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Quinta-feira, 5 de Abril de 2012
Do Japão para as Docas

Num belo domingo, fui até uma capital de distrito para jantar com a Liliana. Já andávamos a tentar combinar este jantar desde mil novecentos e tal, e, finalmente, chegou o momento. Tirei a roupa empoeirada com terra solta e algum estrume, banhei-me, barbeei-me, vesti uma roupa desapropriada para quem está acampado, e meti-me ao caminho. Assim, de repente, ninguém diria que o dia tinha sido de trabalho rural.

 

À hora combinada, lá me encontrei com a Liliana, no sítio do costume (só houve uma única vez prévia, mas fica sempre bem dizer isto assim). A coisa começou a correr mal logo ali. Ela podia ter aparecido de calças de ganga? Podia, claro. Mas, não. Eu acho que ela tem um “quê” daqueles torturadores medievais dentro de si. Em vez da ganga, apresentou-se de vestido preto, curto, meias fantasiadas e sei lá mais o quê que não consegui reparar porque só estava preocupado em tentar convencer-me a mim próprio de que começar a uivar ali mesmo não seria uma ideia muito feliz. Nem que fosse entredentes. Aproximamo-nos, beijinho, ui que cheira tão bem, vestido curto e salto alto. Isto do salto alto é que… enfim… com um bocadinho de laca no cabelo e ultrapassava-me em altura. Medo!

 

Por esta altura, eu já começava a dizer mal da vida. Embora a minha roupagem passasse despercebida em qualquer cidade, o mesmo não se poderia dizer do meu bólide, todo porcalhão, manchado de terra misturada com pingos de uma chuvada recente, com meio quilo de poeira a dormir a sesta no limpa-vidros traseiro. Vergonhoso, eu sei, mas já era tarde. Eu podia deixar a Liliana ali um bocadinho à espera e ir a correr lavar o carro numa estação de serviço. Podia. Ou podia pedir encarecidamente à Liliana para ir a correr trocar o vestido por umas calças rotas que melhor condissessem com o aspecto rural do meu carro. Podia. Mas, por vezes, mais vale ficar quieto.

 

Ela pareceu não se importar muito com o contraste e entrou para o carro. O ambiente ficou pesado. O habitáculo encheu-se com o perfume dela e, por momentos, pensei para comigo que já poderia começar a uivar, uma vez que ninguém me ouviria, à excepção dela. Poderia, mas não comecei. Se começasse, é provável que acabasse a jantar sozinho. Mas, isso agora não interessa.

 

Por sugestão da Liliana, fomos até ao Japão. Foi a primeira vez que entrei num restaurante japonês. Sempre me esquivei aos restaurantes japoneses, para não ter que me sujeitar a comer “sushi”, uma espécie de carapau gigante, totalmente cru e com os olhos ainda a revirarem-se de sofrimento pela falta de água. Eu já não sou apreciador de peixe, mas, peixe cru, só se estivesse um mês inteiro à deriva num qualquer oceano, em cima de uma frágil jangada, naufragado sabe-se lá de quê. E, mesmo assim, seria apenas uma petingazinha, sem rabo. Bom, adiante.

 

Sentámo-nos e a Liliana começou a tirar o casaco. Apoderou-se de mim um pânico tridimensional! Ambiente pesado, novamente. Como qualquer cidadão sabe, quando uma mulher tira o casaco que veste por cima de um vestido, está lançada a confusão! De um impulso, estive prestes a saltar para a Liliana e gritar-lhe “não! não dispas o casaco, por favor, poupa-me!!!”, mas, numa fracção de uma cagagésima de segundo, pude constatar que o vestido não tinha decote. Foi um grande alívio, tenho que confessar. Um “obrigado, Deus meu” escapou-se-me debaixo da língua, muito baixinho. Comer “sushi” de frente para um decote, daria asneira pela certa: de certezinha que, em alguma altura, me engasgaria inadvertidamente e ficaria com meia posta de carapau cru entalada numa das narinas.

 

Não sabia que nos restaurantes japoneses se podia fazer batota com os pauzinhos! Nunca tinha visto tal coisa. Um pedaço de cartão e um elástico a segurar os pauzinhos? Francamente! Assim, até com Parkinson avançado eu conseguiria levar à boca uma bola de gelatina untada com manteiga dos Açores. E logo à primeira!

