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Terça-feira, 15 de Maio de 2012
Ui! Não me toques!

Hoje foi dia de mais uma daquelas reuniões. Portugal é um país muito fértil em improdutividade. O tempo, a energia e os recursos humanos que são investidos em acções improdutivas, representam um fenómeno de dimensões assustadoras, mas perfeitamente compreensível, quando damos conta que a pobreza de espírito abunda em todos os níveis intelectuais da nossa sociedade.

Divagações à parte, a reunião decorreu em ambiente fechado e pesado: sete gajas para dois pobres rapazes. Uma das moças, é aquilo a que se chama uma gaja toda boa. Podia dar-lhe o nome de código Todaboa. Ou Boazona. Ou Zonaboa. Ou Zoabona. Ou Zulmira. Zulmira parece-me bem e definitivamente ninguém desconfia.

 

Eu nunca fui de grandes intimidades com a Zulmira. Nunca passámos de meio dedo de conversa profissional em grupo. Mas, hoje, a Zulmira vinha atravessada. Começou com uma entrada triunfante, tropeçando numa calha para cablagem existente no chão e quase saindo pela janela do outro lado da sala ainda agarrada à malinha e aos documentos. Uma coisa dramática, tenho que reconhecer. A Zulmira trabalha noutra instituição e trouxe cumprimentos muito efusivos de um antigo colega que agora trabalha com ela. Acho que isso foi o quebra-gelo que lhe faltava. Puxou de uma cadeira e fez questão de se sentar ao meu lado. E começou a tocar-me no braço ao ritmo de um toque por cada duas frases, mais toque, menos toque. Como estava calor e eu estava de camisa de manga curta, foi mesmo pele com pele. E eu, que sou bem comportado, pensei logo: Ui! Tu não me toques assim, que eu começo já a uivar e a bater com o pé no chão, com ou sem lua. Quase três horas a tocar-me no braço. Momentos houve em que pensei seriamente que ela haveria de meter a mão na minha perna, com a generosa intenção de me transmitir uma qualquer informação de forma mais convincente.

 

Passei a reunião intrigadíssimo com isto. A aliança continuava no dedo. Que raio?!

 

Já para o fim, acho que vi a “luz”. A Zulmira levantou-se para ir ao computador que estava ligado ao projector, para retirar uma pen. Boazona, o tanas! Mais outra com falta de nalgas! Estava tudo explicado! Comecei a fazer contas às proporções corporais e descobri, logo ali, mais umas quantas desproporções a desfavor dela. Eu adoro quando se soluciona um mistério de forma tão célere. Espanto-me comigo mesmo. Ou, como diria o Nando: é só desculpas!... pickwick


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Domingo, 13 de Maio de 2012
Pelo botão “Sigh” no Facebook

Parece que anda ou andou por aí uma campanha para mudar o botão “Like” do Facebook, para escalonar a coisa por níveis. Façam favor. É como as saias, que também têm níveis diferentes, conforme a intensidade do ataque de coração que se pretende provocar.

 

Pela parte que me toca, devia haver outro botão, chamado “Sigh” (suspiro), para aqueles momentos em que uma amiga coloca uma foto no seu perfil, um gajo nem se atreve a clicar no “Like” porque aquilo até é mais que “Super” e provoca gaguez e parece mal deixar essa pegada, e a única coisa que apetece é clicar num botão para suspirar profundamente sem que ninguém dê por isso…

 

Não há uma petiçãozinha para isto? Ou sou o único a ter este desejo? pickwick


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publicado por pickwick às 15:31
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Sexta-feira, 11 de Maio de 2012
Pêra murcha

A Nélia (nome de código) é uma jovem de cerca de trinta anos que colabora esporadicamente com o viveiro florestal onde dedico parte dos meus fins-de-semana. A mãe dela, também colabora e também se chama Nélia (nome de código). Obviamente, mãe e filha partilham o mesmo apelido: Facadas (código para um apelido semelhante). Daí que, quando preciso referir-me a uma delas, tenho sempre que distinguir: Nélia Facadas filha, ou Nélia facadas mãe. Como se um gajo não tivesse mais nada na vida para fazer.

