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Quarta-feira, 30 de Julho de 2008
SX100IS

Em dois mil e três, logo em Janeiro, abandonei a moradia que ainda partilhava com a minha ex e mudei-me para o apartamento rasca em que ainda vivo. Ainda antes de ter cá as minhas bugigangas, mais as pilhas de livros e as roupas e as quinquilharias e o resto do lixo inútil, já cá tinha um investimento de algumas centenas de contos, em material digital: um computador novinho em folha, uma impressora laser que me custou os olhos da cara, e a minha primeira máquina fotográfica digital.

 
Andei a adiar a compra de uma máquina digital, mas quando comprei o computador, caí na asneira de perguntar ao dono da loja se tinha algumas para venda e blá blá blá e se percebia do assunto e ah e tal. O senhor sugeriu-me uma HP850, pela módica quantia de 700 euros, mais 75 euros para um reles cartão de 128Mb. Doeu largar tantas notas, mas valeu a pena. O zoom de 8x, equivalente a uma objectiva de 300mm como eu tinha numa máquina analógica, fazia as maravilhas e o gosto ao dedo, sendo que os 4 megapixels eram uma coisa janota para a época. Durante estes cinco anos e meio, tirei largos milhares de fotografias, algumas com publicações em revistas (pena não terem sido de modelos em lingerie). O único grande defeito que ela tem, é aquele irritante “shutter lag”, o tempo que vai entre o momento em que queremos tirar a foto e o momento em que a máquina dispara. Foi este “shutter lag” – com uma média de minuto e meio – que me fez perder centenas de capturas de alvos em movimento. É que até um cão coxo desaparece de cena antes de a máquina disparar. É triste.
 
Assim, passei-me da cabeça e um destes dias fui até à capital de distrito, a uma grande superfície comercial, daquelas com meia dúzia de andares, onde eu nunca tinha entrado, cheia de gajas, ah e tal, para ver se trazia uma máquina nova para casa. Já tinha andado a sondar a coisa na Internet, a ler comentários de utilizadores, a comparar preços e potencialidades, e a coisa parecia mais ou menos decidida. Assim sendo, comprei uma Canon SX100IS, por apenas 240 euros. Vem com um zoom óptico de 10x e tem uma resolução de 8 megapixels (ou megapixéis, como diria o meu paizinho). Por 17 euros comprei um cartão de memória com 4Gb, que é tanta memória que dá para lá meter um harém inteiro. Daqui da janela da minha sala, num primeiro andar, fotografei uma motorizada estacionada e a coisa saiu tão boa, tão boa, tão boa, que dá para ler com perfeição umas inscrições do modelo do veículo em letra miúda. Gostei. Ainda consegue ser mais pequena que a máquina antiga e gasta apenas duas pilhas em vez das quatro da outra.
 
Que fica a faltar? Obviamente, ir a uma praia registar aquela magnífica prenda que Deus deu aos homens: a bela da mulher – o único animal à face da terra que fica elegante e apetitoso dentro de um biquíni. Com este zoom e esta resolução, até vou conseguir captar a imperceptível ondulação do tecido das cuequinhas provocada pela pressão dos pêlos púbicos!!! pickwick
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Segunda-feira, 28 de Julho de 2008
Avaliação externa?

Lá no patronato, e num claro esforço para inverter a situação que se verificou há um ano atrás, em que não gozámos os nossos vinte e tal dias úteis de férias, resolvemos fazer um calendário de férias. Isto é, no Excel, escrevemos os nossos quatro nomes, metemos todos os dias dos meses de Julho e Agosto e marcámos cruzinhas para cada um de nós, até um total de quinze cruzes - quinze dias úteis. Abaixo dos vinte e muitos dias a que temos direito, mas enfim. Espalhámos a coisa por forma a estarem, sempre que possível, pelo menos dois de nós ao serviço, para o que der e vier.

 
Somos muito bem intencionados, note-se. Normalmente, esta ideia seria exequível, mas, infelizmente, vivemos na Era Sócrates, em que o importante é mexer, mesmo que mexa mal e não sirva para nada. Nesta Era, os nossos superiores hierárquicos, tanto a nível regional como central, vivem uma loucura pegada, onde nada é feito com tino, onde todas as semanas há novidades, onde reina a confusão, onde ninguém sabe dar explicações consistentes e cabais.
 
Como hoje, que logo a seguir ao almoço os dirigentes regionais enviaram, de surpresa e para todas as instituições, uma circular bombástica com umas certas medidas a tomar ainda no próprio dia, como se os patronatos estivessem diariamente estacionados nos seus gabinetes, de braços cruzados, à espera que alguém de cima lhes dê que fazer. Uma circular que chegou por e-mail às catorze horas e por fax às dezassete e trinta. Loucos! Completamente loucos e incompetentes!
 
