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Sexta-feira, 31 de Agosto de 2007
A mulher com cabeça de cabeça-de-fósforo – parte 2
Esta é a continuação de uma história de fantasia e sei lá mais o quê, essencialmente disparates, mas também com algumas inovações literárias, nomeadamente disparates.
 
Tudo a postos para a cerimónia! Rusalka começou a bater palmas. Uma, duas, três, quatro… o Kondilingsh, voltou-se repentinamente, abriu as mandíbulas e abocanhou inesperadamente a cabeça de Rusalka. Contudo, o animal não conhecia as propriedades ignitoras da cobertura da cabeça de Rusalka, nem o efeito consequente do resvalar dos afiados caninos na superfície vermelha. Numa fracção de segundo, a cabeça da moça explodiu numa bola de fogo dentro das mandíbulas do Kondilingsh, obrigando o animal a abrir a boca e soltar a vítima. Os pêlos do focinho do Kondilingsh começaram a arder e o animal teve que se atirar de cabeça para debaixo de uma pipa de vinho verde Alvarinho, abrir a torneira e deixar que o precioso líquido extinguisse as chamas. Entretanto, Ninini percebeu o que correra mal. Rusalka cheirava a tremoço e a sua cabeça era vermelha, tal como a cor das cerejas-de-caroço-de-azeitona que abundavam nas montanhas e que eram o principal alimento do Kondilingsh. De pronto, Ninini abriu o seu kit de emergência e sacou de um frasco de pasta de ovos moles, com a qual untou a cabeça de Rusalka, transformando-a num apetitoso chupa-chupa amarelo.
(um naco de lasanha acabou de se entranhar no teclado… bolas p’ra isto)
Depois de o Kondilingsh recuperar da sua desventura com o fogo, Ninini e Rusalka voltaram a aproximar-se do bicho, para uma nova tentativa. Correu bem. Ao sétimo bate-palmas, Rusalka carregou no play do leitor de MP3, fazendo ecoar o grito “Ai Tá Tá! Moiumbé Lingsh Kondimar”, e fez de conta que fechou os olhos, porque, afinal de contas, Rusalka não tinha olhos. O Kondilingsh, ciente da solenidade do momento, abriu novamente as mandíbulas mas, desta vez, esticou a sua língua de 1,40m e lambeu a cabeça de Rusalka. Soou um trovão, as luzes apagaram-se, caíu um relâmpago, veio novamente a luz, e Rusalka viu-se transformada num ser humano normal, com a cabeça da Lili Caneças. O Kondilingsh uivou de pavor e comeu Ninini.
(porque é que o fundo da minha lasanha parece as solas dos meus sapatos novos?)
Rusalka, agora transformada, teve um ataque de pena e lambeu o Kondilingsh. Como consequência, o Kondilingsh transformou-se no Rui Unas, da cabeça aos pés. Rusalka, visivelmente satisfeita, uivou de prazer e saltou para cima do Kondilingsh. Com o impacto, ambos caíram e começaram a rebolar montanha abaixo. Passados 230 metros, caíram num poço, que era um poço do tempo, mas eles não sabiam. Levaram um choque eléctrico, as luzes apagaram-se, depois acenderam-se, estava muito fumo, e ouviram umas vozes. O fumo dissipou-se. Para onde e para quando haviam sido transportados? Ui! Nada mais, nada menos, do que para a cerimónia de condecoração do Carlos Cruz como Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, em 2002. Brilhante! Mesmo a tempo de evitar a vergonha nacional. O Kondilingsh sentiu uma convulsão no estômago, encolheu-se e teve um vómito, acabando por regurgitar Ninini, que vinha pior que estragado com o fedor no estômago do bicho, especialmente pevides misturadas com cerejas-de-caroço-de-azeitona e raspas de limão. Ninini, muito chateado, abriu o seu kit de emergência e sacou um alguidar com tomates para atirar aos ilustres presentes na cerimónia, obrigando ao seu cancelamento e evitando o pior. Vieram os fotógrafos para registar os três heróis (que na altura ainda não se sabia), mas o disparo dos flash’s fez actuar o alarme de incêndio e os tectos começaram a despejar água, tanta água, que o salão nobre se inundou e Rusalka, Ninini e o Kondilingsh foram arrastados por um turbilhão de água e restos de croquetes e rissóis, até caírem num novo poço do tempo, sendo multi-transportados, isto é, cada um transportado para um tempo e local diferente. Os poços do tempo fazem destas partidas, quando há croquetes e rissóis à mistura. Rusalka, já sabemos, a meio da sua brilhante carreira como animadora de ursos amestrados em festas do jet-set, fez vinte e seis plásticas à cabeça para tentar conter o imprevisto efeito regressivo da lambidela do Kondilingsh. O Kondilingsh, dedicou-se a apresentar programas duvidosos num canal da televisão por cabo, evidenciando uma necessidade incontida de fazer-se acompanhar de mulheres semi-nuas. E, quanto a Ninini, bom… isso é outra estória… acabou por não cobrar a noite de sexo com Rusalka, mas esse facto não lhe deve ter tirado o sono… pickwick
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Quinta-feira, 30 de Agosto de 2007
A mulher com cabeça de cabeça-de-fósforo – parte 1
Esta é uma história de fantasia e sei lá mais o quê, essencialmente disparates, outro modesto tributo à Carlinha, autora e escritora, com o mundo à sua frente.
 