 

Ora, andar a mexer em plantinhas, a meter sementes na terra, etc., que é um trabalho nobre em prol da Mãe Natureza, é uma excelente oportunidade para deitar o olho para o lado. Não devia ser assim, mas é mais forte do que eu. E assim é, de cada vez que partilho o espaço com a Nélia filha.

 

Acontece que a Nélia filha pode ser catalogada numa categoria que eu denomino “pêra murcha”. Não me ocorreu nome melhor para uma categoria, lamento. A Nélia filha, que é uma moça muito fofinha, daquelas que dá vontade de dar umas palmadinhas nas nádegas (é brejeiro, eu sei, mas é daquelas coisas que se sonham e não se fazem), tem uma desproporção corporal que é algo comum nas mulheres: nádegas a alargarem substancialmente e peito mirrado. Faz o efeito de uma pêra murcha, portanto.


Não tenho nada contra, é verdade. Só que, lá está, é daquelas coisas que, ou se gosta, ou não se gosta. E eu não aprecio. Deu-me para isto, agora, já com esta idade. Não lhe falta cintura. Não lhe falta um sorriso muito feminino. Não lhe falta aquela penugem fofinha a descer da nuca para as costas. Mas… menos em baixo e mais em cima, era o que fazia falta.

 

Entretanto, uns quantos espertalhões andam a pressionar-me para ser mais atencioso para com a rapariga. Corre a teoria de que o pai da miúda é que teve a ideia de a meter lá a colaborar: via-se livre da mãe e da filha, já que passavam a vida em casa a azucrinar-lhe o juízo. Teorias. Eu chuto para canto. O facto de me ter passado pela cabeça a inovadora ideia de lhe afagar as nalgas com umas palmadinhas, não implica que lhe queira pegar ao colo e arrancar-lhe as cuequinhas com os dentes. A menos que fosse possível abocanhar-lhe uma nádega e a pressão empurrar alguma chicha até ao tórax… pickwick


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publicado por pickwick às 17:24
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Quarta-feira, 9 de Maio de 2012
Os golpistas do Pingo Doce

Parece que perdi um dia imperdível aos comandos de um carrinho de compras, atestado até aos últimos arames, nos intransitáveis corredores do Pingo Doce cá do burgo. Felizmente, as minhas colegas de trabalho fizeram o favor de me relatar as aventuras daquele mítico dia de feriado. Agradeço-lhes, do fundo do coração, especialmente porque, dos relatos todos, bem espremidinhos até ao último adjectivo, a única substância que sobra é o surpreendente facto de ter havido um surto de golpistas sem pingo de vergonha na cara.

Uma quantidade quase absurda de gente, de muito boas aparências, a injectarem-se subtilmente algures na fila para pagar as compras, nunca a mais de um quarto do seu comprimento a contar da caixa. O truque mais usado foi a aproximação estratégica a uma prateleira para consultar determinado artigo, seguida de um violento ataque de prisão de pés ao chão, como quem assobia para o ar.

O mais extraordinário, a meu ver, foi a reacção desta gentalha quando confrontados por pessoas que subitamente se viram ultrapassadas, assim, sem mais nem menos: sem qualquer pinguinho de vergonha, reagiam invariavelmente com um daqueles ares de espanto e incredulidade, como se tivessem sido apanhados pela polícia de choque a ajudarem uma velhinha a atravessar a estrada ou a salvarem uma criança de morrer afogada! Nalguns casos, quase foi preciso sacudir a escumalha à pancada, tal era a crença no direito constitucional ao golpe na fila das compras. Na maior parte dos casos, foi necessário elevar a voz, quase ao nível do regateio do preço do peixe. 

Em resumo, a sociedade portuguesa está a ficar demasiado podre. Demasiado! E os canais de TV continuam a fazer passar, eficazmente, a triste mensagem de que ser-se podre de valores é perfeitamente aceitável e até pode ser louvável… pickwick


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publicado por pickwick às 18:10
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Segunda-feira, 7 de Maio de 2012
A boa vida das mulheres

Ainda estou para aqui meio abananado com uma conversinha tida há poucos dias com uma conhecida, brasileira, rapariga para os seus trinta anos e mãe de filhos. Por acaso, e só mesmo por acaso, é muito jeitosa, mas isso agora nem interessa.