Quanto a férias, e tirando uma semaninha em Agosto para a qual já tenho bilhete de avião comprado para a Áustria, já estou a ver que a cena das cruzinhas foi mais para aquecer do que para viver. As minhas cruzinhas começaram há quatro dias atrás e ainda não passei um único destes dias sem “esbanjar” oito horas na instituição, a andar com papéis e devorar legislação. É mesmo bonito.
 
Claro que umas férias saberiam bem, assim nem que fossem só duas semaninhas (daria dez dias úteis), mas nem isso. Um gajo precisa de descansar um bocado, parar a máquina durante os tempos, recarregar energias, ver uns biquínis, comer uns tremoços regados com cerveja gelada, e por aí fora.
 
Hoje, enquanto lia dois normativos e tentava actualizar um regulamento, dando dois dedos de conversa com o patrão e recebendo ocasionais visitas, ocorreu-me que se me tinha esgotado a água para beber em casa, que um gajo é fino e só bebe água engarrafada. Por tal, no regresso a casa teria mesmo que passar no supermercado para comprar um garrafão e mais uns géneros para encher o bandulho. Não fosse ser atacado pelo Alzheimer, resolvi recorrer a essa refinada técnica de memorização que consiste em escrever um lembrete na palma da mão – coisa muito saudável, claro. Bastava “água”. Quando dei por mim, estava a acabar de escrever a palavra “externa”. Parei e olhei de longe para a palma da mão: “avaliação externa”. Estou lindo, estou… pickwick
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Sábado, 26 de Julho de 2008
O homem que não parte pratos

Hoje, a Fafá voltou para dar mais um contributo intelectual para a causa da nossa instituição. Ao contrário do previsto, se é que a uma perversa especulação se pode chamar previsão, a senhora apareceu trajada de forma sóbria e conservadora, com saia abaixo do joelho, sem qualquer ponta de sensualidade. Não foi a única. Hoje, as mulheres aparecerem todas sem qualquer toque de sensualidade, talvez porque o dia começou com nuvens e alguma chuva. Até a loira dentuça apareceu sem decote, o que é estranhíssimo e completamente imprevisível.

 
Bom, quando o contributo intelectual dela estava a terminar, já só faltando encerrar o computador, proporcionou-se um regresso ao passado, a propósito das ocorrências que culminaram na eleição da actual equipa do patronato. A Fafá resolveu contar daquelas estórias que ainda ninguém conhecia e rimo-nos todos muito com as situações.
 
Ora, acontece que o ex-patrão nunca conseguiu engolir a derrota que lhe abriu caminho à transferência de instituição, como consequência final. Nem na altura, nem ainda hoje. Aquilo ficou lá entranhado, a moer entre o rancor e a fúria, com aquele défice de desportivismo e democracia que caracteriza os sedentos do poder absoluto.
 
A Fafá, então, aludiu à primeira pessoa em quem o ex-patrão se vingaria, assim que pudesse, se pudesse. O actual patrão, enterrado na leitura de uns documentos mas com os ouvidos postos na conversa, riu-se com aquele ar de condenado ao fuzilamento nos segundos que antecedem a pressão nos gatilhos. Obviamente, se ele era o cabeça de lista, caber-lhe-ia a ele a honra de primeira vítima de qualquer acção de vingança.
 
Mas, parece que não. A primeira pessoa a comer pela medida grossa seria eu mesmo! Euzinho?, pensei para comigo. O patrão respirou com algum alívio, mas urgia uma explicação!
 
Ah e tal, é que o ex-patrão ficou mesmo pasmo de todo quando me soube metido na lista para o patronato. Poderia ser qualquer um, menos eu, pelos vistos. Seria a última pessoa que ele imaginaria! E porquê? Porque, segundo as próprias palavras nos momentos se seguiram à tomada de conhecimento, eu era o tipo “que não parte um prato”. E o pessoal que não parte um prato, presumia ele, era incapaz de se chegar à frente e ousar afrontá-lo em renhidas e inesperadas eleições.
 
Pela parte que me toca, tem a sua piada, embora essa de não partir um prato seja assim um bocado para o larilas e não transmita toda a masculinidade e virilidade e outras coisas acabadas em “dade” que emanam do meu corpo. Bem, dantes emanavam, mas a decadência da idade se calhar já está a fazer das suas.
 
Enfim, tenho a dizer que ainda não parti nenhum prato em minha casa, até porque prezo muito o serviço de loiça chinesa que a minha mãezinha insistiu em trazer-me da China, à força. Mas, pratos à parte, eu até era gajo para partir algumas caras e, embora a lista não fosse extensa, seria elaborada com bastante rapidez, mesmo com os contributos negativos do Alzheimer. Curiosamente, a esmagadora maioria dos eleitos para a lista seriam do sexo feminino, mas isso agora são pormenores que não interessam.
 
