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Domingo, 10 de Junho de 2012
Mirador de gajedo

Há gente que, por meia palha, faz julgamentos sumários de personalidade. Apelida fulano e sicrano, bate palmas, pega fogo às barbatanas, aponta o dedinho, enfim. Tem dias em que eu também sou assim e não perdoo.

 

Ora, estava eu distraidíssimo a divagar sobre coisas importantes da vida, quando uma leitora deste blog traçou implacavelmente o meu suposto perfil: “mirador de gajedo”. Podia ter-se lembrado de outra coisa, eventualmente mais bonita? Podia, claro que podia, mas deu-lhe para isto. Curiosamente, não encontrei argumentos imediatos para refutar tal traçado, mas isso agora não interessa.

 

No dia seguinte, calhou ir almoçar com colegas de trabalho. Quando dei por mim, estava sentado à mesa com seis mulheres. Em princípio, é agradável almoçar numa mesa só com mulheres.

 

À minha frente, a colega que me apalpou obscenamente o braço num dia de chuva. À minha direita, a colega que o mais majestoso par de coiso-e-tal que deambula lá pelo local de trabalho, sendo que o dito par sobressai predominantemente entre a Primavera e o início do Outono, devido às temperaturas mais amenas que incentivam à condução de camisas descapotadas. Em frente a esta, uma colega com dentadura estilo “Aliens, o oitavo passageiro”, mas que compensa pela sua boa disposição e disponibilidade. Ao lado da colega do majestoso par, uma de par inferior, da qual não há muito a dizer, excepto que o pai quase que se afoga em dinheiro. Na extremidade da mesa, a eguazita saltitona com cérebro de ervilha e uma colega discreta sobre quem jamais teria assunto para escrever.

 

À distância de uma jogada do Cavalo no xadrez, estava uma colega que veio almoçar connosco para matar saudades. Já escrevi sobre ela várias vezes, porque aquela elegância toda combina muitíssimo bem com a respectiva dimensão peitoral. Mas, neste dia, a minha impressão sobre ela tomou uma nova perspectiva. O cabelo liso, pintado de carmim, caía pelo crânio abaixo, apenas se desviando para deixar passar duas orelhas-de-abano. Acima dos lábios pintados, dois olhinhos de carneiro-mal-morto. Tive um flash e juro que vi nela Neytiri, a personagem feminina saída-da-casca de “Avatar”, numa versão atacada de palidez súbita. Só lhe faltava a pele azul e a cauda sexy a mergulhar na sopa para aferir a temperatura. Entretanto, aproveitei a minha camuflagem natural para verificar se os restantes adereços eram compatíveis com a Neytiri e dei de caras com um decote exótico e improvável: o extraordinário decote-de-alguidar!

 

O termo “decote-de-alguidar” surgiu-me naturalmente. Por comparação: imagine-se um alguidar cortado ao meio (na vertical) e colado a uma parede de onde brotam duas maminhas que parecem ficar a nadar no vazio dentro de um meio-alguidar tão grande. Ou seja, houve ali um claro lapso na escolha do tamanho do sutiã… ou… é algo que estará a entrar na moda e eu tive a honra de ver um dos primeiros exemplares. Seja como for, não fica bem. Não fica bem, porque alguém pode começar a atirar azeitonas ou ervilhas lá para dentro. Não fica bem, porque o empregado pode descuidar-se, confundir o prato da sopa com o decote e provocar uma queimadura. E não fica bem, porque, de onde eu estava sentado, garanto que conseguia encestar uma bola com, pelo menos, 18 cm de diâmetro! pickwick

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publicado por pickwick às 20:50
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8 comentários:
De cocacolagirl a 11 de Junho de 2012 às 13:51
Eu acho piada às expressões que tu usas para definir certas coisas :)
De pickwick a 11 de Junho de 2012 às 19:47
Eu gostava mesmo de saber é onde a outra leitora foi desencantar a expressão "mirador de gajedo"... :p
De cocacolagirl a 11 de Junho de 2012 às 22:09
Teve uma certa imaginação, realmente :) mas talvez tenha sido pelo facto de tu reparares em alguns pormenores que a maioria dos homens não reparam..não sei!
De pickwick a 15 de Junho de 2012 às 22:36
E em que pormenores é que eu reparo que a maioria dos homens não repara? hum?
De cocacolagirl a 15 de Junho de 2012 às 22:53
Vais dizer que não reparas em alguns pormenores para além da "imagem em geral"?
De pickwick a 15 de Junho de 2012 às 23:13
A "imagem em geral" sabe sempre a pouco ;-)
De cocacolagirl a 15 de Junho de 2012 às 23:19
Concordo, daí eu dizer que tu reparas em mais coisas para além disso :)
De riverfl0w a 16 de Junho de 2012 às 02:09
"À distância de uma jogada do Cavalo no xadrez". Há expressões impagáveis, caro pickwick. :)

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