Não me recordo como é que a conversa chegou ao rumo que chegou, porque eu ia jurar que eram apenas dois dedos de conversa sobre banalidades, mas, subitamente, estávamos a falar de casamentos e namoricos e dinheiro.

 

Segundo ela, a função da mulher é gozar a boa vida que o marido ou o namorado se encarregaria de proporcionar. Mesmo nos casos em que a mulher trabalhe, compete ao marido ou namorado dar-lhe uma espécie de mesada, para que possa gozar a boa vida a que tem direito. Isto é, sapatos, roupas, joias, passeios, etc. Ainda lhe perguntei se isso não pareceria “pagamento de serviços”, mas ela não fez caso. Ao invés, marcou bem a sua posição: o dinheiro que ela ganhasse a trabalhar, serviria apenas para ela se divertir. As despesas com o dia-a-dia seriam por conta dos rendimentos do homem, o qual ainda teria que presenteá-la com a tal mesada.

 

Eu disse-lhe que, ah e tal, não costuma ser bem assim… o casal divide as despesas, os rendimentos, os bons momentos e os maus momentos, as aflições e os alívios, as tarefas domésticas e os jantares à luz das velas. E, certamente, o namorado não tem nada que dar regularmente dinheiro à namorada, só para que esta goze uma vidinha boa, qual princesa rameira.

 

 Partilhei com ela a minha sentida preocupação de que, numa situação assim, como descrito por ela, o homem resuma a sua vida a um estado permanente de escravidão, tudo fazendo e de tudo abdicando, só para alimentar o desejo voraz de uma vida boa, sempre às compras, sempre a divertir-se. Chutou para canto, claro.

 

Por fim, como que a encerrar a brilhante actuação de uma orquestra, deixou-me este comentário delicioso: ah… assim já sei porque você continua vivendo sozinho… não entende as mulheres mesmo… (com esta é que fiquei sem capacidade de mais argumentar, confesso)

 

Concluindo, é por estas e por outras, realmente, que continuo a viver sozinho, na paz e no sossego de uma muito saudável solidão. pickwick


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Quinta-feira, 3 de Maio de 2012
A importância da cintura

Não saberia explicitar esta minha preocupação com as cinturas femininas, se não tivesse levado uma ensaboadela da minha ex sobre o assunto, há largos anos atrás. Convém referir, contudo, que a minha ex não sabia desta minha preocupação, tal como desconhecia as demais, pois por essa altura eu era um gajo muito despreocupado, excepto com o fenómeno do excesso de pêlos, com o fenómeno do excesso de volume, e outros aspectos de dimensão estética elevadíssima.


Dizia a minha ex, que o macho faz uma inconsciente distinção das fêmeas na perspectiva da procriação bem sucedida. E o sucesso da procriação está directamente relacionado com a largueza estrutural das ancas – que é bem diferente da largueza conseguida às custas da acumulação de celulite! Porque, pois então, uma estrutura de ancas mais larga permite procriar melhor, isto é, debitar cachopos maiores e a um ritmo mais acelerado. O olho do macho detecta isto num relance, sem que o consciente se aperceba. Um gajo está a tirar as medidas às coxas, à penugem, à dimensão e firmeza dos seios, ao cabelo sedoso ou seboso, ao aroma, ah e tal, enquanto o inconsciente está a fazer contas à velocidade da luz. Zás!, 34 cm de ossatura, parideira média, comprado! Só 29 cm?... Nem com um esquilo consegue procriar!


Ora, das ancas até ao umbigo, vai aquilo a que chamamos cintura. Menos ancas, logo cintura menos acentuada, logo reprovação do inconsciente.


E se tiver umas ancas estruturalmente largas, mas sem cintura? Isto é, uma espécie de cilindro. Será boa parideira? Veja-se o caso do hipopótamo: não tem cinturinha nenhuma, apesar de não ser bicho estreito de ancas, e o resultado está bem à vista – uma cria, apenas! Já a Popota foi desconfigurada com o nefasto propósito de accionar os inconscientes alarmes das criancinhas, geneticamente preparadas para a detecção de boas parideiras. Assim, uma Popota com uma ligeira cinturinha – e não o pote de geleia de um real hipopótamo – convence a criançada de que estão perante uma eficaz reprodutora de hipopotamozinhos. Até os paizinhos olham uma segunda vez, para conferir a sua capacidade reprodutora e dar a bênção financeira.


