, ora cruza, ora descruza. Um gajo tenta manter o pensamento numa rota, orientado pelo desenrolar da conversa, mas é constantemente atropelado pela imaginação fértil, qual manada de búfalos completamente descontrolada. Às tantas, desligaram as luzes e demos conta que nos estavam a meter na rua. Pudera, duas da madrugada! Um gajo, quando é para sofrer, ao menos que seja “à homem”, durante horas a fio, sem tréguas.

 

E, só por causa disso, ainda prolongámos a conversa, já no carro, até lá para as três da manhã. Com a agravante do perfume. Uma tortura desmedida, é o que eu digo. Depois de a Liliana se ir embora, num singelo adeus, ainda tive que me submeter a três vergonhosas tentativas para sair da cidade pela saída correcta para o meu destino, uma mão no volante e outra a trocar SMS com a Liliana (mas a malta não tinha terminado a conversa? às tantas, nem por isso…). Quase que fui parar a Marrocos, tal foi o nível das tentativas. Por fim, lá para as quatro da madrugada, cheguei à tenda. A suspirar. Oh, vida! pickwick

 

publicado por pickwick às 18:28
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Segunda-feira, 5 de Setembro de 2011
Ding, dong!

Estava eu na pacatez da minha maison, com as minhas janelas tipo fenêtre, a tentar fazer alguma coisa de útil e produtivo para quebrar com a improdutividade do Verão que já se foi, quando tocou a campainha de porta.

 

Um gajo pensa que vive numa aldeia perdida nas beiras e que é como se vivesse numa ermida isolada no cimo de uma montanha, mas, afinal, de vez em quando, alguém toca à campainha. E não é o motoqueiro das pizzas, não.

 

Abro a porta e… numa fracção de segundo, assim como que num bater de asas de um colibri, vi a minha vida a andar para trás. No bater de asas seguinte, foi para exclamar “mau, mau, Maria!” para comigo mesmo. Já no terceiro bater de asas, um conselho a mim próprio cheio de sabedoria, sensatez e serenidade: “shttt… não olhes, pá! não olhes!”.

 

Plantadas à minha frente, estavam as minhas vizinhas de cima, mãe e filha. A mãe, ah e tal, agora não interessa e mais logo também não. A filha, 17 aninhos, fresca que nem uma alface, trajava uma coisa que, no tal bater de asas do colibri, me pareceu um vestido de noite muito sensual, daqueles com alcinhas fofinhas, a dar pelo meio da coxa, excepcionalmente decotado para não atrofiar os pulmões durante a noite. Como era hora do lanche, presumo que não fosse mesmo vestuário para dormir, mas não tentei verificar, especialmente porque já tinha reparado que a lingerie era preta e corria o sério risco de ser apanhado pela mãe a tirar as medidas à roupa da filha. Pior: ser apanhado com as retinas a caírem para dentro do decote da rapariga! E eu, que ainda não tinha a noção de que a rapariga era tão prendada ao nível do tórax. Mas mesmo muito prendada!

 

Espanto-me comigo mesmo. Como consegui recolher tantas evidências num bater de asas de um colibri? Estou com um poder de observação muito à frente!

 

Contextualizando, as duas vinham entregar-me um pack de três garrafas de vinho (cerveja é que era!), como agradecimento pela ajuda que dei à miúda numas dúvidas que lhe surgiram ao longo do ano com a Matemática, sendo que a respectiva terminou a coisa com dezoito valores.