Fafá, obrigado pela notícia. Amanhã já levo o colete, um crucifixo ao peito e dois dentes de alho na algibeira. pickwick
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Quinta-feira, 24 de Julho de 2008
O vestidinho da Fafá

Ultimamente, tem estado um calorzinho. Daqueles que só dá vontade de andar todo nu pela casa, a arejar. Dá vontade, mas a cautela vem primeiro. Não vá o pirilau ficar trilhado na porta da máquina de lavar roupa, o melhor mesmo é andar com a bela da cueca protectora.

 
Com o calor, o ser humano tem alguma tendência natural para se despojar de excessos de roupa, pelo que, nesta época, os olhos têm muito com que se regalar. Infelizmente, o meu estúpido dever para com o patronato vai novamente privar-me das férias de verão a que tenho direito, condicionando-me o acesso a contextos sócio-recreativos em que a concentração de mulheres a morrerem de calor é elevadíssima.
 
A loira dentuça costuma aparecer todos os dias, sistematicamente sem soutien e com um vestido de alças decotadíssimo que deixa perceber as maminhas invariavelmente descaídas até ao umbigo. Isto é um ritual diário: a loira aparece, eu controlo-lhe o vestuário, constato as alças, o decote e o formato decadente das maminhas, arrepio-me com os dentes em forma de retroescavadora, e suspiro de infelicidade pela paisagem pouco apelativa.
 
No entanto, ao início da tarde de hoje fui surpreendido de forma agradável. A Fafá (nome de código), que se tinha oferecido de véspera para me ajudar a redigir um projecto, apareceu de rompante no gabinete do patronato. Quer-se dizer, ela entrou de mansinho, como sempre, mas como me deixou em choque, faz de conta que foi de rompante, ok?
 
A Fafá, é uma senhora da minha idade, mais coisa, menos tigela, cujo rosto invalidaria qualquer desejo relacional que me acometesse nesta vida ou noutra reencarnação. É feia, pronto. Mas simpática, vá. É magra e, por conseguinte, elegante, coisa que se torna rara acima dos trinta e cinco anos. Fica-lhe bem a elegância, mas o défice de maminhas não abona em favor de qualquer apreciação, ainda que em desespero de causa. E o cabelo curto também não ajuda nada, convenhamos.
 
Não sendo mulher que provoque atracção alheia, e tendo consciência disso, a Fafá costuma trajar de forma simples, muito simples, na maior parte das vezes com umas simples calças de ganga dentro das quais as nádegas parecem nunca encher o espaço livre. Apesar desta apreciação pouco positiva que aqui deixo, estou a falar de uma mulher casada e mãe de duas filhas! Não é um monstro, portanto.
 
Retomando a entrada de rompante no gabinete do patronato, falta descrever a novidade: é que a Fafá apareceu com um vestido que mais parecia roubado à sua filha de catorze anos, a avaliar pelo comprimento diminuto da saia e pelo padrão axadrezado do tecido. Até fiquei sem jeito. Pensei logo para comigo: mau, mau, Maria, está aqui um gajo a tentar trabalhar sossegado e vens para aqui tu nesses preparos, a distrair a malta!
 
Arranjei-lhe uma mesa vazia mesmo ao lado da minha secretária, arranjei-lhe um computador, e pu-la a render. A isto, chama-se estimular a qualidade de vida em contexto de trabalho! Um gajo está a trabalhar e entre cada oito minutos faz uma pausa para deitar o olho ao lado. É que, para quem não sabe, os vestidinhos daquele género transformam-se facilmente em meio palmo de saia abaixo da nádega, quando a mulher se senta. É o conhecido arregaçar natural da saia. Uma coisa linda de se ver, portanto.
 
A Fafá regressa amanhã, para continuar o trabalho. Se gostou de estar ali no gabinete a exibir o pernão, amanhã trará outra indumentária-surpresa, algo igualmente arejado e provocador. Veremos. pickwick
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Terça-feira, 22 de Julho de 2008
Hou leng

No pretérito fim-de-semana, como diriam alguns amadores de repórteres, desci até à capital, para mais um banho de ociosidade, mulheres e alarvice. É sempre bom ir visitar a família, portanto.

 
Viajei de comboio, aproveitando o contraste entre o preço do bilhete ida e volta e o balúrdio que teria que pagar de combustível para fazer a mesma viagem no conforto do meu espectacular automóvel. Viajar de comboio é muito bom. Um gajo liga o computador portátil, adianta alguns trabalhos, ouve uma musiquinha, deita o olho às meninas que vão sentadas nos bancos à frente, deita o olho às meninas que circulam pelo corredor, e enfim, é um gosto.
 
Estas idas à capital implicam, na esmagadora maioria das vezes, uma refeição chinoca, dado que o meu paizinho é um fã dos restaurantes chineses e eu não me faço rogado, embora a comida chinesa dos restaurantes na Europa não tenha nada que ver com a comida chinesa que se come nos restaurantes chineses da China. Mas isso são pormenores. Ora, mais uma vez, lá fomos a um restaurante chinês, ali para os lados da Parede, que eu desconhecia por completo mas que já era local de romaria para o meu paizinho.
 
