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Terça-feira, 31 de Agosto de 2004
A ticket to the clouds
Um bilhete para as nuvens, em português. Não sei como se diz em transalpino, mas não deve interessar. O que é certo é que há dias em que temos de fazer este tipo de viagens. A viagem até sai barata: uns batimentos a mais no coração e está pago o bilhete. Por isso, não há desculpas para nos escaparmos a uma, de vez em quando. Fala a voz da experiência, ou não tivesse eu mesmo empreendido uma destas ainda agora. Cada viagem é uma viagem, mas cada qual merece ser contada, ou não fosse uma viagem às nuvens um acontecimento memorável que não se apagará da memória nas décadas mais próximas. Esta foi. Nas nuvens temos um tratamento cinco estrelas. Sempre. Mal cheguei, fui imediatamente recebido por uma sereia, que me acompanhou o resto do dia. O mais fantástico de tudo é que os organizadores destas viagens conseguem arranjar uma sereia igualzinha à pessoa com quem mais gostaríamos de estar. Igualzinha, tal e qual, em tudo. E, como bónus, não traz aquele rabo de peixe nojento que faz da sereia uma gaja que começa a cheirar mal quando passa mais de vinte minutos fora de água. Enfim, um luxo. Esta sereia, então, tratou-me com todos os luxos. Ainda antes de eu sair fora do trenó voador, encaminhou-me para uma praia paradisíaca, de águas límpidas e quase deserta. E sim, nas nuvens também há praias. Assim que meti pés em terra e dei uma dúzia de passos, esta sereia chegou-se ao pé de mim e deu-me um daqueles abraços de suster a respiração e desejar que o tempo pare. Calhou bem, até, porque ela era precisamente igualzinha à pessoa que eu mais queria abraçar. Os tipos da organização são o máximo! De seguida, esta maravilhosa sereia levou-me para dentro de água. Impecável. Temperatura excelente, e conseguia ver-se facilmente o fundo, apesar das nuvens. Ah! E a sereia, dentro de água, não lhe cresceu o rabo. Pelo contrário, continuava com aquela silhueta feminina e sensual que me fazia querer trepar à Ilha do Pico e ficar por lá a uivar uma semana seguida. Entretanto, e porque o tempo nas nuvens passa incrivelmente depressa, chegou a hora do almoço. De volta ao trenó voador, a sereia leva-me por entre as nuvens, por caminhos que só ela conhecia, até ao local do repasto. Sim, nas nuvens também há restaurantes. Os gajos da organização não brincam em serviço, atenção. E come-se bem, ainda por cima. Bom, bucho cheio, e a sereia não perde tempo a encaminhar-me para outra praia. Se a primeira já era de morrer, esta então, foi de ficar de boca aberta. Para ser sincero, não era só de olhar para a praia que eu ficava de boca aberta. Aquela sereia… enfim… Mas acho que ela não se importou. Fazia assim um ar de envergonhada, por eu estar a olhar para ela assim descaradamente, mas aquilo era mais forte que eu. Ela era mesmo igualzinha à pessoa para quem eu mais queria ficar horas seguidas a olhar. Aqueles tipos da organização, pá, são profissionais. A sério! E como ela sorria, eu mais descarado ficava. Foi um bocado de abuso, eu sei, mas um gajo quando viaja até às nuvens é mesmo para não serem as coisas como cá em baixo, na terra. Enquanto se esperava pelo fazer da digestão, bom… eu nem digo… alguém pode ler isto e… enfim… mas não me lembro de ter fechado a boca. Lindo, lindo! Uns momentos daquele silêncio embaraçoso, aqui e além, mas nada de dramático. Depois, a digestão fez-se e havia que experimentar novas águas. É incrível como nas nuvens há tantas praias e com águas tão límpidas. A sereia também foi dar uns mergulhos comigo, novamente. E, novamente, não lhe cresceu o rabo de peixe. E, novamente, insistia em continuar com aquela silhueta, aquele corpo que… enfim… Nestes momentos, eu fico com a impressão que os gajos da organização também exageram. Imagine-se só, se eu sofresse de problemas cardíacos? Tinha lá ficado esticadinho no fundo das águas. De certezinha! Ainda