 

Voltando ao que interessa, lá se foi aquela teoria de que as mães e os pais não têm noção de que as jovens saem da casca e abalam de casa à socapa com roupas capazes de facilmente provocar paragens cardíacas. Esta mãe, que até parece boa pessoa, acompanha a filha - esta quase em trajes menores - à porta do meu apartamento, em plena luz do dia. Será que, por eu viver sozinho, esta mãe acha que sou larilas e que até poderia trazer a filha de tanguinha e em topless sem que isso me despertasse apetites indecentes? Não compreendo, a sério. Escapa-se-me. Mas agradeço o gesto. Foi um gesto bonito, para uma tarde de segunda-feira. Até escusavam de ter trazido o vinho. pickwick

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Sábado, 5 de Fevereiro de 2011
O triunfo dos cintos

A sexta-feira é um daqueles dias em que o que se faz está excessivamente dependente do estado de espírito momentâneo. E assim foi, na pretérita. Isto é, na última. Ontem, vá.

 

Fraquejando ao desafio da boémia, sacudi as rodas do bólide azul para cima do asfalto da A25, a caminho de Aveiro. Destino: uma farra caseira, em casa do Nando, só para amigos bem humorados e pouco esquisitos. À entrada de Aveiro, tive o cuidado de parar num hiper-mercado para fazer umas compras estratégicas: queijo, cerveja e um pacote de fatias de presunto! Porque, a bem dizer, um gajo tem que se prevenir atempadamente, quando se avizinha uma patuscada em que a ementa é – no forno - um carapau de 32 centímetros, alapado em meia dúzia de pobres batatinhas! Carapau para os amigos, portanto, e presunto de qualidade para mim. Isto não costuma deixar dúvidas. Muita cerveja, por causa da desidratação. Mas, muita mesmo! Uma caneca de aguardente de zimbro e um charuto entupido, deram o mote para a chegada prematura do sono, e nem umas cenas de pancadaria com o Steven Seagal conseguiram vencer o peso diabólico das pestanas.

 

E onde entram os cintos? Em lado algum!

 

Hoje, que é sábado, por enquanto, acordei com aquele ambiente cerebral de quem tem um carapau a nadar no líquido cefalorraquidiano (ide ver o que é, ide). Demasiado sol na rua, demasiado barulho na rua (apesar do silêncio quase de cemitério), demasiado tudo. Depois de comprar meio quilo de ovos moles para uma sobremesa mais à frente, fui até a uma loja TuttiPromo algures. Gajo que ande a brincar aos viveiros florestais, como é o meu caso, tem que se abastecer convenientemente.

 

À saída da loja, ia-me dando uma coisa ruim. Do outro lado da rua, numa casa de pasto chamada “Pizzarte” (ena pá!, acho que já existe há uns vinte anos), o que é que eu vi? Uma mocinha, com ar de quem tem 27 anos, a passar a esfregona pelo chão, antes da clientela para o almoço. Ora, uma regra (ou boa prática) conservadorista, dita que não é conveniente passar a esfregona no chão quando se tem mais de 1,40m de altura e se está com decote. É uma questão angular, simplesmente. Regra não observada pela mocinha, para gáudio deste infeliz ressacado, de beiça caída perante aquela aparição matinal tão saborosa. A coisa foi de tal ordem, que, se bem me lembro, ainda levei para cima de vinte segundos para conseguir encaixar o cinto de segurança e dar à chave.

 

E onde entram os cintos? Em lado algum! pickwick 

publicado por pickwick às 21:27
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Domingo, 1 de Agosto de 2010
A filha que mete a mãe na ordem

Estava eu a degustar umas cervejas geladinhas na Lagoa Comprida (conseguem tê-las a uma temperatura impressionantemente perfeita), quando recebi um telefonema do Carlos (nome de código): ah e tal, a Maria (nome de código) está a perguntar se não queres vir aqui logo comer umas febras, ou umas entremeadas.

 

Ora, nesse momento, as cervejas vinham a propósito de uma caminhada na serra com uns amigos, durante umas penosas seis horas por entre calhaus, giestas, lagartos e muito pó. Depois das cervejas, o que me apetecia mesmo era um banho, mais umas cervejas, xixi e cama! Ter que fazer mais uns 30 km só para ir comer umas febras, não era das coisas que me apetecia mais.