A dona do restaurante era uma senhora dos seus quarenta anos, mais década menos cinco anos, magrinha e pequenina, com uma fronha de poucos predicados e um sorriso repetitivo. Daquele tipo de mulheres que a gente olha, tira as medidas, e pede à Nossa Senhora para que não a faça cruzar-se muitas vezes no nosso caminho. Enfim, simpática, mas um atentado à beleza feminina.
 
A trabalhar com ela, estava outra chinesa, bem jovem, mais encorpada, mais alta, mas toda jeitosa, sem excessos. Daquelas mulheres que a gente olha, tira as medidas, mas parece que é preciso estar sempre a medir outra vez, para eventuais ajustes e acertos. Trajava à mulher europeia, com umas sapatilhas e uns calções, com um ar de grande descontracção. Não se mostrava muito à vontade com a língua portuguesa, ao ponto de ter confundido uma Fanta Laranja com um Ice Tea. Um senão: uma borbulha feiosa mesmo em cima de uma das narinas, a borrar de vermelho escuro um rosto que até era muito agradável à vista.
 
No final da refeição, e chegada a hora dos pagantes, o meu paizinho lá foi ao balcão, solicitar a conta e apresentar o cartãozinho. Eu fui atrás. Mas, o pagamento foi adiado pela tendência crónica do meu paizinho para meter conversa com chinesas. Neste caso, com a menina da borbulha, que ele ainda não conhecia.
 
Nestas situações imprevistas, eu ainda tento ser um pouco optimista e imaginar que a coisa ficará por uns poucos segundos, meia dúzia de palavras de circunstância e está feito. Sou mesmo ingénuo…
 
Bom, acho que a conversa começou mesmo com o meu paizinho a querer saber de onde ela tinha vindo, que não a conhecia de lado nenhum. Vinha da China (grande novidade!) para trabalhar numa multinacional com delegação em Lisboa, mas, nos tempos livres, vinha ajudar a amiga no restaurante. Ora, convém referir que o meu paizinho tem problemas sérios de audição, não domina o inglês oral, não domina o cantonense (dialecto outrora implantado no sul da China), não domina o mandarim (dialecto oficial que já meteu o cantonense na reforma), e tem uma lábia do outro mundo. A jovem apenas dá um jeito no português para o desenrasque, domina o inglês e, claro, domina a língua materna – o mandarim. Portanto, condições instaladas para uma conversa às apalpadelas.
 
Depois, ela quis saber por que cidades chinesas o meu paizinho já tinha andado, e lá fez ele um esforço de memória para relembrar nomes chinocas. E depois, ela quis que o meu pai dissesse qualquer coisa em chinês. Veio-me logo à ideia que ele ia aproveitar para mandar um piropo, mas, pensei, talvez não, que não fica bem a um senhor de setenta e quatro anos andar a mandar piropos a meninas de vinte e poucos. Acho que até fechei os olhos, como que a pedir a intervenção divina para que ele não se esticasse, mas parece que a oração não é algo em que possa ser mestre. Com um sorriso mafioso nos lábios, o meu paizinho lá disse em cantonense: “hou leng”! Fechei os olhos, desesperado. Como toda a gente sabe, “hou” quer dizer “muito” e “leng” quer dizer “bonita”.
 
Como se não bastasse, a rapariga não percebia mesmo nada de cantonense, logo não percebeu nada, logo foi necessário traduzir, em voz (muito) alta, em pleno restaurante, ao que se seguiu uma exibição do meu paizinho na escrita de caracteres chineses, aproveitando o facto de o mandarim e o cantonense serem dialectos completamente distintos mas que partilham a mesma escrita.
 
Por vontade do meu paizinho, ficava ali o resto da noite a desenhar caracteres chineses e a mandar piropos à rapariga, mas, se por um lado eu me afastei uns centímetros para mandar uma SMS de socorro a ver se alguém me ligava e assim tinha desculpa para bater em retirada, por outro, a rapariga começou a sentir-se mal por estar ali a dar conversa a um velhote quando se tinha comprometido ajudar a amiga nas lides do restaurante e aproveitou essa desculpa para zarpar do balcão e terminar a conversa. E pronto, viemos embora.
 
Nestas coisas, definitivamente, eu não saí ao meu paizinho. Sou mais do tipo de me armar em “sniper” e ficar, de forma muito camuflada, a abater alvos à distância. Enfim, gostos… pickwick

 

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Domingo, 20 de Julho de 2008
Cinquenta e duas e mais

Haverá algum motivo, em concreto, para que haja cinquenta e duas garrafas vazias de cerveja espalhadas pela mesa e balcões da minha cozinha? Dei-me ao trabalho de as contar porque, enquanto bebia a quinquagésima segunda cerveja geladinha, reparei, finalmente, que havia mesmo muitas garrafas vazias…

 
Se a memória não me falha, quase outras tantas haverá dentro de dois caixotes que já deviam ter sido levados ao vidrão, para despejo.
 