Era uma vez uma jovem adolescente cuja cabeça era igualzinha a uma cabeça-de-fósforo: vermelha, áspera, combustível, explosiva, sem olhos, sem boca, sem nariz. Chamava-se Rusalka, em memória de uma sereia checa qualquer. Aos 17 anos, Rusalka sujeitou-se a uma operação plástica para tentar dar à cabeça uma aparência minimamente humana, mas os médicos conseguiram pouco mais do que uma sucessão de rejeições do organismo aos implantes. Dois anos mais tarde, Rusalka passou vários meses numa instituição científica que se ofereceu para conceber um manual de instruções para comunicação, que permitisse a qualquer ser humano normal comunicar com a jovem. Durante esta estadia na instituição, um dos médicos que acompanhou os trabalhos adiantou a remota hipótese de a aberração da cabeça de Rusalka poder ser “curada” com uma curta cerimónia descrita num livro de mistérios e lendas da natureza. Dizia este livro, escrito algures no século XVIII, que, nas altas e distantes montanhas de Tá Tá Lingsh, existe um animal misterioso, uma mistura improvável da natureza: o Kondilingsh, com catorze metros de comprimento, cabeça de crocodilo, corpo de libelinha e rabo de tigre-de-bengala. O Kondilingsh, apesar de ser uma aberração, é dotado de estranhos poderes, nomeadamente o de corrigir aberrações da natureza através de uma simples lambidela. Assim, e ainda segundo o livro, o portador da aberração deveria aproximar-se do Kondilingsh até ficar a cerca de 42 cm deste, bater palmas sete vezes, gritar “Ai Tá Tá! Moiumbé Lingsh Kondimar” e fechar os olhos. O Kondilingsh, então, daria uma lambidela na pessoa e, de um momento para o outro, a aberração desapareceria, dando lugar a um ser humano perfeitamente normal. Lenda ou realidade? Rusalka estava disposta a tirar a dúvida e arriscar. Aos 22 anos, e depois de 3 anos a treinar intensivamente montanhismo com o João Garcia, ali na Serra da Arrábida, Rusalka partiu para as altas montanhas de Tá Tá Lingsh, equipada com o seu manual de instruções para comunicação (MIC), uma mochila impermeável, um saco-cama-térmico, dezoito mudas de lingerie, um leitor de MP3 com o grito “Ai Tá Tá! Moiumbé Lingsh Kondimar”, um par de botas de escalada, um pack de preservativos de marca branca, e um saco de tremoços. Na aldeia de Shumyk, no sopé das montanhas de Tá Tá Lingsh, Rusalka contratou o hábil Ninini, caçador de caracóis, massagista e guia de montanha, mediante o adequado pagamento em tremoços e o solene compromisso de lhe conceder a primeira noite de sexo depois de ser curada pela lambidela do Kondilingsh. Ninini ajudá-la-ia a encontrar um Kondilingsh e a levar a cabo a cerimónia. Assim ficou combinado. Quatro madrugadas depois, partiram os dois, montanha acima, cada qual montado no seu burro-de-cauda-encaracolada. Seguiram-se seis tardes e duas manhãs, entre o sol das três da madrugada e a lua das cinco da tarde, na árdua subida das montanhas de Tá Tá Lingsh, apenas com umas curtíssimas paragens para tomar uma bica ou fazer as necessidades. A meio da sétima tarde e quase no fim da terceira manhã, Ninini descobriu o rastro fresco de um Kondilingsh adulto, a cerca de 14450 metros de altitude! Ninini sacou imediatamente dos seus óculos de visão diurna, fabricados em Macau com bambu e fundos de garrafas de cerveja Tsing Tao. Ao fim de algumas horas de perseguição, Ninini e Rusalka viram-se frente a frente com um Kondilingsh a comer pevides à sombra de um embondeiro. Que impressionante, o animal! Que imponente! Que vigoroso! A Mãe Natureza soube fazer a Sua obra. Ninini e Rusalka tiraram as botas de montanha e calçaram as pantufas em pele de pato que compraram em Shumyk por cinco tremoços cada par. Silenciosamente, Ninini conduziu Rusalka até esta ficar a escassos 42 cm do Kondilingsh. Tudo a postos para a cerimónia! (continua amanhã, no mesmo local, à mesma hora, com ainda mais disparates) pickwick
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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2007
Maria H., és uma vaca

No “Conta Coisas” conheci a Carlinha. Bom, “conheci” não é o termo mais correcto, dada a minha pouca predisposição para a conversa com raparigas desconhecidas vestidas de preto, por mais simpáticas que sejam. Aliás, minha falta de predisposição para a conversa aplica-se a quem quer que seja, vista preto ou branco. Deve ser um qualquer trauma de infância. Seja como for, a Carlinha é autora de dois livros, o que é muito bom, já que eu sou autor de zero livros. Um dos livros chama-se “Estrela Sem Norte” e é “composto por poemas, caracterizados por uma certa soturnidade e melancolia, quase como um reflexo do lado mais negro da vida”. Eu gosto especialmente da parte do lado negro da vida. Fascina-me, pronto. O outro livro chama-se “Alma de Fogo” e é uma história de fantasia, envolvendo magia, amor e vingança, num universo completamente diferente do nosso, onde quase tudo é possível. Gosto particularmente da parte da vingança, a tal que se quer servida fria. Pessoalmente, não gosto de poesia. Faz-me bocejar, pronto. Não critico, mas não tenho paciência. Embora haja momentos, claro. Se for necessário, também escrevo poemas, e, se tiverem que ser sobre o lado negro da vida, ui!, no problem, também cá se arranja! Para o provar, e também como um tributo à Carlinha, que é uma miúda simpática, vou compor já de seguida um poema sobre o lado negro da vida. Aqui vai. 

Maria H., és uma vaca

 

És uma vaca, por certo,

Tão certo como o vermelho do sangue

Que fizeste escorrer do coração do teu maior amor.

 

Queres tanto dos homens,

Como os homens querem de um Porsche,

Mostrar, exibir, passeá-los pela rua.

 

Não olhaste a sentimentos,

Não olhaste ao coração alheio,

Não olhaste a nada, para além de ti.

 

És uma vaca, portanto.

Com um lado mais negro

Que uma vaca alguma vez poderia ter.

 

Trocaste o amor

Pelo espelho de valores vazios,

Pelo retrato que a sociedade demanda.

 

Trocaste o amor

Pela falta dele, pela sua aberração,

Pelo desprezo do teu companheiro.

 

Trocaste o amor

Por uma obrigação,

Por um estatuto.

 

Enfim, és uma vaca,

Porque preferes o material

Em detrimento do sentimental.