 

Mas, e porque há sempre um “mas”, talvez não fosse má ideia, uma vez que o Carlos estava de visita à Maria e a Maria tinha uma filha e a filha também ia jantar e não há nada melhor do que quatro à mesa em vez de três. E eu gosto de zelar pelo bem-estar e felicidade dos meus amigos. E também gosto de febras e entremeadas. E umas cervejinhas. Portanto, lá fui…

 

À chegada, o Carlos estava com um ar descontraído. Não sei como é que, perante as circunstâncias, ele conseguia estar assim. É que, a anfitriã, que é uma trintona aloirada com um corpo escultural, extraordinariamente bem conservada para a idade, estava a tratar do jantar com um daqueles ataques de calores que um gajo não aguenta: uns mini-calções, daqueles que marido algum deixaria a esposa usar, e um mini-mini-mini-top, impecavelmente alinhado ao sutiã, deixando para o regalo da vista um decote de fazer uivar qualquer macho mais distraído. Até engoli em seco!

 

Não bastasse tudo isto, ela ficou sentada à mesa mesmo à minha frente, e, ainda por cima, a mesa era estreita, pelo que a proximidade do decote provocou-me uma batalha interior infernal para controlar as minhas órbitas oculares e não as deixar cair mesmo no meio das maminhas dela. Venci a batalha, note-se, mas fiquei muito debilitado. Há dias em que a vida de um gajo é muito, mas mesmo muito difícil.

 

Bom, a parte mais divertida do jantar, confesso, foi quando a filha da Maria, com os seus inocentes nove anos, sugeriu à mãe que ajeitasse o decote, porque estava a ficar um bocado descomposta. Eu não sabia se havia de cair no chão e rebolar-me às gargalhadas… ou se havia de espetar uma cotovelada na miúda (que estava ao meu lado) e mandá-la estar caladinha…

Algumas semanas mais tarde, voltei a estar com o Carlos, sendo que veio à conversa este jantar. Para meu espanto, parece que a intervenção da filha da Maria não foi única. No dia anterior ao jantar, durante um passeio a três, a filha tinha tido uma intervenção ao mesmo nível, com certeza incomodada por a mãe estar a usar um vestido muito leve e fresco e a fita da mala que usava a tiracolo estar a provocar uma elevação nos bordos do vestido junto ao peito, deixando a nu um dos mais belos pedaços da beleza feminina.

 

Eu acho bem que alguém meta a Maria na ordem. Tal como já escrevi, eu próprio tive dificuldade em estar à frente dela naqueles preparos. Fica, no entanto, a dúvida: a filha da Maria, quando descobrir que há rapazes no mundo, vai usar uma bata fechada até ao pescoço? Ou vai, finalmente, perceber porque é que a mãe usava uns decotes tão… sugestivos? pickwick

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Sexta-feira, 30 de Julho de 2010
Efeitos psicológicos no desempenho físico 2

 

“Será que afinal não resististe e voltaste a fazer a corridinha e foste apanhado pelo papá das meninas...” (questão colocada por uma leitora, em alusão ao post Efeitos psicológicos no desempenho físico)

 

Bom, as duas meninas em causa, que circulavam pela natureza a cavalo das suas bicicletas, nunca mais as vi. No entanto, em corridinhas posteriores, cruzei-me por três vezes (em três dias distintos) com um grupo de cinco meninas de igual calibre, chinelinho no pé, toalha ao ombro, regressando aos lares vindas das piscinas municipais. É uma aparição algo inesperada, tão formosas e frescas donzelas, num trilho cheio de pó e calhaus, por entre mato, silvas e algumas árvores. Barriga p’ra dentro, peito p’ra fora, e faz de conta que já andamos a correr desde madrugada, feitos heróis...

