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Sábado, 21 de Julho de 2012
Teorias com prostitutas II

Estava mesmo, mesmo, mesmo para enfiar à boca a primeira garfada de “carne de porco com cogumelos chineses e bambu”, quando o meu paizinho se lembra de trazer à mesa um episódio televisivo que o impressionou. Valeu o facto de sermos os únicos clientes do restaurante, naquele momento.
O dito episódio, envolveu uma inédita entrevista a uma prostituta sobre as dificuldades e agruras da sua vida profissional, ao que a senhora informou que os clientes mais difíceis são os que a contratam para desabafarem, em vez de satisfazerem as suas necessidades animais.

 

Veio-me logo à imaginação a senhora da vida, alapada no seu banco-lata-de-tinta-20-litros-do-avesso, a olhar para o cliente A, cento e noventa e cinco centímetros e outros tantos quilos, a tresandar a catinga, barba crescida, gadelha desgrenhada, olho de vidro a mirar o infinito, meia dentadura apodrecida e outra metade ausente, unhas enegrecidas sabe-se lá com o quê, espuma de baba a assomar ao canto da boca, a arfar descontroladamente como quem está capaz de tirar a virgindade ao primeiro quadrúpede que se lhe atravesse na frente, seja ovelha ou ouriço-caixeiro, e o cliente B, moço bem-parecido, bem constituído, fato e gravata, perfumado, educadíssimo, desejoso de encontrar alguém que o oiça mais que trinta segundos. E a senhora escolhe o brutamontes, que lhe vai esfrangalhar sardanica e deixá-la com um cheiro imundo para duas semanas. E desdenha o moço, porque não há paciência para servir de bom ouvido.


Posto isto, começa o meu paizinho a teorizar, que ah e tal, a prostituta tem três grandes vantagens em relação a um psicólogo:
1 – Sai incrivelmente mais barato.
2 – O primeiro serviço não pressupõe, nem exige, a marcação de N serviços posteriores.
3 – E há um inegável factor de privacidade, num contraste gritante entre a dispensa do nome, por parte da prostituta, e a recolha de dados pessoais comprometedores, por parte do psicólogo.


Entretanto, imagino-me a parar ali para os lados de Alenquer a caminho de Leiria, a solicitar os serviços da Vanda (nome fictício), a deitar a minha cabeça no colinho dela, qual guerreiro a fazer as pazes com o mundo, e a começar a desabafar as minhas mágoas sentimentais. Ao fim de dois minutos, a Vanda olha-me nos olhos, com um ar ternurento, esboça um sorriso e diz “tadinho”, afagando-me o cabelo. Só que, entre o “ta” e o “di”, vem o balde de água gelada, com uma mão cheia de dentes frontais completamente pretos e ratados, e meio centímetro de borracha de preservativo aromatizado (pêssego e frutos silvestres) entalado entre o incisivo lateral e um canino. Não há condições… pickwick

publicado por pickwick às 10:04
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