 

E, tal como as vacas têm sorte,

Tu também a tiveste,

Em abundância.

 

Tiveste sorte, muita sorte,

Porque, se o teu amor fosse eu,

Esperava-te aí, numa rua escura,

Enchia-te de pancada,

Partia-te os dentes,

Arrancava-te os cabelos,

Furava-te os olhos,

Quebrava-te uma rótula,

Esborrachava-te o pâncreas,

Chamava-te vaca,

E deixava-te para aí,

Caída, moribunda,

A chorar, a mugir,

E ia comer umas febras com batatas fritas.

(este poema é dedicado a um amigalhaço, que muito sofreu com o lado negro - muito negro - de uma mulher) pickwick

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Terça-feira, 28 de Agosto de 2007
As tripas e as birras

Outro dia, fui até Vila Real, lá no norte, acima do Douro. Fui visitar um amigalhaço, ah e tal, e agora vou fazer publicidade. O amigalhaço tem uma loja de conveniência, ali relativamente perto do McDonald’s da cidade, na qual se vive um ambiente pouco tradicional. Chama-se “Conta Coisas” (http://coisascontadas.blogspot.com/) e é um mix. Vende artesanato. É aderente ao Comércio Justo. Vende preservativos a vinte cêntimos. É aderente ao Bookcrossing. Vende tripas. Apoia eventos culturais. Vende batas brancas com desenhos de animais, para estudantes de Medicina Veterinária. Se o cliente não for estudante de Medicina Veterinária, não faz mal, pode comprar a bata na mesma que o dono da loja não fica chateado. Também vende caixas decoradas artesanalmente. E chocolates. E mais não sei o quê. Eu, que sou um gajo muito esquisitinho, só dou consumo a duas coisas: a bela da tripa, e a bela da birra. A tripa, para os menos cultos, é uma coisa que se tornou famosa ali para os lados de Aveiro, sendo feita com aquela massa da “bolacha americana” ainda meio crua, recheada com qualquer coisa. Tradicionalmente, imponho eu, tripa que é tripa, é com ovos moles. Nada de morangos, nada de frutos silvestres, nada de bacon, nada de lagostins, nada de chocolate. Ovos moles é que é! Cai na chapa, solidifica, dobra para aqui, dobra para ali, a mando do mestre da tripa, é barrada com ovos moles, dobra para acolá, dobra para acoli, e serve-se com uma pitada de canela por cima. Inexplicavelmente delicioso. Eu já tenho idade para ter juízo e saber que não devia comer destas coisas, pois devia ter mais cuidado com a saúde e fazer uma alimentação equilibrada e rica em coisas saudáveis como alface, grelos, tomates, leite magrinho a saber a água choca, feijão verde, fruta, cenoura, água, chá, errr… não sei quê integral, fibras, errr… pronto, coisas assim. Devia saber, e sei. Mas, derivado do meu profundo problema com o Alzheimer, vejo-me frequentemente privado de todo o meu discernimento e capacidade de análise, pelo que, quando dou comigo, estou a ingerir quantidades astronómicas de porcarias que não fazem muito bem à saúde mas que sabem tão bem que um gajo fica num estado alucinado, a babar-se e a pedir por mais. Enfim, é assim com as tripas. É viciante. Antigamente, tinha que fazer 100 km até Aveiro para lhes poder sentir o cheiro. Mas, agora, basta fazer 100 km até Vila Real para lhes tomar o gosto. É que dá um gajo viver no meio dos montes: para qualquer coisinha, toma lá 100 km. Até para uma tripinha, que é tão docinha e sabe tão bem assim com ovinhos moles e nham e depois trinca-se e “hum!” e os ovos moles escorrem e é preciso ir a correr com os beiços e lamber tudo e depois já se pode trincar outra vez mas depois escapa-se mais um bocadinho de ovinhos moles e é preciso lamber mais um bocado e lambe e trinca e geme “hum…” e trinca e lambe e fica a ponta do nariz com canela e é preciso limpar a ponta do nariz com o guardanapo onde repousa a tripa mas com a habilidade a tripa inclina-se e escorre mais um fio de ovinhos moles e é preciso lamber e ah e tal e depois quando se acaba tudo um gajo está tão cansadinho destas coisas e tão fraquinho e tão diabético que é preciso logo logo logo a seguir pedir mais uma tripa para não desfalecer ali mesmo e tombar com os dentes na lousa do chão. Ah pois é! Vida difícil! Tripas à parte, e no âmbito dessa coisa bonita que é o Comércio Justo, no “Conta Coisas” vende-se uma cervejola especial de corrida com turbo, nas versões Scura e Chiara. Para os amigos, versões preta e branca. A marca é Birra. Ou não. Não sei, mas é o que diz no rótulo numas letras em tamanho XXL. É uma cervejola feita com arroz da Índia e quinua da Bolívia. Dupla fermentação. Coisas assim. Alguém sabe o que é quinua? Eu não sei. Podia ser bolacha Maria ou pasta de dentes. E o que é uma dupla fermentação? Alguém sabe? Eu não sei. Mas, quando um gajo bebe, dá a impressão que a segunda parte da fermentação desta cervejola vai ter lugar dentro do estômago, originando uma grande revolução e três dúzias de arrotos-à-pastor. E o que é um arroto-à-pastor? Trata-se de um arroto que pode ser libertado sem limites sonoros, nem condicionantes éticos, como se à volta não houvesse mais que ovelhas, pasto e chaparros. Mas, servida fresquinha, esta Birra cai no estômago como a cereja na nata. E, em cima de uma tripa, mais perfeito fica. Tripa, fica. Poxa, quase que rimava! Por falar em rimar, o “Conta Coisas” estava a ajudar a promover os livros de uma jovem autora e poetisa, a Carlinha, que estava na loja quando lá fui, o que me lixou a vida porque comi três tripas e bebi duas cervejolas e tive vergonha e não pude arrotar-à-pastor e isto de um gajo beber cervejolas e depois ter que reprimir a natureza é muito chato. Ai, como a vida é difícil!... pickwick 