 

Hoje, voltei a ir dar uma corridinha. Já andava na balda há quase duas semanas. Vergonhoso. Não encontrei ninguém pelo caminho. Assim, dados a paz e o sossego reinantes no mato, aproveitei a oportunidade para, durante os 45 minutos, meditar sobre os efeitos psicológicos no desempenho físico da minha pessoa, enquanto faço uma corridinha.

 

Bem sei que isto é mera teoria, mas, face à experimentação prática, já me atrevo a teorizar sobre o assunto. Portanto, e sem mais demoras, tenho a dizer que há dois tipos de efeitos psicológicos (pensamentos, portanto) que afectam positivamente o meu desempenho físico:

 

1. Donzelas leves, frescas e bem cheirosas, passeando-se pela floresta: um gajo não pode dar impressão de fraco, mesmo que esteja para cair morto numa giesta, e, por isso, consegue fazer cair do céu aos trambolhões algumas energias desconhecidas que permitem correr mais um bocadinho. No caso de as donzelas trajarem indumentárias realmente, efectivamente e objectivamente frescas, a retina capta os conteúdos físicos e a mente encarrega-se de visualizar repetidamente os mesmos, assim como que flashes de memória que quase que nem dá para ver o caminho sinuoso pelo mato fora. Não há homem que se preze, à face da terra, que não se sinta instintivamente energizado (leia-se: “injectado subitamente com uma carga energética sobrenatural”) por um bonito decote.

 

2. Situações dramáticas da vida real em que um gajo tem que ser mau: um gajo é bonzinho, não faz mal a uma mosca, aprecia as flores e os passarinhos e as passarinhas (pois claro), mas depois atravessa-se um mete-nojo e um gajo tem que se chatear. Outro dia, foi um cigano que me roubou um balde de plástico do quintal, ocorrência que me deixou muito desagradado, pelo que, lá para as 3h da madrugada, desferi um ataque cirúrgico sobre o acampamento do fulano, lançando balões de gasolina nas barracas, pegando fogo àquilo tudo e cortando às postas os sobreviventes com golpes de catana. Noutro dia ainda, ia a correr pelos pinhais, um camafeu que andava à caça resolveu armar-se em engraçadinho, mandou-me uma chumbada num braço, eu fiquei logo possuído, fui ter com ele, arranquei-lhe a caçadeira, parti-lhe a dentadura à coronhada, parti-lhe os dois braços com fractura externa, desloquei-lhe uma rótula ao pontapé e, por fim, arrastei-o durante 2 km até ao posto da GNR, a pingar sangue que nem um desalmado. E por aí fora. Um gajo chateado, quando se vinga, fica com muito mais energia.

 

Hoje, que consegui fazer o percurso do costume sem parar e quase que nem arfei. Porquê? Porque ah e tal, grande estória, e acabou com uns gajos com os dentes partidos. pickwick 

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Quarta-feira, 22 de Abril de 2009
O vestido, o decote e o penteado
O decote deve ser um tema ligeiramente recorrente neste blog. Mas só ligeiramente. Enfim, deve ser resultado de algum trauma de infância, naqueles dias de verão passados em Lagos em que me cruzava com as estrangeiras mais arejadas e deixava cair o queixo enquanto a imaginação desbobinava sobre o que estaria para além dos minúsculos e por vezes esvoaçantes pedaços de tecido que escondiam as partes mais íntimas. Pronto.
 
Hoje foi um dia importante lá na minha instituição. Uma excelsa comissão, designada por um não menos ilustre órgão de administração e gestão, viu-se na nobre obrigação de entrevistar os candidatos ao cargo de director da nossa instituição.
 
Ora, a presidenta do órgão, que preside, por inerência, à referida comissão, é uma senhora casada e mãe de filhos, de sorriso fácil e boa disposição permanente. Presumo que o facto de ter parido dois filhos lhe tenha conferido um decréscimo acentuado e evidente das linhas femininas que fazem a delícia do olhar masculino. É daquelas coisas da natureza: entre a linha inferior das nádegas e a linha dos mamilos, parece que o corpo foi alvo de um escultor adepto do cubismo. Ou, em alternativa, digamos que essa zona do corpo foi moldada por um tanoeiro. Os tanoeiros constroem barris. E eu já estou a ser mauzinho.
 