Vergonha!
 
Depois, quando aparecem visitas, é necessário ir a correr fechar a porta da cozinha. pickwick
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Sábado, 19 de Julho de 2008
A saga das maminhas – parte 5

O excesso de moscas em Regoufe convenceu-nos a, na viagem de regresso, não pararmos na tasquinha para rematar umas cervejinhas geladinhas. Por mais ideal que seja a temperatura da garrafa, não compensa a estafadeira de ter que tapar sempre o gargalo para não deixar entrar as moscas. Assim, seguimos, sem parar, para o Covêlo de Paivó, de regresso ao carro e ao salvo-conduto para a civilização.

 
Lá chegados, e porque fazia um sol escaldante, decidimos juntar o útil ao cultural e visitar a aldeia enquanto procurávamos um local agradável para dar uns mergulhos no rio. Conclusão: apesar de aparentar ter menos cabras que Regoufe, Covêlo de Paivó tem a mesma quantidade irritante de moscas!
 
Já quase na periferia da aldeia, um velhote simpático indicou-nos um trilho que daria para um local porreiro para o banho, a uns dez minutos a pé. Lá fomos, não sabemos se era o que ele tinha indicado, porque as indicações desta malta são feitas à medida dos próprios e pecam sempre por objectividade. Ah e tal é já ali à frente. Pimba, sete quilómetros. Ah e tal é só meia-hora. Pimba, hora e meia.
 
Ainda assim, arranjámos um poiso à sombra de umas parreiras, junto a um muro, numa parte seca do leito do rio. Um calor abrasador. Insuficiente, contudo, para fazer elevar a temperatura da água a um nível aceitável. Ou seja, um gajo está ali a morrer de calor, só apetece tomar banho todo nu, afogar-se três vezes seguidas, engolir o rio e os peixes todos e mais uns calhaus, mas, mal toca na água, sente aquele choque inesperado de quem está sujeito a morrer com hipotermia se ousar descuidar-se e ficar dentro de água mais que seis segundos. Perde-se o calor sem ser necessário entrar na água. As ribeiras, os ribeiros e os rios na montanha têm destas coisas, pronto.
 
Findos os banhos, esfregados os suados sovacos, arrumadas as mochilas, fizeram-se as centenas de metros que nos separavam do carro. Objectivo: em quatro rodas, chegar a um certo restaurante, onde nos esperaria um petisco delicioso – maminhas de vaca. Com as curvas pelo meio, ainda demorou quase uma hora até chegarmos ao destino, já fora de horas, tipo três da tarde.
 
Entre três canecas de meio litro de cerveja para cada um, serviram-se as maminhas de vaca. Uma desilusão completa! Afinal de contas, as maminhas de vaca, não são maminhas de vaca. Fui enganado. São, simplesmente, nacos de carne de vaca. Naquele restaurante, como têm a mania que são finos, os nacos chegam à mesa crus, em cima de uma placa de mármore quentíssima, sendo que os clientes são obrigados a cozinharem a carne, ali mesmo. Para acompanhar a meia dúzia de nacos de carne, um reles pires de arroz de feijão deslavado e uma minúscula travessa de batatas fritas. Para quatro gajos encorpados e esfomeados, recém chegados das agruras da montanha. Toma lá catorze euros a cada um.
 
No mínimo dos mínimos, as “maminhas de vaca” deveriam ser um petisco em que fossem visíveis as tetas da vaca, talvez trespassadas por uns palitos de cocktail, quiçá, para ficarem mais bonitas. Deveriam ter uma forma arredondada, tipo maminha. E deveriam saber a leite de vaca, pelo menos! Mas, não! A isto, chama-se publicidade enganosa. É quase como ir ao Fujaco buscar uma esposa e vir de lá com uma velhota desdentada, de mamas secas ao pendurão, com a última sessão de higiene íntima realizada em 1962. Chiça! pickwick
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Sexta-feira, 18 de Julho de 2008
A saga das maminhas – parte 4

O dia de domingo chegou com a maior das tranquilidades. Com sol. Com o piu-piu dos passarinhos. Com as garrafas de tinto vazias. Com os corpos doridos. Com o desejo que alguém manifestou de receber massagens nos membros inferiores. Com um cardume de peixinhos no rio. Com uma lata de leite condensado ao pequeno-almoço.

 
Depois da árdua tarefa de ensacar o lixo da véspera, desmontar o abrigo e arrumar as mochilas, rumámos monte acima, passando novamente na quinta abandonada, sempre a subir, até ao cruzamento com um trilho por onde havíamos passado na véspera, a caminho da Drave.
 