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Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007
As maminhas vistas de cima

Na sequência da obsessão pelas maminhas, a qual não é exclusiva da minha pessoa ou de outros apreciadores do género, tenho mais uma constatação para trazer a esta praça. Tem que ver com a obsessão que as jovens raparigas vivem pelas suas maminhas. Jovens, raparigas, pitas, adolescentes, cachopas, garinas, etc. São elas que, mais do que ninguém, levam ao exagero a exibição continuada das respectivas maminhas, com a estranha conivência dos pais e das mães e dos avôs e das avós. Não há miúda que se preze que não traga metade das maminhas em regime de arejamento e bronzeador. A modelagem tipo bola-de-berlim-sem-creme é feita, presumo eu, na privacidade dos quartos – esses cantinhos da intimidade de cada adolescente -, através de auto-apalpadelas, tendo por base os modelos já em exibição nas telenovelas dos canais nacionais. O modelo de maminha com maior sucesso deve ser o bola-de-berlim-sem-creme-morangos-com-açúcar, obviamente. Aliás, as miúdas cada vez mais cedo aparecem com maminhas bola-de-berlim-sem-creme-XXL, em idade de terem apenas algo parecido com um Ferrero-Rocher-tímido. Explica-se? Claro, segundo a teoria do Almeida, meu ilustre colega de escola. O Almeida era perito em descobrir quem eram as miúdas lá da escola que andavam a ser apalpadas pelos namorados ou amigos secretos. Na altura ainda não se colocava a hipótese de serem apalpadas pelas namoradas ou amigas secretas, mas iria dar no mesmo. Com aquele olhar clínico, chamava-me à atenção para uma qualquer: ‘tás a ver a fulana-tal?, hoje tem as maminhas maiores do que na semana passada, por isso, anda a ser apalpada pelo namorado. E a fulana-coisa?, ‘tás a ver?, hoje tem as maminhas mais pequenas que na semana passada, quer dizer que deve ter acabado com o namorado. Eu fazia de conta que tirava milimetricamente as medidas às maminhas das nossas colegas, pelo canto do olho, acenava com a cabeça, fazia “hum, hum”, qual Dr. Watson a coadjuvar brilhantemente o Sherlock-Holmes-das-maminhas. Bom, em resumo, a teoria do Almeida era de que, quando se apalpavam as maminhas das miúdas, aquelas cresciam e assim se mantinha durante vários dias. Almeida, estavas lá, pá! Bem, no meio disto tudo, maminhas e coisas assim, há um outro pormenor que se configura, também, como um padrão. Falo das fotografias que as miúdas tiram a si próprias. Sistematicamente são tiradas num plano superior, com o objectivo óbvio de fazer sobressair as maminhas em relação a tudo o resto. Sistematicamente, as mocinhas aparecem com um decote obsceno, metade das maminhas ao léu, a olharem para cima, para o alto, para a máquina fotográfica que seguram na ponta de um braço bem esticado, como se estivessem a agarrar o Bruno Nogueira pelo cachaço e a obrigá-lo a afundar o queixo no externo, ali mesmo, entre as duas barbas de baleia do soutien. Sistematicamente, repito. Aqui há cerca de 2-3 anos, a moda era estenderem-se na cama e tirarem a fotografia no mesmo plano do corpo, como se estivessem a olhar languidamente para o namorado que vem do WC a gatinhar para a cama com as unhas em riste, a pila ao pendurão e os pêlos do peito cuidadosamente arrancados. Hoje, a fotografia tira-se de cima. Quem a vê, avalia imediatamente as dimensões das bolas-de-berlim-sem-creme, expostas descaradamente. As maminhas vistas de cima! Sem pudor. E os pais? Não sabem que as miúdas portuguesas tiram milhares de fotografias eróticas às respectivas maminhas semi-cobertas, para depois as colocarem na Internet? Os pais, pagam as máquinas fotográficas, pagam os computadores e pagam a Internet. E as mães? Essas, vão com as miúdas às compras e pagam-lhes os tops minúsculos, os soutiens sofisticados e as blusas decotadas. Ah e tal, está na moda! Não quero ser conservador, mas isto vai de mal a pior, digo eu. E alguém sabe de onde veio esta moda de tirarem os auto-retratos de cima, com as maminhas ao léu? É de alguma telenovela? É das revistas para pitas? Quem começou esta coisa? E qual vai ser a próxima moda dos auto-retratos? Foto do mamilo tapado com um malmequer? Foto do umbigo com uma framboesa em calda? Enfim… pickwick

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Domingo, 26 de Agosto de 2007
A obsessão pelas maminhas

