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Sexta-feira, 30 de Julho de 2010
Efeitos psicológicos no desempenho físico 2

 

“Será que afinal não resististe e voltaste a fazer a corridinha e foste apanhado pelo papá das meninas...” (questão colocada por uma leitora, em alusão ao post Efeitos psicológicos no desempenho físico)

 

Bom, as duas meninas em causa, que circulavam pela natureza a cavalo das suas bicicletas, nunca mais as vi. No entanto, em corridinhas posteriores, cruzei-me por três vezes (em três dias distintos) com um grupo de cinco meninas de igual calibre, chinelinho no pé, toalha ao ombro, regressando aos lares vindas das piscinas municipais. É uma aparição algo inesperada, tão formosas e frescas donzelas, num trilho cheio de pó e calhaus, por entre mato, silvas e algumas árvores. Barriga p’ra dentro, peito p’ra fora, e faz de conta que já andamos a correr desde madrugada, feitos heróis...

 

Hoje, voltei a ir dar uma corridinha. Já andava na balda há quase duas semanas. Vergonhoso. Não encontrei ninguém pelo caminho. Assim, dados a paz e o sossego reinantes no mato, aproveitei a oportunidade para, durante os 45 minutos, meditar sobre os efeitos psicológicos no desempenho físico da minha pessoa, enquanto faço uma corridinha.

 

Bem sei que isto é mera teoria, mas, face à experimentação prática, já me atrevo a teorizar sobre o assunto. Portanto, e sem mais demoras, tenho a dizer que há dois tipos de efeitos psicológicos (pensamentos, portanto) que afectam positivamente o meu desempenho físico:

 

1. Donzelas leves, frescas e bem cheirosas, passeando-se pela floresta: um gajo não pode dar impressão de fraco, mesmo que esteja para cair morto numa giesta, e, por isso, consegue fazer cair do céu aos trambolhões algumas energias desconhecidas que permitem correr mais um bocadinho. No caso de as donzelas trajarem indumentárias realmente, efectivamente e objectivamente frescas, a retina capta os conteúdos físicos e a mente encarrega-se de visualizar repetidamente os mesmos, assim como que flashes de memória que quase que nem dá para ver o caminho sinuoso pelo mato fora. Não há homem que se preze, à face da terra, que não se sinta instintivamente energizado (leia-se: “injectado subitamente com uma carga energética sobrenatural”) por um bonito decote.

 

2. Situações dramáticas da vida real em que um gajo tem que ser mau: um gajo é bonzinho, não faz mal a uma mosca, aprecia as flores e os passarinhos e as passarinhas (pois claro), mas depois atravessa-se um mete-nojo e um gajo tem que se chatear. Outro dia, foi um cigano que me roubou um balde de plástico do quintal, ocorrência que me deixou muito desagradado, pelo que, lá para as 3h da madrugada, desferi um ataque cirúrgico sobre o acampamento do fulano, lançando balões de gasolina nas barracas, pegando fogo àquilo tudo e cortando às postas os sobreviventes com golpes de catana. Noutro dia ainda, ia a correr pelos pinhais, um camafeu que andava à caça resolveu armar-se em engraçadinho, mandou-me uma chumbada num braço, eu fiquei logo possuído, fui ter com ele, arranquei-lhe a caçadeira, parti-lhe a dentadura à coronhada, parti-lhe os dois braços com fractura externa, desloquei-lhe uma rótula ao pontapé e, por fim, arrastei-o durante 2 km até ao posto da GNR, a pingar sangue que nem um desalmado. E por aí fora. Um gajo chateado, quando se vinga, fica com muito mais energia.

 

Hoje, que consegui fazer o percurso do costume sem parar e quase que nem arfei. Porquê? Porque ah e tal, grande estória, e acabou com uns gajos com os dentes partidos. pickwick 

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Quinta-feira, 29 de Julho de 2010
O manequim com umas certas proeminências

Por alturas desta semana, recebi uma inesperada mensagem de uma amiga e leitora deste blogue, recordando momentos partilhados há alguns anos atrás e apelando ao débito literário nestas paragens.

 

Entre os momentos partilhados, que não foram muitos, mas foram muito bons, a amiga recordou a feitura de um jornal amador, entre as sete paredes de um gabinete médico de uma instituição onde ambos os quatro (falhei no número?) prestávamos serviço. Não me apetece, por ora, estar a dar explicações sobre o jornal, sobre o gabinete médico, sobre os ambos serem quatro, e, muito menos, sobre as sete paredes do gabinete médico.

 

Contudo, a amiga relembrou-me um pormenor técnico daquele gabinete, que sempre me fascinou de forma secreta: a existência de dois impávidos e serenos manequins, um dos quais com umas certas proeminências. Obviamente, o fascínio era pelo manequim das proeminências.

 

Quem nunca colaborou intensamente num jornal ou revista, com prazos a morder as canelas, não imagina o cansaço e a ansiedade que povoam as mentes dos feitores. Por vezes, mas só às vezes, o cérebro tem um colapso e uma pessoa pode perder a “compostura”. Ou seja, o que é que pode acontecer no interior de um gabinete médico, com uma marquesa, um manequim feminino completamente despido e um gajo que não regula bem da cabeça, escreve muitos disparates e está a ter um breve colapso cerebral?...