Quase ao mesmo tempo, chegou ao cruzamento um grupo de caminhantes de domingo, assim tipo ajuntamento familiar ligeiro, no meio do qual se destacou uma mocinha de peito decotado e muito generoso, que chamou imediatamente a atenção de alguns membros do nosso grupo. Um peito com duas peças de arte muito idênticas à meloa que se comeu na noite anterior e que me esqueci de relatar no post anterior. Peças muito redondinhas e perfeitas, portanto.
 
Bom, no meio dos pais, das mães, das crianças e da mocinha de dezasseis anos (idade estimada segundo técnica científica já relatada em post anterior), apareceu um senhor dos seus cinquenta anos, vestido como quem vai de verão à missa, com uma machadinha na mão, todo suado. Conversa puxa conversa e tivemos ali história para meia-hora, pois o senhor encontrou o outro grupo algures e ofereceu-se para mostrar as vistas.
 
Assim, venham as histórias. O senhor da machadinha viveu naquela quinta abandonada, ao lado da qual dormimos, durante a sua infância e juventude. A quinta, afinal, tem nome: é a Quinta do Pego! Ora, em 1964 saiu de lá para ir trabalhar para Paris, uma mudança demasiado radical para quem viveu enfiado num buraco no meio do nada, entre ribeiras, montes e penhascos. Em criança, saía todos os dias da quinta, de madrugada, subia até ao cruzamento onde todos ouvíamos atentamente esta história, encontrava-se com outro rapaz que vinha da Drave, e juntos seguiam para a escola primária em Regoufe, ainda a quase uma hora de distância a pé. No regresso da escola, a avó ainda o metia a pastar cabras pelos montes vizinhos. Eram outros tempos, portanto.
 
Convenhamos que, apesar de estar todo suado e apresentar-se com uma rechonchuda barriguinha de cerveja, já tínhamos reparado na velocidade impressionante com que o homem caminhava pelos montes, resultado de muitos anos de passo ligeiro por aquelas paragens, em tempos idos.
 
Questionado sobre a Quinta do Pego, o homem da machadinha contou a seguinte história: há cerca de trezentos anos atrás, uma das famílias que habitava a aldeia da Drave era constituída apenas por homens, por via do falecimento da senhora esposa do respectivo marido: o viúvo e três filhos. Certo dia, um dos filhos meteu-se ao caminho e foi a uma aldeia da região –Fujaco – desencantar uma mulher. Buscar, portanto. Tal como relatou o senhor da machadinha, naqueles tempos, um gajo ia a uma aldeia qualquer, encontrava uma fêmea do seu agrado, negociava a sua “aquisição” com o pai da respectiva, e no mesmo dia podia regressar à proveniência com uma esposa debaixo do braço. Bons tempos, portanto.
 
Ora, chegado o casal à Drave, o pai do rapaz viu-se confrontado com uma situação pouco confortável, mesmo para a época: uma casa cheia de machos evidentemente esfomeados (esta interpretação é da minha autoria, obrigado), invadida pela tentação da carne que se concretizava no corpo apetecível de uma jovem mulher, provavelmente virgem de facto, exalando aquele perfume natural tão delicioso que brota dos poros da pele fresca de uma fêmea sem rodagem. Posto isto, o pai foi célere em resolver a questão. Filho, – disse ele – toma lá uma vaca, uma cabra, um burro, monta a tua mulher e vai habitar para o Pego (ainda gastámos alguns minutos, bem mais tarde, a tentar decifrar o que o homem da machadinha quis dizer com o “monta a tua mulher”, mas não chegámos a nenhuma conclusão conclusiva).
 
O Pego, na altura, há trezentos anos atrás, era pertença desta família da Drave, mas era desabitada. Servia como uma horta para a família, e apenas isso. O casalinho foi para lá viver e transformou o lugar numa quinta de facto. Até há uns cinco anos atrás, quando de lá saiu a última habitante, por motivos de doença. Assim, para além de terem levado uma vida feliz – num local daqueles, não há infelicidade que consiga vingar -, a miúda escapou-se a ser violada pelos cunhados e pelo sogro e ainda por alguns depravados que habitassem na aldeia, daqueles que se babam por qualquer pedaço de carne fresca. Consta que, ainda por cima, a miúda era toda jeitosa, para a época. Digo “para a época” porque, sendo historicamente factuais e contextualizando as coisas, há trezentos anos, qualquer mocinha habitando aldeias serranas, rodeada por cabras e moscas, aos dezassete anos já teria perdido quatro dentes à frente, teria bigode preto farfalhudo e unhas pretas de cavar a terra com os dedos, a higiene das partes baixas aproximava-se da inexistência, e seria possuidora de um caparro muito masculino, às custas de tanto trabalho rural.
 