Tenho andado a reparar que há uma obsessão teimosa e generalizada pelas maminhas, esses seres maléficos e endiabrados que se apresentam aos pares. Julgava eu, na minha inocência, que a ávida e selvagem obsessão pelos pares de maminhas era coisa só minha, um monstro psicológico criado na infância em resultado directo do contacto demasiado frequente com maminhas ao léu nas praias e parques de campismo do Algarve. Não, não é um monstro. Não, não me afecta só a mim. Para além de também afectar outros apreciadores da especialidade, afecta, em grande escala, as suas portadoras. Isto é, as portadoras das maminhas. Ou seja, as senhoras. Ou seja, o que eu quero dizer, sem querer ofender ninguém, isto é, sem querer ofender nenhuma senhora, ou menina, ou cachopa, seja galdéria ou mais séria que uma Santa, é que, a bem dizer, o sexo feminino tem uma obsessão intensa pelas respectivas maminhas. Cada qual, com as suas, mas, também, cheira-me, com as das outras, ou não fosse a mulher comum uma magnata da cobiça. Veio-me esta crença à lembrança depois de um estudo rigoroso e científico, ao longo de vários meses. E, pergunto a mim mesmo, como nasceu a queda para esta crença? Bom, acredito que tenha começado de forma inconsciente, pelo contacto mundano e quotidiano com incontáveis seios arredondados, em forma de bola-de-berlim-sem-creme, esferas perfeitas, quais bolas de cristal forradas a pele com aroma a baunilha e morango e rosas e outras mistelas com que as mulheres se perfumam. Semi-esferas carnudas, constantemente a apanharem sol e aragem, firmemente suportadas por evoluídas armações e complexos sistemas. Evolução e complexidade, é o que é. Pelo menos, é o que se deduz com uma leitura atenta de algumas descrições. Ah e tal, “invisível graças às suas copas moldadas”. Não sei quê, “alças amovíveis multiposições, duas posições de alças para cada copa à frente, para variar a profundidade dos decotes”. E tal, “barbas de baleia dos lados e barra antideslizante para assegurar um bom suporte”. Pois, e “colchete triplo atrás”. E também, “forro fino em microfibra”. Já agora, “muito elástico e com memória de forma, adapta-se às suas formas, segue todos os movimentos, realça o peito para um decote bonito e, finalmente, é completamente invisível sob a roupa”. Depois, “alças amovíveis com pequena mola atrás que permite transformá-lo em costas à competição”. Não há que ter dúvidas: há uma obsessão profunda das mulheres pela aparência das suas maminhas, e o resto é conversa. Tanta esfera, só podia ser. Aliás, é incrível como praticamente não se vêem maminhas espalmadas! Claro, há excepções, como o caso dramático e enjoativo da minha colega de trabalho, a tal loira dentuça, que continua a insistir na dispensa do uso de suportes, deixando que as maminhas descaiam quase até aos joelhos, dentro de vestidos e blusas escandalosamente decotados. Mas, bom, essa é uma excepção à generalidade, para a qual já deixou de haver esperança: nem para as maminhas, nem para aqueles dentes em forma de carapau-frito-em-curva. Fora esta excepção, a generalidade é mesmo as bolas-de-berlim-sem-creme. É bom para a vista, tenho que reconhecer. Dá um aspecto agradável, tipo teenager-18-maminha-rija. No capítulo dos sonhos, saltita entre aquele sonho que todos temos de comer alarvemente duas bolas-de-berlim-com-creme no meio da praia à mistura com incomodativos grãos de areia e um aroma no ar a protector-solar-20-aroma-pêssego, e aquele sonho que todos temos de que a consistência das maminhas aos dezoito anos seja eterna ou pelo menos até aos quarenta e nove anos. Antigamente, quando esta obsessão não estava tão implantada, circulava-se na rua ou no trabalho e, cá para com os nossos botões, comentávamos: ui!, tão direitinhas!, oh!, chegam ao umbigo!, eh lá!, que par!, chiça!, que foleiras!, e por aí fora. Não havia monotonia, portanto. Ora se chocava com a decepção da maminha-espalmada, ora se tonificava o olho com a alegria proporcionada por duas bolas-de-berlim-sem-creme. Hoje, a vida é um tédio. O cérebro dos apreciadores e das apreciadoras desta temática parecem a praia numa tarde de verão, com os vendedores de bolas-de-berlim a fazerem-se anunciar repetidamente, sem concorrência. Bolas-de-berlim, bolas-de-berlim, bolas-de-berlim… Não há um palmier, nem um caracol, nem um pudim tremelicando debaixo de uma blusa. pickwick

publicado por pickwick às 00:39
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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007
Ó Nélia, esquece lá isso

Depois de umas horas ao volante pelas estradas portuguesas pouco abaixo do rio Douro, cruzando-me com mais matrículas estrangeiras do que nacionais, ouvindo a Rádio Comercial e outras estações não tão nobres onde aquela peca em cobertura, os meus pensamentos voaram até uma vedeta que circula por aqui e por ali, enchendo-se de dinheiro e fama às custas dos consumidores. Falo da Nélia, essa estrela da canção esganiçada. E, nada de confusões: é Nélia Furtado, e não Nelly Furtado, ok? Se os brutos do continente dos mustangs não sabem soletrar o “a” no final do nome da rapariga, problema deles! Aprendam! Broncos! Ora bem, como já toda a gente deve ter reparado, a Nélia é, também, vedeta de um spot que costuma passar na Rádio Comercial, em que diz não sei quê, ah e tal, pisca o olho, e acaba com “bêjinhus”! E aqui é que está! “Bêjinhus”? Mas que raio é isso, Nélia? Será que queres dizer “beijinhos”? Tipo beijocas, choca-beiças, ou coisa do género? Vou acreditar que sim. Assim sendo, ou seja, partindo deste pressuposto, devo dizer-te, Nélia, que não estou interessado nos teus beijinhos. Embora não te conhecendo pessoalmente, devo dizer que, quando te ouvi pela primeira vez a distribuir beijinhos na rádio, tive que ir à Internet procurar umas fotografias tuas, para ver como tu eras, para ver se tinhas uns lábios sensuais, para ver se valeria a pena receber beijinhos teus. Como não tenho televisão em casa, tenho que me socorrer destas modernices, percebes? No princípio desta pesquisa, comecei a ficar fascinado. As imagens que apareciam mostravam uma brasa, um mulherão daqueles de fazer resfolgar o mais fogoso dos garanhões, uma deusa. Enfim, pouco depois descobri a verdade: tudo não passava de transfigurações, ou por maquilhagem, ou por fotomontagem. A verdade é que, em pouco tempo, descobri o teu verdadeiro “tu”. Uma fulana vulgar, demasiado vulgar, tipo lavadeira de terraços, feições mal feitas e desproporções corporais. Não é que eu seja esquisito, mas é que é mesmo assim. Até senti arrepios, vê lá tu, ao imaginar um beijo teu, frio, insensível, desumano, pegajoso, mórbido, besuntado. Lábios feitos de sola de sapato, secos e sem sabor. Um nojo! Isso de ah e tal umas cantigas e umas maquilhagens podem convencer o povo, mas não me convences a mim. Mulher que é bonita, salta à vista sem qualquer maquilhagem. E essas, são raras. O resto, é como tu: só brilham com um jeitinho. Um grande jeitinho! Depois, quem acordar no dia seguinte ao teu lado na cama, que se amanhe e reze para não sofrer de problemas cardíacos. Não leves a mal estes rasgos de sinceridade. Antes de viveres ofuscada pelas luzes da ribalta, por certo tinhas espelho em casa e sabias muito bem o que lá encontravas. Compreendo que, agora, te seja difícil recordar esse passado pouco ofuscante. Eu, se de repente começasse a vender milhões de discos e a andar misturado com estrelas e a usar pó de arroz e a besuntar as beiças diariamente com batom psicadélico e a posar para fotógrafos profissionais, acho que também me convenceria que era um rapaz estupendamente lindo e bem feito e atraente e incapaz de tirar macacos do nariz. Aliás, acho que me bastava vender uns milhares de discos e começar a usar batom para ter, em poucas semanas, dezenas de fãs histéricas e babosas, a aparecerem nos meus concertos com placas gigantes a dizer “you’re hot” e “come and eat me” e outras frases igualmente românticas. Até que, um dia, quiçá, surgiria uma bloguista do contra, que teceria comentários pouco abonatórios e pouco dignos da minha condição de estrela, argumentando com o meu mau aspecto natural, as minhas olheiras permanentes, o excedente de peso, blá blá blá, e depois eu teria que descobrir quem era a safada e apanhá-la e dar-lhe uma carga de pancada e partir-lhe os dentes e arrancar-lhe o cabelo e metê-la a assar num micro-ondas. Felizmente, para evitar toda esta turbulência, com batons e arraiais de pancadaria, fico-me pela futilidade da minha existência, deixando para ti toda a diversidade de variáveis que vêm por acrescento à fama, incluindo gajos chatos a fazerem tratados científicos sobre as tuas virtudes. É a vida! Seja como for, ó Nélia, esquece lá isso dos “bêjinhos”, está bem? pickwick