assim, um gajo fica meio com tremores, meio sem saber o que fazer. Uma sereia, é uma sereia, mas quando uma sereia é igualzinha à pessoa com quem mais gostávamos de dar uns mergulhos… uiii… parece que de repente as nuvens desaparecem e dá aquela vertigem de quem olha lá de cima cá para baixo sem nada pelo meio a que nos agarrar-nos… E, como qualquer viagem, esta também teve um fim. A sereia, com aquele sorriso non-stop naquela carinha igualzinha à pessoa que eu mais gostava de ver a sorrir, acompanhou-me de volta ao trenó voador e deu-me outro daqueles abraços em que queremos encontrar rapidamente o telecomando do vídeo para podermos carregar no botãozinho do “pause” e perpetuar o momento. Não encontrei o raio do telecomando. Meti-me no trenó e vim-me embora. Mas os gajos da organização são uns porreiros. A sereia ainda estava encarregue de me acompanhar durante mais uns minutos ali pelas nuvens, tipo passeio de despedida. Devia ser para o choque não ser muito grande, assim cair abruptamente fora das nuvens e com os pés na terra. Assim foi mais suave. Na última nuvem, a sereia fez-me parar o trenó só para me indicar o caminho de volta para a terra e para me dar um beijinho de despedida. Aqui, os tipos da organização estiveram mal. Ó pá, que metessem outra sereia a fazer a despedida, sei lá, uma feiosa com rabo de peixe a cheirar mal por estar há mais de cinco horas fora de água, ou qualquer coisa assim. Mas nunca uma sereia igualzinha à pessoa de quem eu menos tinha vontade de me despedir. Tenham dó! pickwick
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publicado por riverfl0w às 00:13
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Segunda-feira, 30 de Agosto de 2004
Saudade é...
“Saudade é o ar que vou sugando e aceitando como fruto de Verão nos jardins do teu beijo...” é o que diz aquela cançãozinha que agora está na moda, dos Laranja ou lá que fruto são eles que agora não me lembro. Não percebi nada do que eles querem dizer com esta frase, mas enfim, o poeta é um bom poeta. Entretanto, e porque fiquei curioso, assaltei as prateleiras da Internet em busca da definição. É uma colagem, eu sei, mas não resisti a ler o que outros escreveram sobre o assunto. E aqui vai:
Saudade é o abraço ausente de alguém que está presente em você. Saudade é solidão acompanhada, é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já. Saudade é a 7ª palavra mais difícil de traduzir. Saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca, é não ver o futuro que nos convida. Saudade é sentir que existe o que não existe mais. Saudade é o inferno dos que perderam, é a dor dos que ficaram para trás, é o gosto de morte na boca dos que continuam. Saudade é doce contacto da ausência de quem queremos. Saudade é presença ausente de alguém que queremos junto. Saudade é querer sempre com alguém estar. Saudade é verdadeiramente um vazio que teima em ficar. Saudade é um doce ácido que dói, uma dor extremada. Saudade é sentar-se à sombra, triste e ficar aguardando a amada. Saudade é sentir com a alma o coração que faz falta sentir. Saudade é querer ficar na calma, mesmo precisando ir. Saudade é lembrança de alguém distante. Saudade é querê-la perto sabendo que a ausência é constante. Saudade é sentir a tua falta quando não estás aqui comigo. Saudade é olhar em seus olhos, com o sentir maior do que amigo. Saudade é procurar suas palavras gravadas em algum papel. Saudade é sentir felicidade mesmo provando do fel. Saudade é saudade que, doce mesmo não é. Saudade é saber viver trazendo no coração a fé. Saudade é um pouco de fome, só passa quando se come a presença. Saudade é um aperreio p’ra quem na vida gozou, é um grande saco cheio daquilo que já passou. Saudade é canto magoado no coração de quem sente. Saudade é o trajecto do mar em nosso peito, o desassossego em nosso olhar, quando tu não estás. Saudade é um sentimento que nem a dor é capaz de apagar.