Bem, o facto é que a presidenta tem uma série de defeitos físicos, daqueles que só a mim passa pela cabeça. Isto de ser esquisito nem sempre me fica bem. Ainda ontem mesmo, à saída do restaurante, fiz um comentário sobre os atributos físicos das nádegas da menina que nos costuma atender, recomendando – do alto da minha douta sabedoria sobre o assunto – um pouco mais de exercício físico, para além do passear de bandejas, pratos e tachos entre a cozinha e as mesas. Os meus colegas iam-me comendo vivo! O quê? Está muito bem assim! ‘Tás maluco? Enfim, menos 4 cm de cada lado e a rapariga ficava quase perfeita, mas eles são pouco exigentes.
 
Quanto à presidenta, e fazendo um esforço para olvidar a dentadura postiça, a falta de cintura, as pernas franzinas, a barriguinha pouco sexy, os olhos cor-de-uva-desmaiada, a gadelha demasiado vigorosa, as nádegas ui-tão-apertadas-como-se-estivesse-muito-frio e os sapatos rasos, há que reconhecer, com a devida justiça, que tem um belo par de funis torácicos.
 
Hoje, ah e tal um dia importante lá na instituição, a presidenta apresentou-se ao serviço com um aspecto que até fez relinchar os cavalos de alguns estábulos.
 
Foi à cabeleireira, para começar. Naquelas bandas, cada vez que há algum acontecimento fora do normal, mesmo que seja só um bocadinho desviado da normalidade, assim só subtilmente, tipo uma folha que cai da árvore em vez de uma folha que devia cair da árvore, aparece logo uma colega de trabalho com um penteado novo. É tiro e queda.
 
Depois, apresentou-se com um vestido ligeiramente justo. Nem folgado, nem apertado. Perfeito, dentro do género e enquadrado nos limites estéticos permitidos pelo corpo da senhora. Não é hábito vê-la de vestido, assim toda bem posta, com um lenço a imitar um cachecol, ou um cachecol a imitar um lenço, que não percebi muito bem para que servia.
 
Como não bastasse, o vestido era um vestido para mulheres a sério, ou seja, daqueles vestidos com decote regulável com um broche. Apesar de não ser nada escandaloso, o certo é que me ia engasgando quando a vi. Enfim, um gajo vai para dizer algo banal, uma piadinha, uma alembradura do dia anterior, e de repente é apanhado de surpresa e vê-se de olhos postos na área nua das mamas de uma colega de trabalho.
 
A minha sorte – porque ainda há gajos com sorte! – é que, ainda eu estava engasgado e com os olhos colados em partes íntimas do corpo da presidenta, quando apareceu, ao meu lado, uma outra colega, que também reparou na novidade, adiantando-se aos comentários sobre os predicados do decote e facilitando-me a vida. Ena pá, a presidenta hoje produziu-se toda, foi à cabeleireira, meteu um vestido, e ui!, que decote! Ah e tal. Tirou-me metade das palavras da boca, esta colega. A outra metade não chegou a sair, e ainda bem, porque eram coisas mais adequadas a ambientes com tijolos e baldes de massa e não me ficaria nada bem estar para ali com este tipo de conversa.
 
Isto de começar a gaguejar, já começa a ser uma falha grave de desempenho. Não tarda, começa a dar maus resultados. Eu, dantes, não era assim. Conseguia disfarçar. Podia discursar fluidamente sobre uma banalidade qualquer ou podia fazer um silêncio solene, mas não deixava os olhos esquecidos em partes íntimas de uma mulher com quem estava a dialogar, e, definitivamente, não me engasgava!
 