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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2007
Single?
Por motivos de ordem variada, o nosso querido espaço de divulgação de pensamentos passou a ter, desde há já várias semanas, um cantinho reservado a publicidade alheia. É bonito, porque damos oportunidade a outros para se promoverem às nossas custas. Não faz mal. Nós deixamos, somos bons rapazes e gostamos de tremoços. Ora, calha que uma das publicidades que frequentemente aparece é de um site dedicado ao engate. Meetic.com ah e tal all you need is love, e mais não sei quê. Já andava curioso, depois de tantas vezes ver a publicidade, até que um dia não aguentei mais, como se estivesse à rasquinha para ir à coisinha, e lá fui espreitar ao site. Meu deus! Aquilo é um mundo! São milhões e milhões e milhões e mega-milhões de gajas, de todo o mundo e mais algum canto, de todos os feitios e defeitos, loiras e morenas, dentes mal postos ou sem dentes, russas ou negras, com filhos ou sem borbulhas, enfim, é como se quiser, dos 35 aos 335 quilos, tudo a postos para um engate cibernáutico. E eu a pensar que a malta ainda ia aos bares e às discotecas e aos bailaricos. Qual quê! Vai tudo ao Meetic! Posso dizer que fiquei fascinado. Inscrevi-me, todo pimpão, e já tive meia dúzia de “icebreakers”, todos provenientes de gajas com um ar muito suspeito, provavelmente sem uma perna, ou sem as duas, com 1,19m ou a habitar para lá da Lua. Para entrar em contacto com as beldades é necessário desembolsar algumas dezenas de euros, porque isto de providenciar engates chungas tem que dar dinheiro a ganhar a alguém. Que fiquem lá com o dinheiro. Vasculhar os milhões de fotografias já é um divertimento mais que suficiente para uma mente avariada como a minha. Para quem não tenha mais nada para fazer, também aconselho vivamente esta actividade. Encontram-se coisas espantosas! Vejam só, que até encontrei uma das minhas colegas de trabalho, toda engatatona, com o seu cabelo loiro, e sem que se note os 100 kg de presunto que transporta nas ancas. A diversidade é tanta, que o visitante é tentado a organizar-se mentalmente por categorias. Escolhi três, para partilhar com os nossos leitores. Tudo muito soft.
Categoria Assim, Sim
Categoria Xô! 
Categoria Kiss Kiss
pickwick
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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2007
Memórias à esquerda
Outro dia fui a Inglaterra. Como quem vai ali a Coimbra beber uns copos. Vai-se bem de avião até Inglaterra, naqueles voos suspeitos, baratos, com mais hospedeiros do que hospedeiras. Aliás, nestes voos, não há hospedeiras. Há, apenas, umas sopeiras que se vestem como quem vai para um desfile de Carnaval, com roupas pedidas às amigas e primas. Numa companhia de aviação a sério, a circulação das hospedeiras pelos corredores tem mais audiência do que qualquer outro acontecimento a bordo. Nestes voos baratos, bem, só nos resta olhar para os decotes das companheiras de viagem, quando as há, ou mirar pela janela, para o infinito, entre dois suspiros de infelicidade. Nestes voos baratos, não há sofás: os bancos têm ar de bancos de jipe, duros e desconfortáveis, com cintos de resistência duvidosa. Não oferecem comida, nem bebida, nem sequer um copinho de Coca-cola; uma sandocha ordinária custa tanto como uma ida a um rodízio à brasileira. Tudo tem um ar suspeito e, tanto na ida, como na vinda, ia jurar que um dos hospedeiros de bordo era larilas. Se calhar fiquei com essa impressão por causa daqueles gestos que são obrigados a fazer para fingirem que explicam como é que os passageiros se salvam no caso de o avião cair ou chocar contra o Big Ben.
 