Depois, há os detalhes da cintura. Uma cintura mais discreta e mais flácida, passa a ideia de uma procriação relaxada. Uma cintura mais bem delineada, com um pouquinho de fibra e palmo e meio de músculo, transmite uma sensação de procriação cuidada, bem assistida e vigorosa. Quando há aquele discreto desfiladeiro duplo (“double canyon”) a descer para as virilhas, o olhar perde-se e o coração atrapalha-se, porque o inconsciente está a dar o tilt com o brutal expoente da potência de procriação da fêmea.


Passando à frente da teoria da minha ex, a cintura feminina também tem muita importância pelo facto de que qualquer gajo se sente muito mais confortável quando sabe que a mulher está do seu lado e nela se pode apoiar para não dar uma das muitas possíveis quedas ao longo do trilho da vida. Evidentemente, toda o homem sabe que, numa queda, não vale a pena lançar as mãos às maminhas da mulher, pois aquelas não foram concebidas para os homens se pendurarem nelas e alguma eventual ou bem disfarçada elasticidade pode levar os dentes ao chão. Pelo que, a seguir às maminhas, a caminho do solo, vêm as ancas. Havendo cintura, é como na escalada de montanhas, um gajo tem onde se segurar. Sem cintura relevante, é como querer subir a um poste ensebado, e as mãos deslizam non-stop até aos tornozelos, onde já é demasiado tarde. E não, joelhos salientes não são sexualmente estimulantes nem ajudam a parar o deslizamento das mãos numa queda.


Por fim, há um outro pormenor na preocupação com cinturas bem definidas: o extremo erotismo da roupa que sai por cima. Gaja que é gaja, tira a roupa por cima quando está com um gajo. Cruza os braços com aquele jeito inimitável, levanta-os e a banda filarmónica começa a tocar “Carmina Burana” como se fosse o desembarque de intrépidos pioneiros numa qualquer praia de uma qualquer ilha desconhecida. Não há maminhas que não subam na consideração de um homem quando os braços se levantam. Junta-se, neste momento, a oportunidade bem safada de um gajo poder deitar o olho, em total liberdade e sem qualquer constrangimento, a qualquer parte do corpo (ou roupa) dela. Uma espécie de momento “Red Light District”. Sem cintura, qualquer movimento das magras ancas pode levar a que a roupa caia de forma pouco natural e muito pouco sensual. É o aconteceria se uma fêmea de hipopótamo estivesse em cima de apenas as patas traseiras, trajando uma mini-saia axadrezada e meias de seda fantasiadas, e abanasse a cauda – blerk!... Com cintura, elas até costumam fazer aquele teatro simpático em que fingem que tentam tirar a roupa por baixo, mas descobrem que não passa nas ancas, e ups!, um sorriso traquina, levantam os braços e… lá está… a banda toca a “Carmina Burana” e… pronto… o resto já se sabe… pickwick



publicado por pickwick às 23:04
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Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
Garganta funda

É feriado, que por acaso é Dia do Trabalhador, e um gajo mete-se a jeito para um dia de sossego, na paz e harmonia de um lar isento de stress. Começa-se por abrir as janelas, para deixar entrar um projecto falhado de luz solar. Um passeio matinal de pouco mais de dez metros pelas assoalhadas, para verificar se há monstros mutantes renascidos das cinzas da noite. Um copo de água. As plantinhas estão na mesma, que sem sol não há quem cresça. Ligam-se os dois computadores, verifica-se o mail, tiram-se uns apontamentos, abrem-se uns documentos, planeia-se o dia de trabalho, come-se uma bolachinha ou duas ou cinco, suspira-se de prazer por um dia tão sossegado e promissor. Entretanto, tira-se um generoso naco de lombo de porco do frigorífico e esfaqueia-se cirurgicamente em quatro locais distintos, pelos quais se introduz, a seguir, outras tantas linguiças picantes. Unta-se com especiarias que fazem mal aos corações mais sensíveis e mergulha-se a coisa em vinho branco. Ao almoço, irá ao forno com umas batatinhas. Um gajo até se baba, só de imaginar o petisco. Regressa-se ao computador e prossegue-se com uma pesquisa na lista de espécies autóctones.