Bem, é óbvio que é quase tudo dos brasucas, os tais que confundem saudade com um biquini tanga numa praia qualquer. Mas, se queres mesmo saber como é esta saudade que eu sinto, aqui fica, no original:
Saudade é uma válvula entupida neste coração que salta descontroladamente entre o colchão da memória e o trampolim do sonho. Saudade é o dizer que basta tocar-te ao de leve no rosto para acalmar esta explosão, quando afinal nem um abraço infinito chegaria. Saudade é ter medo de esquecer o teu rosto, o teu corpo, o teu sorriso, a tua alegria, o teu olhar. Saudade é encher o peito de ar até mais não, só para depois poder suspirar prolongadamente na esperança de me libertar deste aperto, desta espécie de dor. Saudade é ter já vergonha de mostrar e dizer que a sinto desesperadamente, não vás tu enjoar ou achar-me infantil. Saudade é querer chorar por não estares aqui, mas não conseguir. Saudade é saber que estarei ao pé de ti daqui a menos de meio-dia, mas sentir como se faltasse ainda meio ano. Saudade é não resistir a escrever: até já! pickwick
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publicado por riverfl0w às 00:22
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Domingo, 29 de Agosto de 2004
Quiche Lorraine
A ouvir, na voz de João Vaz

O meu blog dava um programa de rádio - Rádio Comercial

 

É impressionante como temos preguiça de cozinhar quando estamos sozinhos. Impressionante. Refeições para mim são actos de confraternização, aquele momento que se conversa, saboreia a comida, tem-se contacto com as pessoas. Tenho gosto pela culinária, adoro cozinhar, tentar novas receitas, inventar outras. Mas aqui sozinho tenho tido preguiça até de molhar uns cereais em leite. Aliás, isso é tudo o que eu tenho comido ultimamente.

Estava agora mesmo embrenhado no congelador, há procura de qualquer coisa que pudesse aquecer e trincar num instante. Encontrei-a na segunda gaveta: Quiche Lorraine - Surgelée - Aux lardons fumés.
Que é como quem diz, no bacoquismo da tradução... Tarte de Lorena - Ultracongelada - Com toucinho fumado.
Mas assim, em francês, lembrou-me de imediato a Páscoa em Paris, há alguns anos atrás, onde me fascinava o modo como a minha tia pronunciava o nome do prato. Já eu não me saía melhor que um "Kixe Lorréne", bem aportuguesado. É em nome dessas memórias de Paris, e do enjoo dos cereais, que a minha Kixe Lorréne acabou de entrar no forno. Um prato de sonoridade apetitosa em contraposição ao ordinário Muesli. riverfl0w

música: ‘Quiche Loraine’ – B52s
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publicado por riverfl0w às 13:59
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Inconsciências 1
Hoje acordei a pensar na vida. É um bom dia para o fazer, é Agosto, está nevoeiro, dói-me a planta do pé esquerdo, enfim. Mas não pensei na vida toda. Apenas naqueles episódios em que nos elevamos acima da razoabilidade e do bom senso, arriscando ora o físico, ora a reputação. Episódios de que só tomamos consciência séria passados dias, semanas, meses ou mesmo anos. Quando tomamos. Porque há deles que, provavelmente, nunca nos apercebemos. O primeiro que me vem à cabeça passou-se há muitos anos, tinha eu as minhas onze primaveras. Andava numa escola na bela capital portuguesa e o meu grupinho de amigos não primava pelas actividades cívicas. Aliás, atirar pedras às janelas e tocar à mão cheia nas campainhas dos prédios até chegou a ser moda. Certo dia, lembrámo-nos de ir ao Jardim Zoológico. Os animais fascinam qualquer puto que se preze e nós não éramos excepção. E o fascínio subiu de tom quando demos de caras com a secção dos felinos, aquela fila de jaulas com leões, tigres, pumas e leopardos. Uma das jaulas tinha um majestoso leão, de juba enorme, já entrado na idade, indubitavelmente o rei daquele zoo. Até aqui tudo bem. Com