Maldita decadência!... pickwick
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publicado por pickwick às 23:31
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Segunda-feira, 20 de Abril de 2009
Pernocas no Alfa
No sábado tive que fazer mais uma viagem-relâmpago até à capital, para mais uma reunião da treta, deitando aos caracóis mais um dia de paz e descanso. Um gajo bem que anda necessitado de clausura, mas parece que há sempre mais uma coisinha para termos que sair de casa.
 
A viagem para baixo, com partida de Coimbra às 7h45 da madrugada, foi, como toda a gente depreende, num Alfa Pendular. Ninguém sai de Coimbra às 7h45, a menos que vá de comboio. Um gajo vai meio rabugento, a tentar bater uma soneca matinal para tentar combater a alvorada precoce, ora olha pela janela, ora olha para a hospedeira de bordo, ora pisca os olhos, ora tira o livro da pasta para o fechar passados 40 segundos, e por aí fora… Enfim, banalidades.
 
A reunião foi pouco animada, em virtude da participação de uma única mulher. O almoço também, porque, para além da participante na reunião, apenas apareceu no restaurante mais uma mulher, misteriosa, vistosa, cabelo loiro farfalhudo, modelo pela retaguarda, avó-carcaça pela frente. Enfim, mais um mau momento.
 
No regresso a Coimbra, novamente num Alfa, vi-me confrontado com a vizinhança inesperada de duas fêmeas, na fila oposta.
 
A primeira, chamemos-lhe Felismina, teria os seus trinta anos e um corpo abonecado de quem já foi mãe mas procura fazer um esforço para manter algumas linhas. Trazia uma saia acima do joelho, daquelas que encolhem quando a dona dobra pela bacia, e collants pretos. Pronto, estava um ligeiro frio. Para cima, um decote descontraído. E o que raio é um decote descontraído? Ora bem, é um decote que parece que não está decotado, mas que deixa uma sugestiva fracção das mamas a apanhar ar. É preciso ter classe, para ostentar um decote destes.
 
A segunda, chamemos-lhe Leontina, tinha mais um palmo de altura que a Felismina e usava um vestido preto, às pintas brancas. Ou seria branco, às pintas pretas? Parecia a mulher-zebra. Para baixo, collants pretos e botas pretas até ao joelho. Acontece que o vestido-zebra era daqueles que, em pose vertical, quase que dava para uma freira, mas que, na pose sentada, sobem de surpresa pelo corpo acima, ficando-se por uns míseros dez centímetros abaixo da cueca.
 
Ora, a Felismina começou por se armar em intelectual e folhear um livro. Passados uns minutos, chegou-lhe a verdade e esticou-se para uma sesta. Não tendo mais ninguém ao lado, aproveitou a velha técnica dos comboios regionais e inter-regionais e açambarcou dois lugares só para ela, cabeça para a janela, pernas para a fila oposta. E quem estava na fila oposta? Pois claro. Não bastasse a pose da Felizmina, a Leontina começou a espernear no seu lugar, com aquelas pernas de girafa, torcendo-as, virando-as, sei lá, dando aqueles jeitos que só as mulheres de saia conseguem.
 
O hospedeiro de bordo, livre do seu carrinho, passou por duas vezes na nossa carruagem, abrandando o passo junto às meninas. Aliás, a paisagem para o lado da Leontina devia estar bastante interessante, a avaliar pela forma como ele abrandou o passo, caminhando literalmente em câmara lenta e de olhos colados na rapariga.
 
Há viagens que são agradáveis. Esta, foi uma delas. Mais um bocado de calor, ou um pouco menos de frio, e não haveria collants, certamente, o que enriqueceria o ambiente e obrigaria o hospedeiro de bordo a fixar-se naquela carruagem. Eu é que já não sairia dali. Upa! Upa!... pickwick 
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publicado por pickwick às 23:43
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