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Quinta-feira, 25 de Maio de 2006
Porquê?
Já ando com esta tanga há muito tempo, mas lembrei-me agora de lhe pegar. É a tanga do “porquê”: a minha explicação para o ser humano e todos os seus disparates. Há uma lei da Física, muito foleira, que fala sobre a reacção que existe sempre que há uma acção. Ou seja, se metermos à boca um ovo cru inteiro dentro da respectiva casca e fecharmos as mandíbulas, o ovo partir-se-á e ficaremos com a boca toda badalhoca, cheia de pedaços de casca misturada com um líquido seboso e a cheirar a penas. A acção é meter o ovo e a reacção é ficarmos todos badalhocos. A Física é uma ciência lindíssima. Mas, tecnologias à parte, o bicho Homem é um palermita de primeira e tudo o que faz tem sempre um porquê. Fizéssemos nós um esforço por entender os porquês e as soluções radicais não tardariam a surgir e a melhorar a sociedade. Vejamos. Porque é que o pessoal rouba? Muito simplesmente, rouba porque pode roubar. Se não pudesse roubar, ou o acto lhe trouxesse inevitáveis e imediatas consequências, tem a sua lógica pensar que não roubariam. Imagine-se, por exemplo, que mal acabasse de roubar, um larápio era apanhado e obrigado a andar nu pelas ruas com um cartaz pendurado a anunciar a besta que ele era, com as unhas dos dedos dos pés pintadas de roxo fluorescente. Porque é que o pessoal conduz na estrada que nem uns loucos? Porque podem conduzir assim. Se não pudessem conduzir assim, ou esse tipo de condução lhes trouxesse um efeito imediato, acabariam imediatamente os acidentes na estrada. Por exemplo, imagine-se os carros equipados com um sistema de ejecção de um objecto fálico lubrificado e pontiagudo, com ponta em forma de broca, no assento do condutor, que, ao menor sinal de condução perigosa, como atravessar um traço contínuo ou ultrapassar limites de velocidade, dispararia o dito objecto entre as nádegas relaxadas do condutor. É que isto entrava logo tudo nos eixos! Infelizmente, os intelectuais e os seus mandatários não partilham esta opinião, recorrendo àqueles discursos da liberdade e dos direitos de não sei o quê, enfim, disparates em cima de disparates que nos trazem como andamos. Mas o dia virá! O dia virá em que isto leva uma volta e tudo passará a levar em conta os porquês, e estes estarão na base de todo o tipo de consequências e previdências. Pode demorar umas décadas, mas lá chegaremos. Que esta mania de se esperar que sejamos todos cidadãos, tem de acabar. Não há cidadãos! Porque é que haveríamos de ser cidadãos? Cheios de civismo! Porquê? Algum motivo prático para o sermos? Sabemos que é isso que desejamos em sonhos, mas que na prática implicaria deixarmos de ser uns porcos e uma cambada de mal intencionados. Por isso, falamos em civismo, fazemos de conta que damos lições de civismo, mas na realidade continuamos a ser os mesmos animais de sempre. Porque o próprio conceito não existe, não se enquadra no ser humano. O ser humano não nasceu para ser cívico, nem para ter civismo, nem para ser cidadão. Portanto, se a malta quer que o povo tenha civismo, tem que ser por obrigação. Depois o povo pensará: ó carago, deixa cá ser cívico senão ainda fico sem um olho ou um testículo ou um mamilo. E aí tem um “porquê” que lhe guiará a vida, como rumo, como farol. Não se explica ao povo que é feio deitar-se lixo para o chão. O povo não percebe. O povo não entende. O povo está-se nas tintas para que o chão fique cheio de lixo. Portanto, é preciso arranjar um porquê para que o povo não deite lixo no chão. Por exemplo, se deitar lixo no chão, é obrigado a viajar três horas seguidas dentro do contentor de um camião do lixo em hora de ponta no serviço de recolha. Aí, o pai diz ao filho, qual advertência: Zezé, se deitares lixo para o chão, depois vais ter que andar três horas dentro do camião do lixo e ficas a cheirar tão mal que não te queremos em casa durante dois meses. O próprio pai não deitará, porque não está com muita vontade de viajar no camião. O mesmo sistema se pode alargar a tudo e mais alguma coisa que dependa da vontade pessoal do ser humano e que possa ter prejuízos para a sociedade e para o mundo. Por exemplo, as gajas feias não podem andar na rua sem uma máscara. Porquê? Porque senão depois vem a Polícia da Estética e as gajas feias, apanhadas em flagrante delito, têm de andar durante um mês de verão com um tapete de Arraiolos com dois furos para os olhos enfiado em cima. Sou mesmo mauzinho. Vá, eu não queria ir por aqui, mas, não sei porquê, não resisto a estas coisas, a esta censura da falta de estética. Isto é mais forte que eu. Mas é daquelas coisas para as quais não há porquê que lhes valha. Já se nasce assim. Pior, é quando a feiura vem de dentro e aí reside. Não há plástica que modifique, não há chicote que eduque, nem creme que hidrate. Ser-se feio por dentro é do pior que pode haver e não tem cura. Ou melhor, ter cura, até tem, mas era preciso um “porquê” muito convincente e assustador para curar. Demasiado assustador. Demasiado brutal. É que, este “porquê” teria de abalroar o outro “porquê”, o “porquê” que leva a que algumas pessoas sejam feias por dentro, que está associado a um prazer mórbido em ser-se assim, em ser-se feio, em ser-se mete-nojo, em ser-se um monte de esterco, em ser-se um pedaço de poio de cavalo engripado. Uma missão impossível, direi eu. Por isso, o mundo está irremediavelmente perdido. A todos os que são feios por dentro, eu desejo, sinceramente, que morram numa valeta com um foguete psicadélico enfiado naquela zona do corpo onde o sol não brilha! Não fazeis cá falta!!!... pickwick
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publicado por riverfl0w às 22:07
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