a maior naturalidade, saltámos o gradeamento de segurança que mantém os visitantes a uns dois metros das barras da jaula, protegendo-os de alguma patada mais carinhosa. Isto não se faz, como é óbvio. Como se não bastasse, estávamos mesmo em frente à jaula do tal leão que, na maior das calmas, tinha o corpanzil encostado às barras e batia uma soneca. Ora, provavelmente não se deve incomodar um leão enquanto dorme a sesta, mas… não sei o que me passou pela cabeça, que não resisti a puxar-lhe o rabo. Isto é que não se faz mesmo! O bicho, estranhamente pouco incomodado, virou-se para a malta e abriu aquelas fabulosas mandíbulas num rugido mal cheiroso e impressionante, capaz de engolir-nos a todos de uma só vez. Bom, sei que ia partindo uma das canelas no gradeamento e que só parámos de correr quando chegámos ao outro lado do zoo. A mim, quase que me estoirava a cabeça, tal era o susto, e ainda levou uns bons minutos até estabilizar o batimento do coração. Ainda assim, voltámos às jaulas e saltámos novamente o gradeamento. Eu já estava um bocado apreensivo com a brincadeira toda, mas um dos meus amigos ainda queria provar mais um bocadinho de adrenalina. Por isso, foi à jaula dos pumas e estragou-lhes o descanso com um soco no lombo de um deles, pondo aquilo tudo em alvoroço, com os animais a rugirem e aos pulos feitos loucos. Escapou-se a tempo, porque os bichos em três tempos tinham as garras à mostra e esticavam as patas em movimentos frenéticos do lado de fora da jaula a ver se nos atingiam. Mas o dia não acabou aqui. Este bando de putos ainda fez mais umas visitas, embora menos estressantes. Lembro-me, como se fosse hoje, de me estarem a segurar pelos braços, eu à procura do chão, largarem-me, virar-me, e, lá ao fundo, a uns 50 metros, um gigantesco rinoceronte rodopiar na minha direcção. Um joelho esmurrado na parede e os mesmos braços a içarem-me à pressa para fora. Mais além, recordo-me de caminharmos agarrados a um gradeamento, em cima de um muro, até chegarmos ao lado de um hipopótamo imerso no tanque fedorento, e vermos quem conseguia meter-se em cima do animal, sem cair. Isto também não se faz, ok? Esse ano foi muito frutífero em disparates e inconsciências. A malta, ainda por cima, parece que não aprendia. pickwick
publicado por riverfl0w às 00:56
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Voltei. Ponto.
Sei que provavelmente não devia chegar aqui e fingir que escrevi o último post há algumas horas atrás.
Sei que corro o risco de ser vaiado, apupado, rejeitado, deposto, expulso, extraditado.
Sei que talvez todos merecessem uma explicação, mesmo que breve.
Ou porventura a minha ausência não tenha sido notada.
Ainda assim, voltei. Ponto. riverfl0w
publicado por riverfl0w às 00:38
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Sábado, 28 de Agosto de 2004
A minha missão é…
Não é. Quer-se dizer, eu não tenho. Ou até talvez tenha uma, assim obscura, do estilo de limpar da face da terra todas as taças de “natas do céu”, engolindo-as sofregamente, salvando assim o mundo de uma obesidade indesejada e pouco saudável. Yeah!... Soa-me bem… Mas não era sobre este tipo de missão que queria divagar. É a missão de missionário. É uma coisa que me fascina, devo dizer. Uma amiga minha vai partir numa missão destas, algures para um país africano, durante um ano. Vai deixar para trás (em modo “pause”) o emprego, a família, os amigos, a casa que ainda está a pagar em prestações, os espectáculos de teatro, os concertos e o conforto da sua vida citadina. Vai, inclusive, abdicar do seu ordenado, nada magro, doando-o à instituição que organiza estas missões. Apenas retira o necessário para pagar mensalmente o empréstimo do seu apartamento. Viverá um ano em África apenas com o indispensável. Dará de si tudo o que tem para dar, em termos de trabalho, de