À saída do aeroporto, já agoniado com tanta gente doente com quem me cruzei e que abunda naquelas paragens, esperava-nos um carro alugado. Uma bomba, um Fiat Punto novinho em folha. Já passava da meia-noite, o que era uma vantagem para quem se ia iniciar na condução à esquerda.
(Bom, iniciação, não é bem. Em tempos idos, há mais de duas décadas, vivi uns anos num lugarejo onde se conduzia pela esquerda. Na altura, ri-me que nem um perdido no banco de trás do Honda da família, enquanto a minha mãezinha treinava a condução à esquerda, a bater constantemente com o braço direito na porta à procura da manete das mudanças, a guinar o carro de um lado para o outro e a praquejar como se fosse a conduzir uma carroça puxada por mulas teimosas. Depois habituou-se. Eu, na altura, também me habituei a conduzir a bicicleta pela esquerda, até porque, quando se é jovem, tudo é mais fácil de aprender. Embora, devo confessar, o regresso a Portugal tenha sido marcado por alguns incidentes menores, com a minha pessoa a protagonizar momentos de grande emoção ao entrar rua-sim-rua-não em sentido contrário, a pedalar ferozmente na minha bicicleta, completamente baralhado com os sentidos.)
 
Sair do parque de estacionamento até não foi muito difícil. O carro cheirava a novo, o que ajudava a aumentar o stress. Logo na primeira estrada que apanhámos, o meu co-piloto deu largas à fome que o vinha a assaltar desde a saída de Portugal, engolindo de forma selvagem apetitosas batatas fritas de origem suspeita. Eu só queria que o meu co-piloto me co-pilotasse e me repetisse “pela esquerda! pela esquerda!” para eu não fazer nenhuma asneira… mas não… limitou-se a encher-me a boca com batatas fritas e a voltar a encher a dele com o mesmo repasto. Às tantas, sucumbi ao stress de conduzir pela esquerda, de noite, a bater constantemente com o braço direito na porta, com um fedor a fritos no ar; e parei o carro. Para comer, claro. Finda a comida, arrancámos, sendo que o meu co-piloto prestou-se ao auxílio que lhe competia, com um sorriso sádico em face da minha atrapalhação ao volante. Até que entrámos numa auto-estrada. A partir daí e praticamente até acabar os 250 km de viagem até à costa, o meu co-piloto não fez mais nada senão roncar. Enfim. Achas bem, ó co-piloto?
 
Chegámos ao destino por volta das cinco e tal da madrugada. A cidade portuária dormia. Só umas gaivotas se armavam aos cágados, a darem às asas feitas doidas. Dei uma volta pela cidade, para fazer o reconhecimento ao local, ver pontos-chave para o dia, fixar referências e apreciar os barcos. Fui estacionar o bólide já na periferia do centro, numa zona habitacional, onde não se podia estacionar mas eu só ia parar para roncar um bocado. Lá para as 8h00, já não se podia. A calmaria da cidade foi substituída pela rotunda do Marquês do Pombal em hora de ponta. Que confusão. E tudo pela esquerda. Felizmente, o programa do dia era para andar apeado, daí que fomos deixar o carro ainda mais além, perto de umas casas, onde, finalmente, não havia proibição de estacionar. Desde o ali até ao mais além, note-se, foi um caso sério, um drama rodoviário, com cruzamentos pela esquerda, rotundas pela esquerda, setas pela esquerda, pombas e gaivotas, avenidas e bicicletas, uma grandessíssima confusão!
 
A pé anda-se melhor, naquele país. Fomos apanhar um barco para uma ilha, onde fica uma espécie de reserva natural que queríamos visitar. Era Julho, estávamos em Inglaterra, mas havia mesmo necessidade de chover torrencialmente e fazer uma violenta ventania e o mar estar todo picado e o barco ir carregado de pessoas e bagagens? Claro que não. Mas foi assim mesmo! Sem condições! Na ilha, não havia animais. Só pavões pirosos. E árvores. E gente. Fomos enganados. Os ingleses não têm noção do que é uma reserva natural. Tem que ter javalis, raposas, ratos, cobras, sapos, mais javalis, doninhas, mais ratos, lagartos, caçadores, piqueniques, carros com casalinhos em movimentos suspeitos, lixo, mais ratos, pescadores, preservativos usados, açores, pardais, codornizes, patos bravos, garrafas de água vazias, melros, latas de atum ferrugentas, formigas, rãs, beatas, etc. Os ingleses não percebem nada disto! Enfim.
 
E comida? Bem, para começar, em Inglaterra não há ingleses. É tudo um mix de gente. Logo, não há gastronomia britânica. Se houver, por favor, não lhe chamem gastronomia. Chamem-lhe outra coisa qualquer. O remédio, era mesmo comer no belo do Mac. O menuzinho Big Mac, a cocacolinha frescola e a batatinha fritola. E o café! Que nojo! Servem os cafés logo pela manhã em baldes, com sabor a… a… a baldes de meter a esfregona e limpar o chão, é o que é! Aquilo não parece um país. Parece é o Algarve. Ou o Allgarve. Ou whatever! Até no supermercado tudo tem um ar suspeito. Bom, tudo, não. No supermercado, o que choca mesmo é a falta de guardanapos, esse instrumento de utilidade múltipla e fineza imensa. Francamente, um gajo ao fim de oito minutos dentro de um supermercado naquele país fica com uma vontade quase incontrolável de começar a derrubar prateleiras, pegar fogo às hortaliças e estilhaçar tudo o que é de vidro. Mais valia ir daqui com umas latinhas de Bom Petisco e três chouriças para assar.
 
Preços e lojas são mais duas coisas que se me ficam aqui atravessadas. Tudo é caro. Um gajo quer sacudir a pilinha num mictório, toma lá 20p! Um pêssego, toma lá quinhentos paus. À hora de começarmos a descobrir as lojas que interessavam, estão elas a fechar, ainda a meio da tarde, com os vendedores a rumarem não sei para onde, provavelmente para o descanso das suas casas. Onde é que os ingleses passam o tempo?
 