 

Nisto, ia a manhã a meio, a campainha da porta começa a zurrar desalmadamente. Deve ser um vendedor de sabonetes lava-rabos ou técnicos de TV por cabo. Devia, mas não foi. Eram dois compinchas de longa distância, que por essa hora deviam estar algures a passear-se pelas serras de Arada e S. Macário. Em vez disso, estavam à minha porta, a sugerirem-me calçar as botas e abalar com eles para o passeio pedestre. Ora, um gajo com tanto trabalhinho para fazer, tanto lombo para assar e comer, tanta paz e tanto sossego, não cede facilmente. Ao fim de muita conversa da treta, e de uma actualização de conhecimentos aos comandos do Inkscape, não tive outra alternativa senão calçar as botas, meter meia dúzia de tarecos na mochila, e sair porta fora, renunciando heroicamente, qual mártir de uma causa desconhecida, a um dia de trabalho e paz e sossego e lombo de porco.

 

Algures no meio de nenhures, ou na Serra de Arada ou na Serra de S. Macário (venha o diabo e escolha!), deixámos o carro numa amostra de povoação, com um nome do género covas-de-qualquer-coisinha, e partimos rumo a uma garganta que subia quase até aos céus, por entre calhaus afiados e vegetação rasteira.

 

Umas fotos artísticas às folhas de carvalho salpicadas por pingos de água da chuva, uma gincana por entre incontáveis poios de vaca, tira impermeável, mete impermeável, volta a tirar, volta a meter, ora chuva, ora sol, enfim. Entretanto, hora do almoço. Paragem numa encosta, pseudo-abrigados do vento e da chuva numa curva abrupta. Chouriça a assar, queijinho, pão da véspera, bolachas, e uma mísera e única garrafinha de tinto alentejano, tudo para repartir por três estômagos esfomeados pelo esforço da caminhada e pelo avançado da hora. Com chuva a meio, o que deu muito jeito para deixar que algumas pingas aumentassem o volume do tinto nos copos – o desespero tem destas coisas… estragar um tinto requintado (Reguengos) com água da chuva.

 

Após o repasto, retoma-se a caminhada, sempre a subir. Entretanto, estala uma acesa discussão sobre vacas, a propósito dos incontáveis poios de vaca que evitávamos pisar, os quais, para surpresa de todos, eram maioritariamente provas inegáveis de que as vacas daquelas paragens não andam a ter a melhor das alimentações. Quem já andou pelo Portugal profundo, em terras frequentadas por bovinos, conhece muito bem o aspecto de um saudável poio de vaca – uma espécie de bolo de côco em cima do qual assentou as nalgas um simpático babuíno. Mas, os poios de hoje, eram mais do género arroz doce com ervas aromáticas e uma pitada de pimenta preta. Uma nojeira. Daí até começarmos a insultar a vacaria da região, foi uma questão de segundos. Só que, a bem dizer, houve ali uma dificuldade linguística conceptual que limitou a nossa agressividade: não se vai insultar uma vaca, chamando-lhe “vaca”. Ainda começámos com isso, aproveitando a liberdade dos montes. Mas, soou tão mal, que… “suas cabras!...”, ainda começou o Miguel… mas, nããã… ainda soou pior… E andavam três gajos, a subir um monte, a chover, no meio de giestas e tojos, a pensar que nomes feios haveriam de chamar às vacas que se borravam todas a subir o mesmo monte. Entretanto, a uns cem metros, três vacas pardas olhavam-nos com alguma atenção. Fiz “mmmm” e uma delas respondeu, mas depois falhou o vocabulário e a conversa ficou por ali.

 

Entretanto, actualização geográfica, o Nando saca das cartas militares para nos posicionarmos no terreno e melhor planearmos a ascensão até ao cume. Ups! Eram da Serra do Caramulo! A conversa mudou rapidamente das vacas indígenas e da falta de consistência do respectivo cocó, para os sinais evidentes e inegáveis de pré-senilidade do Nando – mas ele é que tocou no assunto, nós limitámo-nos a anuir simpaticamente!