tempo, de afecto, de paciência, de disponibilidade e de sabedoria. Os destinatários são perfeitos desconhecidos para esta rapariga. Também não deve interessar serem desconhecidos ou não. Aliás, até deve tornar as coisas ainda mais aliciantes. Sim, porque, por mais estranho que pareça, nem tudo na vida é moldado ao ritmo das telenovelas, dos telemóveis, e da pretensa civilização, a qual não passa de uma monotonia estúpida e vazia. É preciso estômago, para partir. Ás vezes (não sei em que percentagem) está em causa uma fuga. Alega-se o espírito de missão, mas a verdade é que se foge de alguma coisa. Consciente ou inconscientemente. Mas só às vezes. Há ainda muita gente que abraça realmente esse espírito. Corajosos, eu acho. Muito corajosos. Num mundo em que ganhar o estatuto de efectivo numa profissão se torna um objectivo primordial, que garantirá a segurança do dia-a-dia, o pão na boca e todo o conforto, renunciar – ainda que por apenas um ano – a isto não é para todos. A eles, tiro o meu chapéu. pickwick
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publicado por riverfl0w às 09:45
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Sexta-feira, 27 de Agosto de 2004
Abate selectivo
Temos gente a mais neste mundo. É uma realidade. Não é que tenha dor de cotovelo, note-se. Mas é um facto. Não se pode ir por aí diminuir os efectivos populacionais, como bem se percebe, embora pudéssemos ser selectivos e criteriosos. Ou seja, seleccionar-se-iam uns quantos. Selectivamente. Assim tipo as Selecções do Reader’s Digest. Eles também seleccionam. E para lançamento deste novo sistema de abate, proponho desde já um voluntário, voluntariamente seleccionado para o efeito. Não sei o nome dele, nem onde mora, nem o que faz, nem o número de telefone. Se for preciso dar-lhe caça, vai ser complicado achá-lo. No entanto, talvez a repetição do comportamento que a seguir descrevo possa ajudar a identificá-lo na praça pública. Ou na rua. Ora bem, passemos à descrição. Estou a falar de um fulano com aparência perfeitamente normal, calção normal, t-shirt normal, corte de cabelo assim mais ou menos, altura mediana – tipo normal nacional -, feições normais, estacado à beira da estrada. Numa mão tem uma toalha e na outra uma miúda de uns 4 anos. Provavelmente é a filha. Coitada. Ao lado, outra miúda, mais velha, aí nos seus 7 anos. Outra coitada. Elas não sabem que são coitadas. Adiante. Situação geográfica? Coisa simples: gradeamento de protecção na marginal da linha de Cascais (ou do Estoril, ou das tias), mais precisamente na curva da praia de Oeiras, do lado do gradeamento que dá para a marginal. Resumindo em cinco palavras: o papá e as filhas encostados ao gradeamento, elas quase a caírem para o meio da estrada, à espera de oportunidade para atravessarem para o outro lado. Ora bem, para quem não conhece a curva em questão, passo a informar que a dita só tem quatro faixas de rodagem e fica num vale, o que quer dizer que quem vem de um lado, vem a descer, e quem vem do outro lado, também vem a descer. Estamos no verão, o trânsito é o que se sabe, paletes de rodas a rolar, e o local escolhido é mesmo, mesmo, mesmo, mesmo, mesmo, a meio da curva. Ou seja, de visibilidade paupérrima. Do melhor para atravessar quatro faixas de rodagem com duas criancinhas. Dei de caras com esta cena quando ia a passar de carro, o que foi pena, porque se não fosse lançado, teria tido todo o prazer em ir direito ao fulano, sacudir-lhe a coitada da filha, pegar-lhe (no pai) por um tornozelo e volteá-lo no ar, terminando com um embate da carne esvoaçante contra o poste da iluminação. Seria o abate perfeito, com uma selectividade exemplar, o verdadeiro eliminar de lixo humano. pickwick
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publicado por riverfl0w às 00:28