Resta terminar com a constatação de que a cueca-fio-dental está em Inglaterra para ficar. Descaradamente! Daqui a muitos anos, o estudo universitário de um conceituadíssimo cientista revelará alterações evolutivas no corpo das mulheres inglesas, resultantes da fricção sistemática do fio dental da cueca com o mesmo nome. Em que se vai transformar toda aquela depressão geomorfológica entre-nádegas que abrange o mítico buraquinho-onde-o-sol-não-brilha? Uma imensa crosta? Mulher que se preze, não deve insistir na cueca-fio-dental. Se gosta da sensação, que convide o parceiro, amigo ou vizinho, tanto faz, para, com o suave toque das pontas dos dedos, fazer-lhe o gostinho. pickwick
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Terça-feira, 14 de Agosto de 2007
Serra abaixo, serra acima
Para finalizar mais um dia de séria labuta no patronato, tivemos a sempre divertida visita da loiraça dentuça, esse belo exemplar de gaja que devia submeter-se a um processo intensivo de recauchutagem geral. Para variar, trouxe uma mini-saia toda na moda, sendo que o meio palmo superior da saia era de ganga e o meio palmo inferior da saia era de folhos, tipo anos-50-como-eu-queria-ser-apalpada. Sinceramente, se não fosse aquela armação de dentes a esticar-se cá para a frente, até fazia as delícias ao olho. Mas, assim, não obrigado. Não bastante a mini-saia nova, a loiraça trouxe-nos uma caixa de bolinhos, obviamente num descarado gesto de passar-nos graxa no céu da boca. Malandreca! Deves pensar que nos compras com bolos baratos, deves. Bom, de regresso a casa, final da tarde, numa daquelas viagens fantásticas entre a nostalgia de um passado glorioso e a desilusão de um presente mórbido, decidi-me por um futuro arrebatador, a começar logo daí a parcos minutos. E assim foi. Chegado a casa, troquei de indumentária, algo mais informal e desportivo, mochila às costas, e fui à garagem ver das minhas fabulásticas duas rodas. Coitada da bicicleta. Da última vez que esteve a uso, há uns meses atrás, a coisa não correu muito bem, choveu até mais não, e caiu a noite, enfim, um desespero. Hoje, tinha os pneus em baixo, sinal de falta de uso. Nada que não se resolvesse. Daqui, do cimo da minha aldeia, embalei o velocípede serra abaixo, em direcção ao rio Mondego, pelos trilhos que abundam entre pinhais e eucaliptais e mato. Quase atropelei uma matilha de cães sem dono que batiam uma sesta à sombra de umas mimosas. Passei ao lado do posto de trabalho de uma nova meretriz, que por azar não estava de serviço. Desci, desci, desci. Como é bom descer. Cansa mais os dedos nos travões do que as pernas a dar ao pedal. É relaxante. É fácil. Um gajo sente-se bem com os astros, acha que agora é que vai dominar o mundo, e tem quase a certeza que quando chegar a casa já está com um corpo fibroso, musculado e irresistível, ao qual sucumbirão resmas de donzelas. Depois chega-se lá abaixo, à beira do rio, circula-se mais umas centenas de metros na horizontal, a acompanhar o leito, e acaba-se a brincadeira. Na Póvoa-de-não-sei-quê, termina a horizontalidade do asfalto e é tudo a subir até São não-sei-quantos do Monte. Um gajo pára vinte e nove vezes pelo caminho, a arfar que mais parece que vai saltar um porta-aviões de dentro dos pulmões. Soltam-se pragas, o corpo musculado dá lugar a um excesso de peso embaraçante, a vida torna-se cinzenta, resmunga-se pela compra idiota de uma bicicleta sem motor, tenta-se disfarçar o desespero com uma exclamação de admiração pelo pôr-do-sol magnífico e as pernas não dão mais. Ali, a única coisa positiva é o reconhecimento da inteligentíssima escolha do trajecto: na Póvoa-de-não-sei-quê um gajo passa com o vigor todo de quem ainda não deu aos pedais, para apanhar uma estrada onde não passa ninguém e na qual pode parar-se quantas vezes forem necessárias sem passar vergonhas. A chegada a São não-sei-quantos do Monte teve que ser teatral, valendo as duas centenas de metros na horizontal que antecedem a aldeia, para recuperar o fôlego e dar um ar de garanhão. No verão, estas aldeias enchem-se de emigrantes saudosistas, cheios de filhas topo de gama com saias e vestidos adequados ao calor intenso, cabelos pintados de loiro e chinelos no pé, ansiosas por sexo fácil entre dois fardos de palha. Olé! À entrada de São não-sei-quantos do Monte, a filha ninfomaníaca e meia despida de um emigrante foi substituída por uma miudinha de sete anos, que ficou de boca aberta ao ver-me pedalar pela rua principal acima, que, naquela zona, era bem íngreme. Exclamou “Ah!”. Porquê? Mas, “Ah!”, porquê? Raio da miúda! Já não há respeito? Podia ter uma irmã com dezanove anos e ir chamá-la para ver aqui o candidato a garanhão a passar na rua, não podia? Podia, mas não foi. Enfim. Já não fazem miúdas de sete anos como antigamente. Adiante, rumo à minha aldeia, ainda passei por uns quantos lugarejos e aldeolas, felizmente já num planalto confortável, para poder dar ao pedal e manter o ar de garanhão. Correu bem, num dos lugarejos, ao passar à beira de uma capela, ao lado da qual estava uma gaja toda boa à espera de não sei quem. Correu mal, porque era a descer e eu devia ir pelo menos a 190 km/h. Tão depressa que ela nem me viu. Raios partam a minha vida, a comprar bicicletas demasiado velozes. Depois, dá nisto. Após duas horas montado no selim, cheguei à porta da minha garagem. Se houvesse elevador, tinha-o apanhado para o 1º andar. Um gajo já não tem idade para estas brincadeiras em cima de duas rodas. Depois do jantar fui levar o lixo à rua e estava a ver que caía pelas escadas abaixo, sem força nas pernas. A minha sorte é que não há gajas espalhadas pelas escadas e um gajo pode cambalear à vontade. A minha sorte é que não há gajas a fazer tempo à beira dos contentores do lixo e um gajo pode gemer por todos os lados só para erguer a tampa do contentor. A minha sorte é que não há gajas na minha rua e ponto final. pickwick
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