 

Umas centenas de metros mais à frente, o terreno começou a complicar-se. O acesso à garganta era impraticável, e o Nando, que era o guia da expedição, descobriu que tínhamos falhado o trilho correcto ainda antes do almoço. Mais um sinal de pré-senilidade, claro. Logo a seguir, outro sinal de pré-senilidade: a bateria da máquina fotográfica tinha vindo praticamente descarregada, assim como a bateria extra!

 

Voltámos para trás, depois de cinco minutos de paragem estratégica para deixar cair livremente uma carga de granizo, regressando ao carro e encerrando oficialmente o passeio pedestre. A meio da descida, mais um sinal de pré-senilidade: a única laje de xisto escorregadia que havia ao longo do trilho, foi precisamente onde o Nando meteu as botas e zás!, de rabo na pedra. Então, partiste o cóccix? Ah e tal, não, não, que tenho umas boas nalgas. Prontinho, adiante, adiante. Conversa sobre nalgas, e as nalgas da amiga do Miguel que tinha quase partido o cóccix porque não tinha as nalgas tão acolchoadas como as nossas e mais não sei o quê… Nestas alturas, dou graças por não termos companhia feminina, senão, não haveria reputação que sobrevivesse ao nível tão eloquente das nossas conversas...

 

À chegada ao carro, o nosso guia fez mais uma descoberta estonteante: olhem, ainda bem que voltámos para trás lá em cima… é que íamos na garganta errada… estou mesmo a ficar senil… - e apontou para uma majestosa garganta afunilada entre medonhos penhascos, sobrevoada por uma camada de nuvens do mais negro que havia disponível, à direita da garganta que tentámos subir e que não nos levaria a lado algum, até porque não tinha mesmo trilho algum para levar ao cume. Mas, aquela outra, sim, era uma garganta para Homens! Enfim, fica para uma próxima. De preferência, quando o guia se lembrar de levar as cartas militares certas! pickwick



publicado por pickwick às 00:40
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Domingo, 29 de Abril de 2012
Catalpa x cataplana

Quando um gajo normal começa a lidar com uma área científica nova qualquer, abraça obrigatoriamente um leque de conhecimentos e de vocabulário técnico. Ora, eu nunca tive sensibilidade para a biologia, apesar de gostar de estar na natureza. Provavelmente, tal deve-se ao facto de só ter tido dois professores de Ciências da Natureza durante toda a minha vida: um oficial do exército que tinha o triplo da minha altura e uma senhora moderadamente humorada que me dava sempre 49% nos testes. Além do mais, nunca tive queda para a memorização de nomes, apesar de sempre ter cumprido os mínimos, isto é, jamais esquecer (ou trocar) o nome da namorada.

 
Obviamente, há limites. Um gajo mete-se a ler tratados científicos sobre propagação de plantas e fica logo chateado nas primeiras linhas, quando não percebe nem metade das palavras. Por exemplo, havia necessidade de usar a palavra “ritidoma”? Claro que não, bastava usar “casca” e o leitor percebia logo, mas há gente que gosta de se armar aos cágados, sempre a puxar de palavras de setecentos e cinquenta cêntimos… E amanhã de manhã já não me lembrarei do que quer dizer “ritidoma”.

 

A cena dos nomes em latim dá muito jeito, em especial para espécies que têm vários nomes na cultura portuguesa, e muiiiiito em especial para as espécies a que os portugueses trocam os nomes, baralhando tudo. Começando a falar em latim, o povo entende-se logo e deixa de haver problemas de comunicação. Depois, há as espécies não autóctones, a que a cultura portuguesa não deu nenhum nome. Aí, o mais frequente é adoptar-se o primeiro nome em latim.


Uma das árvores mais comuns nos arruamentos de cidades e vilas é a “catalpa bignonioides”, originária do sul dos Estados Unidos. É fácil pronunciar “catalpa”, mas nem completamente sóbrio consigo pronunciar “bignonioides” antes da décima tentativa.