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Quinta-feira, 26 de Agosto de 2004
Na solidão do túnel
Já não me lembro de quando entrei no túnel. Não foi assim há muito tempo, mas não consigo precisar. Não sei se entrei mesmo ou se pura e simplesmente dei comigo já lá dentro. Um túnel escuro. A meio, uma curva a 90º com o que parecia ser uma portinhola certificada pelo reflector a dizer “Exit”. Para além de escuro, este túnel é esquisito. Não sei bem explicar. Não é bem como os outros túneis. Este, ora parecia ser agradável de andar lá dentro, ainda que a rastejar, ora parecia tortuoso. Uma cabeçada ali, uma pedrinha aqui, uma roçadela acolá… um percurso levemente agitado, a bem dizer. Quando se está dentro de um túnel, acho que se pensa sempre no final do túnel, onde ele acaba e onde saímos. Há quem fale na “luz ao fundo do túnel”, mas eu sinceramente acho que a malta quer mesmo é chegar ao fim e sair. De preferência com uma saída airosa, assim tipo um dia de sol. E ali andei eu, armado aos cágados, dias após dias, semanas após semanas. Ou era o túnel que era comprido ou era eu que andava muito devagarinho. Das duas, uma. Recordo bem quando cheguei à curva. A portinhola. Só empurrar e estava safo desta brincadeirinha toda. Ainda tomei uma decisão: vou dar à sola daqui para fora e pronto. Mas algo me chamou, para além da curva. Algo, ou alguém, não sei bem. Olhei… se aquilo não era uma luzinha lá ao fundo, era alguém a brincar comigo. Ou um pirilampo, aqueles besouros luminosos que vagueiam pelos jardins. Ainda vacilei, não fosse ser mesmo uma brincadeirinha ou o raio do pirilampo, e ter de voltar o caminho todo para trás. Mas lá segui. A luz era mesmo a famosa luz, a do fim do túnel. Um gajo fica sempre um bocado na dúvida quando anda a rastejar dentro de um túnel, mas há que ter um bocadinho de fé. Valeu a pena. Cheguei ao fim, o dia era de sol, lindo, lindo, lindo. E o que havia à saída do túnel? Uma paisagem agradável, embora desconhecida. Respira-se bem. Há que explorar, agora. Conhecer, descobrir e desfrutar. Assim seja. pickwick
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publicado por riverfl0w às 23:40
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Segunda-feira, 16 de Agosto de 2004
Diálogo na penumbra da razão

Uma conversa que eu nunca vou ter:
Eu: Olá!
Vera: Olá!
Eu: Eu sou o Pickwick. E tu? Como te chamas?
Vera: Eu sou a Vera.
Eu: Já sabia… (riso de hiena)
Vera: Já???? Então para que é que perguntaste???
Eu: Pois, já tinha visto ali atrás: “Vera: Olá!” e por isso já sabia como te chamavas.
Vera: Tu tens um problema grave, não tens?
Eu: Eu?... Acho que não…
Vera: (silêncio, olhar reprovador, esgar de enjoo)
Eu: Então, que fazes logo à noite?
Vera: Não tens nada a ver com isso!
Eu: Anda lá, não sejas assim! Vais ficar em casa? Queres ir ao cinema? Jantar fora? Passear de canoa?
Vera: Mas eu conheço-te de algum lado?
Eu: Não.
Vera: (silêncio, enquanto me volta as costas)
Eu: Olha, eu conheci uma Vera, há muitos anos atrás.
Vera: E o que é que isso interessa para agora? (voltou-se novamente para mim, que sorte)
Eu: É pá! Não sejas assim. Porque estás a ser arisca comigo? Meto-te nojo? Deixa-me acabar de falar!...
Vera: (encolhe os ombros, mas espera)
Eu: A Vera que eu conheci era um espanto. Linda, linda, linda. Cabelo aloirado, olhos verdes. Ou castanhos, não me lembro.
Vera: E o que é que eu tenho a ver com isso?
Eu: Também te chamas Vera, não chamas?
Vera: Sim. E?...
Eu: (silêncio engasgado)
Vera: Olha, tchau, ok?
Eu: Espera. Afinal logo saímos ou não? Podíamos ir passear pela praia.
Vera: A praia mais perto fica a 130 km daqui… ‘tás parvo, ou quê?
Eu: 130 km??? Mas… então não estamos em Portimão?
Vera: Olha lá, ó meu estúpido, desaparece-me que tenho mais que fazer do que te aturar. Além disso, o meu namorado deve estar a chegar.