Mesmo assim, e após a partida do senhor da machadinha para ir mostrar a Quinta do Pego ao outro grupo, decidimos que a aldeia do Fujaco mereceria uma visita científica da nossa parte, para averiguar se, ainda hoje, a povoação é capaz de fornecer matéria prima de qualidade para casamentos em searas alheias, com as devidas adequações físicas à época actual: dentaduras completas, buços convenientemente disfarçados, unhas limpas e cuidadas, higiene íntima sempre actualizada e uma pele macia sobre um corpo muito feminino e apetitoso. A ver, vamos. pickwick
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Quinta-feira, 17 de Julho de 2008
A saga das maminhas – parte 3

Já falei da menina de Burgães com madeixas loiras, que encontrámos na Drave? Já? Pronto! Não se fala mais nisso!

 
Bom, depois de vencermos – a muito custo – a vontade de ficarmos a dormir pela Drave, apesar de ainda nem ter chegado a hora do lanche, lá seguimos ribeira abaixo, como quem aponta em linhas curvas em direcção a Covêlo do Paivó, com passagem ao lado de Regoufe. Sempre pela ribeira.
 
É muito giro, devo confessar. O leito da ribeira é coberto por calhaus sem arestas, macios e arredondados. Aqui e além, com bastante frequência, as águas afundam-se nos calhaus do leito e desaparecem de vista, deixando o “caminho” completamente seco. De vez em quando, carvalhos e castanheiros seculares lançam sombras enormes sobre a ribeira. Ao longo dos séculos, os habitantes da região construíram bastantes represas na ribeira, espaçadas entre si de dezenas ou centenas de metros, que nos surgiram como pequenos obstáculos à saudável caminhada.
 
Por vezes, a ribeira ficava tão apertada entre os penhascos nas margens, que pouco ou nenhum espaço sobrava para se caminhar, obrigando a manobras sofisticadas, usando apuradas técnicas de escalada lateral, equilibrismo sobre calhaus, proezas de salto em comprimento, e banhos ocasionais. Cansativo, digo já. Muito cansativo! Se alguns insistiam em trocar de calçado a cada cem metros, alternando entre botas de montanha para saltitar entre calhaus e sandálias de praia para entrar pela ribeira dentro, outros cedo se cansaram desses tiques pouco másculos e transformaram as suas botas de montanha em veículos anfíbios, ensopadas por fora, ensopadas por dentro. E também havia um par de sapatilhas com amortecedores de calcanhar que boiavam sobre as águas, desde que não estivessem a ser calçadas pelo dono. Alguém alvitrou que foi com estas sapatilhas que Jesus caminhou um dia sobre as águas, mas pareceu-me mais propaganda barata do que um facto histórico.
 
Algures, as tropas pararam numa irresistível piscina natural, onde as águas eram tão límpidas que se via com clareza o fundo a quatro metros de profundidade. Apesar da clareza, o tom da água era de um azul delicioso. Daquelas coisas que só quem se aventura por terras de ninguém tem a oportunidade de encontrar. Pausa para mergulhos e braçadas, ora para a frente, ora para trás. Bem, não foram assim tantas as braçadas, porque o sol decidiu dar uma curva e a água de montanha não é assim um caldo de temperatura tão agradável como numa praia conspurcada do Algarve. Mas deu para saborear.
 
Centenas de metros mais à frente, a paisagem mudou ligeiramente e encontrámos uma quinta abandonada. No meio de nenhures, portanto. Habitações de xisto, carroça de madeira, socalcos, portões toscos e gigantescos castanheiros, tudo na encosta de um monte. Depois da voltinha de reconhecimento, voltámos à margem da ribeira – por esta altura, já podemos chamar-lhe rio, não? – para escolhermos um local para passar a noite, que os estômagos já reclamavam o apetecido jantar.
 
Sorte! Um terreno cheio de erva fofa, com sobreiros, a três metros do rio, num plano perfeitamente horizontal. Com um toldo de plástico, montámos um agradável abrigo para a humidade nocturna, usando, para a estrutura e estacas, madeira seca das árvores. Ficou um mimo, com aquele ar acolhedor que tanto agrada a quem está estafadinho e desejoso de uma noite bem dormida.
 
Em três tempos, já a noite a cair, começou o banquete. Chouriça assada e queijo foram os principais conteúdos, sendo de realçar o néctar escuro e perfumado que regou o jantar, na base de uma garrafa por pessoa – ah e tal, estava calor. Para a sobremesa, um petisco de fazer estalar a língua: painho de porco preto e queijo de Nisa! Acho que houve mais qualquer coisa na mesa, mas o néctar afectou-me a capacidade de memorizar géneros alimentícios, pelo que a ementa aqui descrita pode pecar por defeito.
 
