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Quarta-feira, 16 de Julho de 2008
A saga das maminhas – parte 2

Ao descer da tasquinha de Regoufe para a ribeira com o mesmo nome, o turista desprevenido é confrontado com um contexto rural interessante: cheira a cabra como em mais nenhum outro local do planeta; há moscas em quantidades astronómicas por todo o lado; no chão encontra-se caca de cabra a uma média de dezanove cagalhotos por metro quadrado; há muito mais granito do que cimento, o que é bonito de se ver; as galinhas têm muito mau aspecto, assim com ar de quem são penduradas numa forca todas as manhãs, só para testar o cânhamo da corda.

 
Na descida, cruzámo-nos com uma cena insólita numa aldeia serrana. Uma mulatinha, assim a atirar para os seus doze anos, subia uma rua rebocando uma cabra pelos chifres. A idade foi estimada por um método científico muito rigoroso, que recorre à observação atenta de pequenos detalhes corporais. Isso mesmo. Os minutos seguintes após o cruzamento com a miúda, foram dedicados à especulação sobre o tratamento delicado que ela daria a um futuro namorado ou marido.
 
Dando um salto temporal para a frente e aterrando no dia seguinte, aquando da viagem de regresso com passagem novamente por Regoufe, voltámos a cruzar-nos com a mulatinha, desta vez sem trazer qualquer animal a reboque. Um dos meus parceiros de viagem insistiu que não teceria nenhum comentário sobre a mulatinha, antes mesmo de eu abrir a boca para chutar o meu próprio comentário, o que, já de si, diz muita coisa. Mas, eu acho que as coisas não devem passar sem registo, pelo que aqui trago a descrição que faltou ser dita em voz alta: a mulatinha vestia uma camisolinha verde justa ao corpo, não usava soutien, e, daqui derivado, sobressaía em franco relevo o prenúncio de umas hoje tímidas maminhas, lideradas por uns atrevidos mamilos do tamanho de uma rodela de tomate! Entretanto, enquanto os pensamentos sobre o assunto se alinhavam no registo intelectual, cruzámo-nos com os pais da mulatinha a grelharem o almoço ao ar livre: uma senhora com ar de quem pastou cabras nas redondezas de Regoufe durante a infância e um black com ar simpático mas corpo de quem levanta tractores com o dedo mindinho. Enfim.
 
Almoçando à saída da ponte, à sombra, demos conta desse momento excitante que é a saída do rebanho comunitário de cabras para pastarem pelos montes. Muitas cabras. Muitas, mesmo. Acho que deu para comer uma sandes de panado de peru e ainda a ponte estar congestionada com um mar de cabras em passo rápido.
 
Depois de um almoço à sombra do castanheiro, que é sempre bom desde que ninguém se sente em cima de caganitas de cabra, rumámos a caminho da Drave, uma aldeia desabitada enfiada num buraco, pela qual passa uma ribeira com o mesmo nome. Parámos para descansar num pátio e apreciar um grupo de cinco escuteiros que acampavam num terreno do outro lado da ribeira. Do grupo, destaque para a delicadeza de três elementos do sexo feminino, maiores de idade. Fazendo uso de uma estratégia rebuscadíssima, envolvendo uma simulação de extremo cansaço e consequente sestinha em cima de placas de xisto, conseguimos que o grupo passasse por nós numa visita que decidiram fazer à aldeia. Isto já são muitos anos de experiência a conceber e testar estratégias, eu sei. Seja como for, dentro do sub-grupo da delicadeza feminina, a quem dirigimos a palavra para indagar sobre a sua proveniência geográfica, há que fazer um mega-destaque para a menina do lenço verde que, presumo, seria a chefe do contingente, a avaliar pelos outros quatro lenços vermelhos e seguindo a teoria de que há sempre mais súbditos do que chefes. Meu Deus! Madeixas loiras, um corpo de morrer e morrer novamente, uma elegância como poucas conseguem, eu sei lá, um luxo! Subiram umas escadas, aldeia acima, o que nos proporcionou uma visão mais pormenorizada dos atributos físicos da região que vai da cintura aos joelhos, pela retaguarda, com a generosa contribuição de umas calças de algodão justas. Depois de muito pó, calhaus, castanheiros, caganitas de cabras, moscas e cabras, esta foi uma visão com traços de divindade, assim como que uma cervejinha gelada a meio do Sahara. Já agora, e para que conste dos registos, os jovens eram de Burgães, uma freguesia ali para os lados de Santo Tirso. Pela amostra, vale a pena uma visita cultural e recreativa, um dia destes. pickwick
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publicado por pickwick às 00:05
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