Eu: Tens namorado? A Vera que eu conheci não tinha namorado. Pelo menos que eu soubesse. Mas eu até achava estranho como é que ela não tinha namorado. Só se a mãe não deixasse.
Vera: Tchau!
Eu: Espera… diz-me só uma coisa…
Vera: Mas que chato! Que é que foi agora?
Eu: Dás-me o teu email?
Vera: Não tenho! Tchau!
Eu: Tens, tens. Anda lá, dá lá.
Vera: Ó caraças! Desaparece!
Eu: Fogo! Mas tu não me curtes?
Vera: Tchau! (desta foi-se mesmo embora)
Moral da história: Não façam mal às andorinhas. As andorinhas aparecem na Primavera. A Primavera é prima da Vera. Como devem ter reparado, a Vera é muito mal encarada e antipática. Além disso não tem email. Se fizeram mal às andorinhas, a prima da Vera chama a Vera, a Vera vem, chama-nos nomes e vai-se embora. E chega o Verão. Não façam mal às andorinhas. pickwick

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publicado por riverfl0w às 01:21
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Domingo, 15 de Agosto de 2004
Pegadas na areia
Sigo os teus passos aqui e acolá, como pegadas na areia. Julgas que não, que não me importo, que no tanque do meu dia-a-dia a azáfama não deixa espaço para te perseguir, mas não é bem assim. Quando não te sigo, imagino-me a seguir-te, imagino-te aqui e acolá, entre ruas e vielas, estradas e céus. Intriga-me perseguir-te e descobrir que me persegues também, sabe-se lá com que intuito, com que razão, com que diversão, com que ansiedade. Ansiedade? Não sei. Mergulho, dia após dia, a minha cabeça no oceano da ignorância, da dúvida, da incerteza, do sonho. Sonho demais, eu sei. Mas como é bom sonhar... Sonhar com a dúvida, trocando-a pela doce certeza do que não passa do limiar da imaginação. Cuido do que escrevo nestas linhas, não vá esticar-me além do permitido pela lógica do que se conhece, não vá pisar o risco da decência, não vá estragar a amizade que julgo construída. Cuido do que escrevo, porque sei que o lês. Não o dizes, mas eu sei que lês, porque deixas pegadas, como na areia. Há palavras que destroem, há sentimentos que, por isso, não se podem trocar levianamente por palavras. Há sentimentos que devem – percebes? – ficar sepultados no berço. Contenho-os a custo. Mas, o mais certo é não te interessarem. Sinto este desfasamento de interesses. Sinto-me ridículo por sentir o que sinto. Tanto, que não sou capaz sequer de ousar levantar um pouquinho a toalha que os esconde, abrigados do medo da dúvida. Provavelmente, nunca passou pela tua cabeça o que vai para aqui dentro da minha. Tudo é um turbilhão de alegrias, dúvidas e desilusões. Sobe e desce. Às cambalhotas. Sei lá. Não consigo arrumar definitivamente as ideias, cá dentro, metê-las nas prateleiras certas, deitar fora o que não tem lugar. Parece que passam a vida a sair do sítio, as que se deitam fora teimam em voltar e reclamar um espacinho novamente. Tinha esperanças que o verão e a longa distância fizessem das suas, mas fui enganado. A distância afinal é curta, e curto é também o verão. A montanha russa continuou e continua ainda. Quero esquecer o que sinto, o que imagino, o que sonho. Quero, tento, mas volta tudo sempre ao mesmo turbilhão. Pesa-me a consciência por assim ser. Perdoa-me, por favor. Não mereces que aproveite a tua amizade para imaginar algo que não existe. Nem podia existir. Ai… se a vida fosse uma travessa de arroz doce, era tudo tão mais fácil. Mas como não é, assim ficamos. Ficas na dúvida, ou talvez não. Descontrolou-se-te o batimento do coração? Se sim, que esperas? Se não, o tempo encarregar-se-á de levar estes escritos e estes sentimentos para o distante esquecimento, a bem do descanso desta alma. pickwick
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publicado por riverfl0w às 01:59
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