Depois ah e tal, não me lembro se alguém caiu ao rio, ou se fomos atacados por algum crocodilo, ou atropelados por um javali desesperado, ou outra coisa qualquer. É o que se chama um “lapso de memória por ingestão de néctar”. Lembro-me, muito vagamente, de acordar a meio da noite, sob um lindo manto de estrelas, e reparar que um dos membros do grupo roncava ruidosamente a dois metros do abrigo, de papo para o ar – como já é habito nestas situações. Uma noite em beleza, portanto. pickwick
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Quarta-feira, 16 de Julho de 2008
A saga das maminhas – parte 2

Ao descer da tasquinha de Regoufe para a ribeira com o mesmo nome, o turista desprevenido é confrontado com um contexto rural interessante: cheira a cabra como em mais nenhum outro local do planeta; há moscas em quantidades astronómicas por todo o lado; no chão encontra-se caca de cabra a uma média de dezanove cagalhotos por metro quadrado; há muito mais granito do que cimento, o que é bonito de se ver; as galinhas têm muito mau aspecto, assim com ar de quem são penduradas numa forca todas as manhãs, só para testar o cânhamo da corda.

 
Na descida, cruzámo-nos com uma cena insólita numa aldeia serrana. Uma mulatinha, assim a atirar para os seus doze anos, subia uma rua rebocando uma cabra pelos chifres. A idade foi estimada por um método científico muito rigoroso, que recorre à observação atenta de pequenos detalhes corporais. Isso mesmo. Os minutos seguintes após o cruzamento com a miúda, foram dedicados à especulação sobre o tratamento delicado que ela daria a um futuro namorado ou marido.
 
Dando um salto temporal para a frente e aterrando no dia seguinte, aquando da viagem de regresso com passagem novamente por Regoufe, voltámos a cruzar-nos com a mulatinha, desta vez sem trazer qualquer animal a reboque. Um dos meus parceiros de viagem insistiu que não teceria nenhum comentário sobre a mulatinha, antes mesmo de eu abrir a boca para chutar o meu próprio comentário, o que, já de si, diz muita coisa. Mas, eu acho que as coisas não devem passar sem registo, pelo que aqui trago a descrição que faltou ser dita em voz alta: a mulatinha vestia uma camisolinha verde justa ao corpo, não usava soutien, e, daqui derivado, sobressaía em franco relevo o prenúncio de umas hoje tímidas maminhas, lideradas por uns atrevidos mamilos do tamanho de uma rodela de tomate! Entretanto, enquanto os pensamentos sobre o assunto se alinhavam no registo intelectual, cruzámo-nos com os pais da mulatinha a grelharem o almoço ao ar livre: uma senhora com ar de quem pastou cabras nas redondezas de Regoufe durante a infância e um black com ar simpático mas corpo de quem levanta tractores com o dedo mindinho. Enfim.
 
Almoçando à saída da ponte, à sombra, demos conta desse momento excitante que é a saída do rebanho comunitário de cabras para pastarem pelos montes. Muitas cabras. Muitas, mesmo. Acho que deu para comer uma sandes de panado de peru e ainda a ponte estar congestionada com um mar de cabras em passo rápido.
 
Depois de um almoço à sombra do castanheiro, que é sempre bom desde que ninguém se sente em cima de caganitas de cabra, rumámos a caminho da Drave, uma aldeia desabitada enfiada num buraco, pela qual passa uma ribeira com o mesmo nome. Parámos para descansar num pátio e apreciar um grupo de cinco escuteiros que acampavam num terreno do outro lado da ribeira. Do grupo, destaque para a delicadeza de três elementos do sexo feminino, maiores de idade. Fazendo uso de uma estratégia rebuscadíssima, envolvendo uma simulação de extremo cansaço e consequente sestinha em cima de placas de xisto, conseguimos que o grupo passasse por nós numa visita que decidiram fazer à aldeia. Isto já são muitos anos de experiência a conceber e testar estratégias, eu sei. Seja como for, dentro do sub-grupo da delicadeza feminina, a quem dirigimos a palavra para indagar sobre a sua proveniência geográfica, há que fazer um mega-destaque para a menina do lenço verde que, presumo, seria a chefe do contingente, a avaliar pelos outros quatro lenços vermelhos e seguindo a teoria de que há sempre mais súbditos do que chefes. Meu Deus! Madeixas loiras, um corpo de morrer e morrer novamente, uma elegância como poucas conseguem, eu sei lá, um luxo! Subiram umas escadas, aldeia acima, o que nos proporcionou uma visão mais pormenorizada dos atributos físicos da região que vai da cintura aos joelhos, pela retaguarda, com a generosa contribuição de umas calças de algodão justas. Depois de muito pó, calhaus, castanheiros, caganitas de cabras, moscas e cabras, esta foi uma visão com traços de divindade, assim como que uma cervejinha gelada a meio do Sahara. Já agora, e para que conste dos registos, os jovens eram de Burgães, uma freguesia ali para os lados de Santo Tirso. Pela amostra, vale a pena uma visita cultural e recreativa, um dia destes. pickwick
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