Apesar da aparente facilidade na pronúncia, parece que um outro colaborador do viveiro tem algumas reticências misteriosas quando o assunto é esta árvore. Misteriosamente, porque se trata, de facto, de um mistério, ele insiste em tratá-la carinhosamente por “cataplana”. Já o alertei para a confusão linguística, vai para cima de vinte vezes, mas ele não desarma e insiste na “cataplana”. Começo a pensar seriamente se não quererá transmitir-me uma mensagem subliminar qualquer, relacionada com o âmbito gastronómico dos momentos de pausa nos trabalhos rurais. Eventualmente, trocar a carne grelhada por uma mariscada, a manteiga do pequeno-almoço por um paté de delícias do mar, o pudim por gambas, e o tinto por um verde gelado… pickwick



publicado por pickwick às 20:38
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Sábado, 28 de Abril de 2012
Manteiga de amendoim

Há pouco mais de dois anos que colaboro - como voluntário - num viveiro florestal, o qual está englobado num projecto de reflorestação de um terreno pouco pequeno, ali quase a chegar a Espanha, mas não tanto. É daquelas coisas em que um gajo se mete quando não consegue criar uma agência de modelos femininos ou montar um bordel de luxo ou arranjar namorada. Acontece.

 

Acontece, também, que um viveiro florestal desperta-nos para uma série de desafios inesperados. São as sementes que germinam de mais, as sementes que germinam de menos, a rega automática que entope, rega a mais, rega a menos, uma rabanada de vento mais pujante, um mangusto que assalta as instalações pela calada da noite, e… ratos!

 

Os ratos, são do catano! Começaram por venerar as centenas de bolotas de carvalho americano que foram semeadas em tabuleiros. Sobraram umas singelas covinhas vazias. Fizeram uma razia e instalaram-se de armas e bagagens algures onde lhes pareceu que tinham melhor vizinhança e não ficaria demasiado longe do supermercado para não ser preciso ir às compras de carro. Meteu-se rede metálica oito milímetros e encerrou-se o assunto (que estafadeira!). Mas, num viveiro, fechar a tasca das bolotas, é como fechar o restaurante chinês, mesmo ao lado do japonês, do mexicano, do italiano, e por aí fora. Os malandros podiam ter mudado para uma dieta sofisticada, baseada em saborosíssimos rebentos de ervas daninhas, tenrinhos e crocantes. Mas, não. Feitos brutos e de mau feitio, passaram a atacar sementes de prunus lusitanica, uma espécie autóctone que já raramente se encontra nas nossas matas. Não havendo rede para tantos tabuleiros de sementeira, inventou-se um esquema ao bom estilo Tarzan, pendurando-os com cordas que começaram a ceder após as primeiras regas.

 

Entretanto, procedeu-se a uma aprofundada investigação sobre armadilhas para ratos.

 

Ponderou-se, também, vedar todo o viveiro com rede e promovê-lo a resort tropical para um ou dois gatos – sem whiskas, nem sardinhas. Deliciosos ratos do campo, alimentados sem qualquer hormona, apenas à base de produtos naturais.

 

Da investigação, resultou um projecto de armadilha, recorrendo a um garrafão de água, peças móveis em arame, e manteiga de amendoim como isco. Adianto já que a armadilha não resultou, provavelmente porque o rato-do-campo português desconhece por completo a manteiga de amendoim, esse bedum do imperialismo americano, ao contrário dos ratos americanos que protagonizaram os inúmeros vídeos demonstrativos de armadilhas que abundam no Youtube. Valeu-nos umas pastilhas com veneno, e as coisas acalmaram por lá…

 

Mas, há muitos anos que não comia manteiga de amendoim. Desde… 1987. Entre 1984 e 1987, comia manteiga de amendoim como quem come caldo verde com rodelas de chouriça e um naco de broa. Não estava em Portugal, obviamente, porque, por cá, nessa altura, até a Coca-cola era “artigo de meio luxo”. Admira-me como não fiquei com diabetes, à custa disso. O mais habitual, era que a camada de manteiga de amendoim fosse de espessura superior à da fatia de pão. Um abuso, portanto. Desta vez, foi tudo mais comedido. Provámos a manteiga de amendoim ao pequeno-almoço, só por causa das cócegas, e o resto que sobrou das armadilhas ainda continua no frigorífico, à espera de passar o prazo de validade.