 

Entretanto, vieram duas cervejas chinesas, “Tsingtao”, marca bem conhecida da minha juventude. Portanto, um gajo vai a um restaurante japonês, e tem que beber cerveja da concorrência. Acho que sim, que assim vão longe. Dois dedos de conversa e apercebi-me de um factor de desassossego que podia comprometer todo o jantar. Não havia decote, mas o vestido da Liliana deixava-lhe os braços nus. Uns espectaculares braços, de musculatura na medida certa, sem qualquer vislumbre de flacidez, simplesmente dignos de uma apreciação prolongada. Mas onde é que ela foi buscar aqueles braços? Ah, pois é, o ginásio… Já tinha com que me entreter durante o jantar, pensei para comigo, desde que não me começasse a babar e não perdesse o fio à meada da conversa.

 

O repasto foi outra novidade: rodízio à japonesa. Isto é, a senhora ia levando travessas para a mesa e a gente ia comendo. Nada a opor. Por fim, chegou o famoso e temido “sushi”. Afinal, não era carapau. À primeira vista, pareciam postas de arroz (?!), embrulhadas em pele de peixe-espada preto (?!), com umas coisas suspeitas no centro (definitivamente suspeitas). Perfeitamente comestível. Ainda existo para contar esta história, por isso, não há que recear.

 

A determinada altura, acabou-se a rodada de comida. A senhora veio à mesa para saber se queríamos mais qualquer coisinha para comer. Ainda me passou pela cabeça um suculento naco de picanha a ser fatiado à facada ali mesmo. A Liliana não se deixou intimidar. Pegou no menu e toca a encomendar mais uns petiscos. Eu acho que ela tem um buraco no estômago por onde se escapa metade da comida que ingere. Só pode. Pela minha parte, que sou homem dado a sacrifícios e causas, acedi prontamente ao seu desejo incontrolável de repetir alguns dos petiscos, concordando com todas as suas escolhas. Temos que lá voltar. Eu era gajo para me habituar à comida japonesa. Desde que na companhia certa.

 

Quando tudo parecia estar a correr bem - conversa agradável, companhia interessantíssima, comida engraçada e sem carapaus crus -, a Liliana lembrou-se de ir ao WC. Levantou-se e foi. Costuma ser assim, eu sei. E quase que tive que untar a testa com um restinho da sobremesa de gelado de chá verde, para arrefecer a imaginação. Aquele vestido preto e curto, a deslizar por ali fora… aquelas pernas perfeitinhas e exclusivamente feitas de fibra… aquela figura… eu nem queria reparar nos glúteos, mas acho que fui traído pela sinalização fluorescente das ancas. Credo! Que desorientação! Um gajo morde os lábios, geme um bocado, franze o sobrolho num solitário sofrimento e suspira…

 

Do Japão, a Liliana quis levar-me para as “docas”. Sem estivadores e sem o pivete a pescada e sardinhas. Um barzinho simpático, com umas cadeiras em jeito de sofás, coloridas. As mesinhas davam pelo joelho, a Liliana estava com o seu vestidinho curto e meias fantasiadas e eu juro que só olhei umas três ou quatro vezes! As torturas medievais foram coisas de meninos, quando comparadas com o que eu sofri, ali, durante mais de duas horas, ora pernas para a esquerda, ora pernas para a direita, ora cruza, ora descruza. Um gajo tenta manter o pensamento numa rota, orientado pelo desenrolar da conversa, mas é constantemente atropelado pela imaginação fértil, qual manada de búfalos completamente descontrolada. Às tantas, desligaram as luzes e demos conta que nos estavam a meter na rua. Pudera, duas da madrugada! Um gajo, quando é para sofrer, ao menos que seja “à homem”, durante horas a fio, sem tréguas.

 

E, só por causa disso, ainda prolongámos a conversa, já no carro, até lá para as três da manhã. Com a agravante do perfume. Uma tortura desmedida, é o que eu digo. Depois de a Liliana se ir embora, num singelo adeus, ainda tive que me submeter a três vergonhosas tentativas para sair da cidade pela saída correcta para o meu destino, uma mão no volante e outra a trocar SMS com a Liliana (mas a malta não tinha terminado a conversa? às tantas, nem por isso…). Quase que fui parar a Marrocos, tal foi o nível das tentativas. Por fim, lá para as quatro da madrugada, cheguei à tenda. A suspirar. Oh, vida! pickwick

 

publicado por pickwick às 18:28
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