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Quinta-feira, 12 de Abril de 2012
O humor do alce

Há dias em que uma das minhas convicções pessoais sobre a vida e as gentes toma uma solidez impressionante: há cada vez mais gente avariada da cabeça.

 

Na última oportunidade que tive para ficar boquiaberto, dialogava com uma empresária farmacêutica trintona, muito bem arranjadinha e prendada, aparentemente moça simpática. E digo aparentemente, porque, logo desde o início do diálogo, achei-a muito fofinha e comecei a debitar algumas graçolas que não tiveram o retorno habitual. A maioria das pessoas com quem convivo, tem capacidade para perceber quando estamos a atravessar umas piadinhas no meio da conversa, assim como que para descontrair.

 

Por exemplo, posso gracejar que o meu carro tem o motor quase a cair para o chão, que é como quem diz que já tem uns quilómetros jeitosos no pêlo. A moça responde a isto com um ar entrunfado, ah e tal, estás sempre a gozar. Estou nada, digo-lhe eu, estou só com uma gracinha, até parece que não estás bem humorada hoje! Eu tenho bom humor, diz ela, só que bom humor não é sinónimo de gozo! Cheio de oriental paciência, ainda lhe tentei fazer ver que uma coisa é estar com piadinhas pelo meio e que outra coisa é gozar com a cara das pessoas, mas ela sugeriu-me perguntar a opinião a qualquer pessoa, em especial alguém que fosse expert na língua portuguesa, como uma professora de português, por exemplo. Eu nem me atrevo a tal!

 

Mas, isto anda tudo a ficar maluco?

 

O gajo que faz humor, nunca goza, porque gozar é feio. Por outro lado, o gajo que goza, nunca tem humor, porque é feio e o que é feio não tem humor. Deve ser assim o pensamento elevando da moça. Cá para mim, isto não é um caso isolado.

 

Há uma quantidade absurda de gente que se acha inteligente, mas que é incapaz de perceber uma ironia, por mais óbvia e vistosa que seja. O “achar-se inteligente” já é um sintoma de uma qualquer falha, nem que seja apenas um défice daquela virtude maior que é a humildade. Mas a incapacidade para processar uma frase irónica é algo que me deixa mesmo muito pasmo. Fico logo com a comunicação toda avariada. Um gajo tem que fazer o esforço para não conversar como conversaria com qualquer pessoa normal, mesmo com um miúdo de dez anos, e procurar expressar-se para um misto entre um atrasado mental e um penedo cheio de musgo. Deve ser o tal povo bronco que abunda e domina a nossa sociedade lusa. Sinto-me desolado, quando é assim.

 

Eu gosto de sorrisos. Gosto de dizer umas piadinhas para ver se me rodeio de sorrisos. Os sorrisos femininos, em particular, são aquela coisa deliciosa tipo chocolate cor-de-rosa a derreter-se debaixo de um sol de agosto. Uma gargalhada também é bom de ouvir. A vida vive-se melhor assim, digo eu. Corre-se o risco de deixar alguém mal disposto, porque dizer uma piadinha é estar a gozar, mas, lá está, é como o alce: um bicho careta daqueles, não tem mesmo motivação alguma para arreganhar as beiças. pickwick

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publicado por pickwick às 22:09
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