 

Pensando bem, acho que, pior que as fatias de pão barradas com manteiga de amendoim, eram as sandes de açúcar amarelo e canela com que a minha avozinha me presenteava ao lanche, quando ia passar algumas semanas a casa dela (ai, adolescência, onde já vais…). Ah e tal, é bom, come. Pois é, avozinha, e pumba, a boca toda empapada com açúcar e canela, os dentes acastanhados, uma nojeira completa. Depois, chegava o jantar, ah e tal, hoje o jantar é diferente, dizia a minha avozinha, e pumba, uma pratada de arroz doce a fazer as vezes da entrada, da sopa, do prato e da sobremesa, e um “não digas nada à tua mãe”. Já havia diabetes nessa altura? Ou é uma doença moderna que se propagou através dos macacos?

 

Bom, mesmo em minha casa, era um abuso. Recordo-me de, um belo dia, um dos meus vizinhos ter aparecido à hora do lanche e apanhado aqui o rapaz a preparar o leitinho numa caneca, segundo a receita habitual diária: um terço da caneca para o açúcar e o cacau, e dois terços para o leite. Qualquer coisa como uns quatro centímetros de depósito. O vizinho ficou escandalizado, eu fiquei com má fama nas redondezas, mas os grossos nacos de pão barrados em Tulicreme ficavam tão divinais quando mergulhados naquele néctar lácteo… pickwick



publicado por pickwick às 21:54
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Sexta-feira, 27 de Abril de 2012
Lavagem ao cérebro

Todos os dias, vou a caminho do trabalho a ouvir a Rádio Comercial no carro. Não é uma atitude muito inteligente, em especial quando o Ricardo ou o Palmeirim se esticam um bocado e um gajo vai por ali fora de boca escancarada, em sonoras gargalhadas, a toldar-se a vista com os litros de fluido lacrimal que nascem não sei de onde. É coisa para um acidente grave de chaparia a moldar-se a um viril eucalipto, ou, no mínimo, a ter que dar explicações pouco convincentes a algumas personalidades da população local.

 

Nos intervalos das cenas hilariantes, os senhores da Rádio Comercial continuam naquela incansável e pouco nobre missão de impingir uma certa e determinada música aos seus ouvintes. A primeira vez que ouvi, pensei que era mais uma cena hilariante. Um gajo a discursar por cima de uma pseudo-melodia, a mandar-me ir para a rua abraçar fulano e sicrano, com uma entoação tal que parece que engoliu um agrafador e que a pilha do pacemaker está a falhar. Pessoalmente, não estou bem a ver que venha a correr bem, caso eu saia à rua e abrace alguém. Posso dar de caras com um larilas carente, levar com uma ponteira de guarda-chuva nos testículos, ou ser preso por pedofilia.

 

Mas, vá, a letra até faz um apelo engraçado, embora venha atrasada no tempo. O povo já está num patamar evolutivo e filosófico em que o falhanço não existe, porque a culpa é dos outros, merece-se sempre muito mais e só não se tem por culpa dos outros, o sonho nunca se realiza, por culpa dos outros, e por aí fora, que a culpa é sempre dos outros e por isso somos os maiores… E, certamente, quem nunca acha que comete falhas, nunca sentirá um abanão, nem nunca imaginará cair e será sempre, sempre, sempre muito forte, o maior… O senhor que escreveu a letra, esquece-se que um dos principais cancros da nossa sociedade, é o excesso de auto-estima, e não o seu défice. Mas, isso agora não interessa.

 

O que importa, é que andam a impingir esta música à malta. À força. Como uma lavagem ao cérebro. Ah e tal, hão-de ouvir tantas vezes isto, que daqui a pouco tempo vão adorar, apesar de ser um bocado intragável. Confesso que já falta pouco para eu começar a assobiar depois de a música chegar a meio, mas, até meio, é um sofrimento daqueles, sempre agoniado com o engasgamento do cantor, que ainda pode entrar em paragem cardíaca caso a pilha passe de fraquinha a moribunda ou o agrafador largue os agrafos todos como má reacção a um galão matinal com torradinha... pickwick



publicado por pickwick às 20:49
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