 

Podia, mas não aconteceu. Talvez porque o manequim era feito de um material frio, duro e seco. Se fosse feito de silicone... já não posso garantir que nada se passasse. E, já agora, devo confessar que a presença do manequim masculino, com aquele olhar baço e reprovador, não ajudava nada a dar asas a qualquer gesto mais entusiasmado. Porque, para mim, dois é perfeito, mas três é pior que andar no Metro de Tóquio em hora de ponta. pickwick

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publicado por pickwick às 10:53
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Quarta-feira, 28 de Julho de 2010
O sacana do berbequim

Há cerca de um mês atrás, ainda as cervejas não se evaporavam instantaneamente das garrafas, fui fazer um percurso pedestre na Serra do Caramulo: a Rota dos Caleiros. Deixei o carro na base do Caramulinho, do lado da estrada oposto à fonte, e fiz-me ao caminho, para uma jornada de algumas horas.

 

Não há muita gente a meter-se a fazer caminhadas a pé na natureza, aqui neste triste país, sendo que os hábitos são mais de acomodar as nádegas à esponja do banco do carro. Mas, ainda assim, o Caramulinho recebe muitas visitas, gente aventureira que ousa abandonar o carro no sopé de um amontoado de penedos e subir a pé até ao cume.

 

Comecei o percurso lá para as 11h00 da madrugada, e, à hora do almoço, estava plantado algures no meio de nenhures, à sombra de umas quaisquer árvores, a dois metros de um modesto curso de água. Isto de caminhar na serra, ah e tal, sobe e desce, desce e sobre, é muito cansativo, em especial no verão. Por tal, o almoço, em jeito de piquenique, começou com camarões cozidos. Eu gosto de camarões cozidos. Há uns humoristas que lhes chamam “carapaus com bigodes”, mas eu, se fosse camarão, ficava ofendido e metia logo alguém em tribunal. Não me recordo do resto da ementa, mas é impossível esquecer a bela da sesta que se seguiu ao repasto. Enfim, qualidade de vida, portanto.

 

Lá para meio da tarde, quando cheguei ao carro, ainda havia gente a subir e a descer o Caramulinho. O porta-luvas do meu carro estava aberto, o gorro que uso por cima do orifício para as latas de cerveja estava fora do sítio, e a porta do pendura estava embelezada com um bonito e artístico furo de berbequim com broca de 8 milímetros. A fechadura, claro, já tinha passado à história. Felizmente, não tinha ficado nada esquecido no interior que interessasse ao artista do berbequim: nem o taco de basebol, nem os documentos do carro, nem o canivete comprado no Alentejo, nem o colete, nem o macaco do carro, nem a peúga emporcalhada com a qual limpo o pó.

 

Enquanto abandonava o local com uma raiva miudinha a morder-me as entranhas, serra abaixo, lembrei-me de um belo dia um de Janeiro, há uns anos atrás, quando, por causa de me terem gamado uma mísera antena do carro durante a noite, puxei da minha então fiel faca-de-mato com lâmina de 23 cm e, esgrimindo-a habilmente no ar enquanto bradava ameaças e vinganças sobre o povo do Sabugueiro, arranjei maneira de evacuar o largo da igreja e deixar entregues à solidão o monte de toros da tradicional queimada. Um gajo envelhece, amolece, e nem uns patéticos 5 cm de lâmina de canivete é capaz de erguer aos céus! Tristeza... E, ainda bem que não, ou a minha companhia de caminhada ainda era capaz de começar a gritar por socorro, ao ver-me em tais preparos...

 

Depois da calmaria que durou ainda algumas horas após a descoberta do furo, a solidão do regresso a casa transportou-me para uma coroa de pensamentos mais ajuizados. Sim, porque, a bem dizer, não há nada como ter muito juízo depois de descobrir o carro assaltado e a fechadura estragada com um furo de berbequim. E, caindo em mim, inundado por litros e litros de juízo, comecei a delinear um eficaz plano de trabalho, o qual passo a descrever em linhas gerais:

 

1. Mal chegasse a casa, elaborava um cartaz A4 com os desenhos de uma caveira e duas catanas, e os seguintes dizeres: “Procuro o sacana que me assaltou o carro com um berbequim, no dia X, no Caramulinho. A sentença é a decapitação!”

 

2. Imprimia umas trezentas cópias do cartaz.

 

3. Nessa mesma noite, regressava à Serra do Caramulo e, a golpes de pionés ou com tiras de fita-cola, espalhava os cartazes pela vila do Caramulo e outras aldeias serranas, em locais frequentados, nomeadamente comércio, incluindo um eventual posto da GNR.

 

4. Nos fins-de-semana seguintes, regressaria ao Caramulinho e, deixando o carro exactamente no mesmo local, plantar-me-ia, de forma camuflada, em local estratégico para uma eficiente vigilância da área, na expectativa de uma reincidência do sacana.

 

5. Na eventualidade dessa reincidência, assim que o sacana puxasse do berbequim em direcção a um qualquer veículo, eu saltaria de trás dos arbustos, de catana afiada em punho, saltitava de penedo em penedo com a suavidade das artes marciais, e, com um pulo final muito felino, cortaria o magano às postas, postinhas e fatias. O ataque seria tão fulminante e fatal, que do corpo mutilado jorraria um sem número de esguichos de sangue que pintariam de vermelho as bonitas bétulas que crescem no sopé do Caramulinho!

 

Entretanto, já na minha aldeia, e porque não me apetecia gastar toner para a impressora, passei pelo Pingo Doce para comprar umas cervejolas e vim para casa afogar as mágoas em cevada, para encerrar o assunto até à ida ao bate-chapas. pickwick

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publicado por pickwick às 19:51
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